Uma das questões primordiais do termo “poética feminista” na literatura, é a atribuição de voz aos sujeitos das margens, sujeitos tradicionalmente silenciados e ignorados, caraterizado por um descentramento, entendido como um conjunto de forças voltadas contra a exclusão social, política e econômica destes sujeitos. Neste sentido, a mulher na narrativa é a personagem que está à margem social, cujas temáticas giram em torno de questões do feminino, de conflitos externos e internos relativos à identidade, relações amorosas, violência doméstica contra a mulher, vaidade, vingança, efemeridade do tempo, cotidiano e a lição das experiências de vida.
A partir disto, esta pesquisa de tipo bibliográfica, pretende analisar como esta atmosfera de sentimentos humanos, que é o centro da poética produzida por mulheres, pode ser objeto de emancipação político-social para elas, e quais são os mecanismos ou estilística utilizadas por elas para que estas produções ganhem espaço no campo das relações de gênero, porque esses textos literários estão sempre voltados para uma concepção de linguagem que contrariam a ideia de uma articulação direta em ter palavra e referente a externo, que sustentaria o efeito de real. Em outras palavras, a linguagem dos textos de uma poética feminista, passa a ter uma relação descontínua com o referente, passando a existir formas de interpretações baseadas não na representação mimética, mas na estética realista, ela desprende-se da concepção que o imaginário masculino romantizou sobre o cotidiano de mulheres. Agora elas passam a escrever sobre sua própria condição e seu ponto de vista, segredos, desejos, sentimentos íntimos e dores existenciais.
Uma das autoras de destaque no campo da poética feminista, Lúcia Helena Vianna, revela, entre outras coisas, que existem características próprias na escritura de mulheres, principalmente o que elas revelam na poesia. Vianna chama este tipo de escrita de Poética feminista. Na poética feminista, alteridade é definida como relações que se estabelecem entre o “eu” e o “outro” nos processos discursivos instaurados, histórico e espacialmente pelos sujeitos, que sempre esteve presente no processo de constituição social que se concretiza a partir das relações subjetivas de interação e poder. Para Vianna, a poética feminista deve ser entendida como uma discursividade produzida pelo sujeito feminino que assumidamente ou não, contribua para a emancipação do sujeito feminino, para o desenvolvimento da consciência feminista, consciência que é de natureza política, para as mulheres, o que possibilitaria construir conhecimentos de si, de seus direitos e de sua desigualdade voltada para o compromisso estabelecido com relação ao papel que reafirma o gênero feminino. Poética feminista é poética empenhada, é discurso interessado. É política e, memória coletiva é normativa, e moralizante. Os dois tipos de memória se cruzam na ficção escrita por mulheres, mas Vianna privilegia a memória individual como a chave política dessa poética.
Na poética feminista, há também uma apropriação de autores conhecidos em versos rápidos. Uma crítica direta com a intenção explícita de apontar os paradoxos, numa inversão desestabilizante do pensamento. A poética feminista se apropria dos elementos de subversão das memórias coletivas e individuais para reafirmar uma identidade de gênero, mas é na ironia, sarcasmo e paródia, que esta poética se transforma em ação política dos olhares feministas nas artes. É nas entrelinhas, na análise profunda que a poeta engessa sua arte sob um viés político, subvertendo a identidade, e fazendo com que as mulheres passem a enxergar a “natureza” de suas vidas, a memória coletiva, em uma relação de alteridade. O poder na sociedade é definido pelos lugares de fala e pela escolha do discurso, e a escolha deste discurso é permeada pelas relações de poder e, portanto, aponta para quem o detém. Para ser um ser social, é necessário que o sujeito estabeleça relações intersubjetivas e interpessoais com o outro sujeito. O estabelecimento desta relação exige de si uma postura em relação ao outro, precisa-se reconhecer que nem todos veem o outro que o “eu” vê, nem todos sentem o que o “eu” sente.
Aproveitando-se do conceito de poética feminista proposto por Vianna e através de poemas publicados nas décadas de 1970 e 1980 por Alice Ruiz, Ana Cristina e Ledusha, propõe-se ampliar as possibilidades na leitura da poesia escrita por mulheres, onde a poética se traduz em reinvenções de si e em uma escrita feminista de si. A poética feminista se apropria dos elementos de subversão das memórias coletivas e individuais para reafirmar uma identidade de gênero, que se transforma em ação política dos olhares feministas nas artes. Descreve-se a memória individual de uma mulher, que viveu como mulher, e nada mais pode esperar de sua existência. É nas entrelinhas, na análise profunda que a poeta engessa sua arte sob um viés político, subvertendo a identidade, e fazendo com que as mulheres passem a enxergar a “natureza” de suas vidas, a memória coletiva, em uma relação de alteridade.
Os resultados desta pesquisa revelam que, é na ironia, no sarcasmo, na paródia ou no pastiche que a arte dessas mulheres se apropria de poemas de poetas já consagrados, canções ou mitos, arquétipos, construídos sobre sua condição, e os reescrevem, se inscrevendo/escrevendo, em sua arte, uma estética feminista da existência, uma estética que recria a realidade do particular, do anfêmero, do ordinário, do banal, e condicionam estes elementos como objeto de libertação, trazendo a mulher, o sujeito das margens, para o centro da narrativa, de modo real e literal, nu e muitas vezes cruel.