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Resumen de ponencia
Um olhar suburbano: O 3º Campeonato Sul-Americano de Seleções de Futebol por outro ângulo

*Glauco José Costa Souza Glauco Costa



A história do futebol no Rio de Janeiro é repleta de embates entre as camadas sociais que compunham a Capital Federal da República brasileira no início do século XX. Longe de ser monopólio de um grupo específico, o esporte bretão, desde a sua introdução, foi apropriado por diversos agentes na cidade carioca que, de acordo com a sua realidade, lhe deram um novo significado.

O futebol se desenvolveu no Rio de Janeiro de maneira diversificada em várias regiões e de formas diferenciadas o que, consequentemente, impede a sua caracterização como monopólio de um conjunto social específico. Tal visão também é a de Leonardo Pereira e de Francisco Carlos Teixeira da Silva, quem destaca “a origem múltipla do futebol brasileiro: nas ruas, nos colégios e nos clubes, passando por várias mediações sociais” (SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. Futebol: Uma Paixão Coletiva in SILVA, Francisco Carlos Teixeira da, SANTOS, Ricardo Pinto dos (org). Memória social dos esportes: futebol e política: a construção de uma identidade nacional. Rio de Janeiro: Mauad Editora: FAPERJ, 2006).

Nós também partimos deste referencial para que pensar que:

"De maneiras diversas, as classes baixas também puderam desfrutar do esporte bretão, pois o futebol, diferentemente do remo, do turfe, do ciclismo ou do alpinismo, não era refém de instrumentos para ser praticado, isto é, enquanto, sobretudo o remo e o turfe, precisavam, obrigatoriamente, de barcos e cavalos, o futebol não exigia nem mesmo uma bola oficial" (SOUZA, Glauco José Costa. Entre o cavalo e o barco, só podemos a bola – O processo de desenvolvimento do futebol no Rio de Janeiro entre as camadas populares no início do século XX. Monografia. Nova Iguaçu: UFRRJ, 2015, p. 46).

Por esta perspectiva, o futebol não ficou restrito a um grupo específico no Rio de Janeiro. Nos Subúrbios, região chamada de “refúgios dos infelizes”, como dizia Lima Barreto em sua obra intitulada Clara dos Anjos, também havia o desenvolvimento do esporte bretão. Lá, era possível assistir a partidas de futebol como a que ocorreu em 14 de novembro de 1905, entre o Club Athletico do Meyer e o Joung’s Football Club, a qual, segundo o Gazeta de Notícias, “correu animada, mostrando ambos os competidores o perfeito conhecimento do jogo” (Gazeta de Notícias, em 15/11/1905, p. 3.). Assim como no Centro da Capital Federal, nos seus arredores também havia gente praticando o futebol e fundando clubes para isso.

Consequentemente, não é de nos surpreender a criação de uma competição própria dos bairros suburbanos: a Liga Suburbana de Futebol. Em 21 de março de 1907, o jornal O Paiz trouxe a seguinte notícia: “A digna directoria do Mangueira F. B. vai oficiar às sociedades congêneres, não filiadas á Liga dos Sports Athleticos, convidando-os para uma reunião em que se tratará da fundação da Liga Suburbana de Football” (O Paiz, em 21/03/1907, p. 4.).

A competição de futebol nos Subúrbios, com estatutos e condições próprios, foi criada em razão do desenvolvimento do esporte bretão na região e também para dar vazão aos diversos times que não tinham condições de disputar o torneio da Liga Metropolitana de Futebol (torneio restrito aos clubes de elite).

"Seus jogos, assim como aqueles realizados pela Liga Metropolitana, atraíam aos estádios 'grande assistência', sendo em geral “muito concorridos – contando mesmo com a presença de 'muitas senhoras e cavalheiros' que atestavam o sucesso da iniciativa. O sucesso da nova entidade geraria, como consequência principal, o aparecimento por toda a cidade de diversas ligas congêneres, abrindo novos campos para a prática do jogo. Longe do monopólio pretendido pela Liga Metropolitana, o futebol ia assim alastrando-se por vários bairros e grupos da cidade" (PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. Footballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro – 1902 – 1938. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, p.70).

A história do Brasil está repleta de episódios em que a participação popular foi questionada, sobretudo por não se adequar a algum tipo de modelo específico. A Proclamação da República, por exemplo, teve em Aristides Lobo (ministro do interior do governo provisório de 1889), um de seus contemporâneos mais famosos, a definição do povo como “bestializado”. Contudo, atualmente, este mesmo episódio ganhou na concepção de José Murilo de Carvalho outro conceito: bilontra. Seguindo esta linha de raciocínio, “o bilontra é o cidadão que não foi. Está fora da política, assim como suas associações religiosas e de auxílio mútuo, as festas, o samba, o carnaval e o futebol”, como escreveu José Miguel Arias Neto. O futebol é, portanto, um dos elementos que nos servem para refletir sobre a maneira como a “arraia-miúda” se posicionou diante de situações do cotidiano em que se tentou excluí-la.

Assim, nos Subúrbios Cariocas, este esporte foi praticado e em torno dele se organizaram competições. A Liga Suburbana, torneio criado em 1907 e que durou até 1919, é tão somente uma dessas situações, mas é por meio dela que podemos refletir acerca do posicionamento popular sobre grandes temas da história nacional.

A realização do 3º Campeonato Sul-Americano de Seleções de Futebol de 1919, que aconteceu no Rio de Janeiro, não foi ignorada por aqueles indivíduos menos abastados economicamente. Por isso, analisando a imprensa suburbana, poderemos perceber como se deu esta relação, já que, antes de a competição ter início, a Liga Suburbana mostrava-se interessada em se fazer representar junto às delegações estrangeiras que desembarcavam na Praça Mauá.

"A Directoria da futurosa e prospera Liga Suburbana de Football que se fará representar por um dos seus directores nos jogos e provas do campeonato Sul Americano, resolveu nomear uma commissão composta dos abnegados sportmen Guilherme Paraense, Garcez Palha, Marques Cardoso e Oscar Trindade para cumprimentarem as delegações do Chile, Uruguay e Argentina, que se acham entre nós afim de tomarem parte no campeonato Sul Americano de football, natação e water-polo" (Gazeta de Suburbana, em 17/05/1919, p. 5.).

Os sentidos que esta competição internacional tomou junto à imprensa suburbana é o nosso objeto de análise no presente trabalho. Debruçando-nos sobre o periódico Gazeta Suburbana, almejamos conquistar este objetivo.




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* Glauco Costa
Universidade Federal Fluminense UFF. Niterói, Brasil