O processo de artificação da tatuagem na capital paulista (São Paulo/SP) é marcado por relações de poder, que envolvem saberes e hieraquizações sobre a prática. Para ser reconhecido/a como artista, o/a tatuador/a se apoia em certas estratégias e discursos. Parto da hipótese de que uma das estratégias na artificação é criar um estilo de tatuagem que singularize e dê visibilidade ao/à tatuador/a, em que a exclusividade, a inovação e a capacidade criadora são valorizadas enquanto forma autoral. Em diálogo com Heinich, compreendo que é necessário focar nas formas e nos investimentos que asseguram o relacionamento com a arte e com o valor artístico dos artistas - no caso, os/as tatuadores/as. Assim, interessa analisar os discursos como forma de compreensão das representações e dos reconhecimentos e contextualizá-los no campo da tatuagem.
A artificação é o processo de transformação da não-arte em arte, em que os sujeitos consideram como arte um objeto ou uma atividade que, anteriormente, não era visto como tal. Refere-se ao modo em que práticas sociais e culturais do cotidiano são transformadas e construídas como arte, com ênfase em aspectos materiais e situações concretas de mudança, no cruzamento dos vértices da criação, recepção, mediação e definição da obra de arte.
Ela é entendida como um processo de mudança que pode englobar tanto o modo prático quanto o simbólico, em que a atribuição de significado, reconhecimento e legitimação é o resultado de transformações concretas: do conteúdo e da forma de uma atividade, das qualidades físicas das pessoas, dos objetos e dos dispositivos organizacionais.
Desde sua produção até sua recepção e mediação, a tatuagem necessita enquadrar-se em certos padrões para ser reconhecida como arte. Ao criar essas definições, os/as tatuadores/as acabam por delimitar o que é arte. Para obter o estatuto de arte, transformações políticas e sociais são acionadas, como sua ruptura com a marginalidade. Dessa forma, minha proposta é abordar as relações de poder as negociações entre os/as tatuadores/as na construção do saber sobre a prática a partir das estratégias e dos discursos atuais deles/as que apontam para a reivindicação e a inserção da tatuagem em meios artísticos, associados ao aprimoramento de técnicas e tecnologias, ao interesse por inovações e à circulação de práticas entre artistas, o que caracterizaria sua artificação.
Como a proposta não é discutir o que é arte e sim quais são as estratégias e os discursos negociados na artificação da tatuagem, trago como referência teórica os estudos de Foucault, para pensar as relações de poder estabelecidas. A artificação da tatuagem ocorre dentro de conflitos, disputas e negociações para significar o que é arte, em um campo da marcado por poderes, hierarquizações e exclusões. Desejo compreender quais são as dimensões negociadas na construção do valor e do saber artístico. Definir a tatuagem como arte envolve relações de poder, enquanto uma produção de saber, já que diversos saberes são institucionalizados no processo de artificação da prática.
Minha hipótese é que as práticas discursivas dos/as tatuadores/as são caracterizadas pela disputa pelo saber e pelo poder de delimitar, nomear e definir o que é arte. Interessa compreender como se constrói o artístico. Pretendo contextualizar e explorar a tendência dos/as tatuadores/as de reivindicar o estatuto de artista e apresentar seu trabalho como obra de arte. Minha suspeita é de que o limite do reconhecimento não é a tatuagem em si, mas sim a forma como os poderes entre os sujeitos são negociados e como suas posições são acionadas.
Pensando as relações de poder e as negociações na construção do valor artístico da tatuagem, pretendo responder: o que legitima determinados/as tatuadores/as e determinadas tatuagens como artísticos/as? Na disputa pela definição da verdade, que saber está sendo construído e quais são os discursos acionados? E, por fim, em quais condições a tatuagem é reconhecida como arte?
A metodologia utilizada é qualitativa, formada pelos métodos de observação participante nas instituições que discutem a tatuagem enquanto arte (convenções, workshops, eventos, museus, exposições, estúdios, sites e revistas), entrevistas com tatuadores/as que se inserem no processo de artificação da prática em São Paulo/SP e exploração bibliográfica e discussão teórica sobre modificações corporais e arte.