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Resumen de ponencia
Novas configurações da formação humana e do trabalho na transição para além do capital

*Krishna Neffa Vieira De Castro



O esforço teórico realizado na tese de doutorado Novas configurações da formação humana e do trabalho na transição para além do capital, defendida no Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPFH/UERJ), em 2017, apontou que a lógica normativa que governa a racionalidade do neoliberalismo está intrinsecamente articulada à globalização e à financeirização capitalista. Tal racionalidade instaurou novas regras de funcionamento econômico, modificou condições políticas e alterou as relações intersubjetivas por meio de um conjunto de discursos, práticas e dispositivos de poder que, ao submeter o trabalho e a própria vida ao ditames da valorização e da acumulação do capital, forjou indivíduos obrigados a se auto-governarem sob a égide do espírito da competitividade, imersos em ambientes de competição externos (mundial, regional e local) e internos (intra corpore). Seus desejos e, consequentemente, sua subjetividade passaram a ser governados por mecanismos de controle que julgam serem seus, mas que não foram autogerados nem autoproduzidos. As técnicas de gestação, produção e gerenciamento do sujeito neoliberal têm por objetivo fazer com que ele trabalhe no sistema e para o sistema de reprodução sociometabólica do capital como se trabalhasse para si mesmo, em conformidade com as “suas” aspirações. Uma dessas técnicas de captura e controle das subjetividades consiste na disseminação do medo do desemprego e da precarização do trabalho (informalização e degradação do estatuto salarial). Essa técnica constitui aquilo que Giovanni Alves (2011) denominou de “afetos do sociometabolismo da barbárie” (novas formas de estranhamento, de fetichismo social e de constituição da subjetivação pelo medo). Essa forma de governar as subjetividades intenta suprimir o sentimento de alienação, posto que o próprio sujeito se coloca como responsável por tudo aquilo que ocorre em sua vida, independentemente das decisões tomadas em outras instâncias, sejam elas públicas ou privadas, locais, regionais ou até mesmo no âmbito mais abrangente das políticas nacionais e internacionais. Assim, atribui-se um caráter positivo ao desempenho e instaura-se a sociedade do cansaço em que a “positividade do poder é bem mais eficiente que a negatividade do dever” (HAN, 2005, p. 25), dado que o sujeito do desempenho é mais rápido e produtivo que o sujeito da obediência, pois sua submissão refere-se à si mesmo, com o alto preço cobrado pela própria alienação.
A partir daí, o entendimento do trabalho como elemento fundante da humanização do homem e, por outro lado, como fonte de desumanização se transformado em trabalho assalariado, alienado, despertou a necessidade de esclarecermos, numa perspectiva dialético-materialista, as bases ontológicas, epistemológicas e políticas da relação trabalho-educação, com vistas a identificar a dimensão política dessa relação e suas potencialidades na promoção de mudanças estruturais nas sociedades contemporâneas.
A descrição desses pressupostos, assim como das reformulações da organização do trabalho, ao longo dos últimos séculos, e das relações de poder estabelecidas pela burguesia para transformá-la de classe dominante em classe dirigente explicitou os mecanismos que o Estado capitalista desenvolveu e desenvolve para adaptar o ser humano às demandas inerentes à concretização do projeto burguês de sociedade. Nesse sentido, inserimos na análise a utilização da Pedagogia da Hegemonia como estratégia de reprodução sociometabólica do capital por incorporar o conceito gramsciano de "intelectuais orgânicos", sob o pressuposto de capacitar os membros das classes dominadas, aptos à articulação com os gestores públicos, para disseminarem a naturalização das relações de exploração e de dominação burguesas com vistas a reduzir as resistências no âmbito do processo produtivo.
