Neste artigo buscamos contribuir para preencher a lacuna sobre os processos eleitorais municipais a partir de uma análise da atuação das organizações político-partidárias na mesorregião Sul e Sudoeste de Minas Gerais, formada por 146 municípios. Pouco se tem investigado sobre a atuação dos partidos políticos nas pequenas cidades do interior. Geralmente, a literatura destaca a fragilidade das organizações partidárias nas cidades que “rendem pouco voto” como consequência da imersão em contextos marcados fortemente por relações de dependência e fortemente hierarquizadas. Além do fato de serem deixadas à deriva pelas cúpulas nacionais e estaduais nas cidades que apresentam menor ou nenhum potencial estratégico (RIBEIRO, 2013). A análise descritiva dos dados sobre os processos eleitorais nas cidades da Mesorregião do Sul e Sudoeste de Minas Gerais se justifica, então, ao se inserir neste quadro como uma análise da atuação dos partidos políticos em cidades sem 2º turno. Considera-se ainda o fato dessa mesorregião de Minas Gerais reunir cidades que variam em tamanho entre 1.727 a 152.435 habitantes e em nível de desenvolvimento com IDHMs entre 0,643 e 0,787 (IBGE, 2010).
Os dados analisados foram coletados do site do TSE e dizem respeitam às eleições municipais entre os anos de 2000 e 2016. As seguintes questões orientaram a análise: quais partidos políticos ganharam as eleições no sul e sudoeste de Minas Gerais? Como os partidos se comportaram ao formar coligações para o executivo nas 10 maiores cidades da região? Descrevemos o desempenho dos partidos nas eleições analisadas e calculamos o número efetivo de partidos (NEP) que atuaram na Mesorregião do Sul e Sudoeste de Minas Gerais. Em seguida, analisamos as redes de coligações nas 10 maiores cidades na região. Examinamos a tendência dos partidos repetirem coligações nos municípios.
Os resultados mostram que de 2000 para 2016 houve o aumento no NEP na mesorregião. Nos legislativos municipais passou-se de 8 para 14 partidos atuando na região, com média de 11 organizações por eleição. Nas eleições para prefeito, o NEP passou de 7 para 10, com média de 8 organizações. Observa-se um ganho aparente em representatividade na região, pois mais organizações alcançaram as arenas formais de exercício da política.
Quando analisamos o desempenho dos partidos, destaca-se que o poder político está concentrado em algumas organizações. Embora o sistema partidário tenha aumentado seu potencial para representar interesses, sua configuração na mesorregião analisada revela a concentração de poder nas mãos dos grandes partidos. Nota-se que a vitória dos grandes partidos nacionais é recorrente na região, como era de se esperar PT, PSDB, PMDB, DEM/PFL e PTB se destacam com as principais forças eleitorais na região. Vale observar a trajetória do PT com seu movimento de ascensão até 2012, quando se destacou como a terceira maior força nos legislativos municipais e o partido com o maior número de prefeituras na região. Todavia, o desempenho eleitoral do PT nas eleições de 2016 sugere que a votação expressiva de 2012 não se sustentou na identificação entre o partido e seus eleitores na região.
Além destes partidos, os resultados eleitorais revelaram partidos intermediários que contribuíram para o aumento do NEP na região. São eles: PR, PSD, PDT, PSD, PPS, PV. Nas eleições de 2016, chama atenção o desempenho dos pequenos partidos que disputaram as eleições na região pela primeira vez. Neste caso, merece destacar a REDE.
A literatura tem destacado que a possibilidade de formação de coligações favorece a chegada ao poder dos partidos pequenos. É possível observar tal movimento nas coligações da REDE nas eleições municipais para prefeito nas 10 maiores cidades da mesorregião. A legenda estabeleceu sete diferentes coligações, liderando apenas uma delas. Seu candidato recebeu apoio dos seguintes partidos: PT, PSD, PSDC, PTB e PDT. Nota-se que embora não tenha vencido a coligação expressou uma aliança de centro-esquerda. Todavia, a literatura destaca que a dimensão ideológica não é uma variável chave para definir a formação de alianças eleitorais. No caso da REDE, é possível observar que a organização esteve ao lado de partidos de direita e de centro ao apoiar candidatos às prefeituras da região. Nota-se, por exemplo, as relações indiretas com DEM e PSDB na coligação liderada pelo PTB.
A análise descritiva das coligações nas 10 maiores cidades da mesorregião mostra que o número de coligações aumentou. Em 2016 registrou-se 21 alianças eleitorais na região. Observou-se uma menor tendência de repetir coligação em mais de uma cidade. Os dados mostram a tendência de formação de coligações locais, alianças em apenas um município (147 laços de coligação). Este dado sugere uma estratégica diferente nas eleições de 2016 em relação às anteriores, o que é confirmado pelo fato dos partidos participarem, em média, de 7 coligações nas 10 maiores cidades.
Utilizamos gráficos que mostram as coligações, para os dados disponíveis, que ocorreram em mais de uma cidade. O nome das coligações é dado pelo partido do candidato à prefeito. Em 2000, as coligações mobilizaram a cooperação entre 9 e 13 partidos. Nas eleições seguintes estes números passaram para 8 e 19, 8 e 21, e 6 e 24. As menores coligações foram encabeçadas pelos seguintes partidos PT, PPB, PDT, PSL e PSDB que conquistaram, respectivamente, 2, 1, 1, 1 e 3 prefeituras. Já as maiores coligações foram lideradas pelas seguintes organizações: PMDB, PFL/DEM, PSDB e PMDB. Os partidos que puxaram essas coligações venceram as disputas eleitorais em 2, 3, 3 e 2 cidades. O partido que adotou uma estratégia mais autônoma foi o PT. Em 2000, o PT liderou 5 coligações e participou de mais uma. Em 2004 e 2012, o PT liderou coligações em 8 cidades e participou em coligações de outros partidos em dois municípios. As eleições de 2016 oferece outro cenário, os partidos se envolveram em mais coligação lideradas por outros partidos. O PT, por exemplo, esteve em 4 coligações lideradas por outros partidos.
Os dados mostram as principais organizações partidárias que atuam na mesorregião analisada. Embora as eleições de 2016 sugerem que o sistema partidário esteja passando por mudanças, a análise temporal mostra que o mesmo alcançou algum grau de institucionalização na região, haja vista a presença constante dos mesmos partidos na disputa eleitoral. Notou-se que o sistema se apresenta como multipartidário e revelou uma tendência ao aumento do NEP sugerindo que mais grupos organizados fazem-se presente na arena formal da política. Os dados também sugerem que as alianças eleitorais marcam o comportamento dos partidos na região e parecem afetar seu desempenho. Todavia, como sugerido pela literatura, tais alianças não se orientam rigidamente pelo viés ideológico, mas responde aos interesses locais dos partidos. O caso da REDE foi utilizado para ilustrar esse argumento. Embora o apoio ao candidato da legenda em uma das 10 maiores cidades da região tenha se sustentando numa aliança de centro-esquerda, indiretamente o partido encontrou-se lado a lado do DEM e do PSDB ao apoiar um candidato do PTB. O caso do PT, por outro lado, mostra como um partido ao perder capital político tendeu a abrir mão do domínio de coligações e apoiar outros partidos.