Em processo permanente de autoconstrução, o ser humano não pode prescindir do trabalho, posto que este se apresenta como elemento fundante de sua humanização no presente e de sua futura sobre-humanização, ambos tendo como ponto de partida sua própria infra-humanidade, se considerarmos, como o fazemos, o passado como memória ativa e viva no presente. Ao transformar a natureza, isto é, ao modificar a realidade que o circunda, o ser humano modifica-se e constrói a si mesmo. Nos dizeres de Marcos Arruda, o trabalho, sendo “um fator de personalização e de socialização do ser humano, desempenha no sujeito uma função antropopoiética e emancipadora: é construtor não apenas do mundo mas também da subjetividade do trabalhador” (2003, p. 27). Para esse autor, seguindo as pegadas de Marx, o trabalho constitui-se como “fato e fator de educação, de cultura, de consciência e de autoconstrução do homo, como expressão de uma rica diversidade de processos de conhecer e de utilizar-se do conhecimento” (2003, p. 38), ou seja, o trabalho institui-se como elemento mediador entre o ser humano e seu processo educativo.
O caminho para superar a divisão estrutural e hierárquica do trabalho e sua dependência ao capital em suas determinações passa pela educação, mas uma educação que se aproxima da pedagogia que tem a humanização como projeto, como telos, como ponto de partida de toda ação pedagógica dentro e fora da escola, e que seja percebida como prática que ultrapassa os limites da transmissão de conteúdos disciplinares no ambiente escolar e se vincula ao mundo do trabalho sem possuir um sentido em si mesma, mas com uma finalidade articulada a contextos histórico-sociais específicos, de modo a abrir possibilidades de interligação dos diversos aspectos da vida das pessoas, e não seja somente uma preparação teórica para a vida.
O desafio de pensar o processo educativo em uma época de transição paradigmática civilizacional, intrinsecamente relacionada à crise estrutural do sistema de reprodução sociometabólica do capital, articula-se com a própria questão de pensar o ser humano em sua integralidade prática e teórica – incluindo-se as interações entre as dimensões física, emocional, mental e espiritual – em seu devir ético e estético, filosófico e antropológico, ontológico e epistemológico.
Nessa lógica, que se contrapõe ao ditames do mercado como regulador dos sentidos da existência, o socialismo de mercado com características chinesas encontra eco, ainda que distante, para a possibilidade de formular princípios e práticas capazes de potencializar a transição para um novo modo de produção para além da lógica do capital, valorizando a diversidade e incluindo pela diferença.
Embora os estudos tenham demonstrado que, tanto no sistema capitalista neoliberal quanto no socialismo de mercado chinês, o trabalho humano é uma mercadoria a ser comprada e vendida e, nesse contexto, a educação assume a função alienante de preparar os indivíduos para atenderem às demandas do mercado com uma formação que visa à eficiência econômica como finalidade última em um processo competitivo que torna os trabalhadores autômatos em busca da empregabilidade para sobreviver, a análise mais aprofundada da relação trabalho– educação em realidades distintas demonstrou que há diferenças significativas no projeto de sociedade chinesa, tendo em vista que as visões de mundo e de homem, de organização e desenvolvimento dessa sociedade são diferentes.
Nas sociedades onde há o predomínio da racionalidade neoliberal, como as sociedade latino americanas, por exemplo, a visão de mundo coopera para a adequação dos indivíduos à naturalização da competição, estimulando o individualismo e a acumulação do capital em detrimento de valores éticos e morais imprescindíveis à construção de uma sociedade onde a partilha, o altruísmo, a solidariedade sejam sustentáculos de práticas integrativas.
Na China, o sistema socioeconômico norteia-se pelos princípios éticos e morais (honestidade, cooperação, prática de uma vida simples, respeito à individualidade e à cultura local) e sobre esse alicerce os chineses pretendem edificar uma economia inclusiva a serviço do desenvolvimento humano intensificando a educação para a cidadania e para os conceitos socialistas de democracia.
No atual momento histórico das forças produtivas chinesas, o socialismo de mercado, desenvolvido a partir de 1978 com Deng Xiaoping, apresenta-se como uma etapa do desenvolvimento para uma outra forma de metabolismo socioeconômico.




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* Neffa Vieira De Castro
Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana. Universidade do Estado do Rio de Janeiro - PPFH/UERJ. Maracanã. Rio de Janeiro, Brasil