Resumen de ponencia
MULHERES QUE SAMBAM NA LINHA ABISSAL: Para além da violência de gênero em prisões, há ecologias feministas de saberes?
*Claudia Cristina Ferreira Carvalho
A presente investigação, crítica das teorias feministas pós-coloniais, parte da perspectiva que a fabricação da Outra feminina como o outro do outro masculino, alimenta-se de um pensamento abissal, que tanto obliterou ou oblitera quanto sistematicamente produziu ausências, instaurou a violência subalterna de um gênero masculino sobre o gênero feminino, construindo linhas radicais de exclusão social. Esse sistema de opressão, que é nominado hétero-patriarcal, não nasceu com a modernidade ocidental, mas sem dúvida aliançou-se a outras duas lógicas de opressão que são o colonialismo e o capitalismo, para reificar de um lado, os homens como o centro e medida para todas as coisas; de outro, as mulheres como a periferia de quem se imagina centro (o homem). Nessa lógica, as mulheres subalternizadas têm suas vozes emudecidas, sua ontologia e epistemologia desperdiçada e invisíbilizadas. A partir das experiências de mulheres (reclusas e carcereiras) no interior de uma penitenciária feminina de Mato Grosso- Brasil, em dialogo com a Hermenêutica Feminista das Epistemologias do Sul, problematizou-se, discutiu-se, as experiencias construídas por mulheres subalternizadas no interior de uma penitenciária feminina brasileira, tanto aquelas em condição de reclusão quanto as trabalhadoras daquele sistema prisional. Recorreu-se às Epistemologias do Sul, proposta de Boaventura de Sousa Santos, para explorar as ruínas daquilo que tem sido produzido como sociologia das ausências e emergências. De um lado, objetivou-se problematizar as formulações do saber-poder institucional nos processos ordinários esculpidos nas interações entre as mulheres trabalhadoras e as mulheres em reclusão. De outro, analisou-se naquele espaço–tempo prisional, convertido em desumanização do/a Outro/a, como as mulheres em condição de reclusão constroem saberes de resistências-resilências explícitos ou não, nascidos da luta, do sofrimento. Hipótese central, é a de que a prisão cumpre um papel sociopolítico de continuidade e reiteração das exclusões radicais geradas pelos sistemas de opressão capitalista, colonial e patriarcal. Sistemas que geram e gerenciam linhas abissais, que pela divisão, obliteram as sociabilidades por eles gerados. O trabalho empírico teve como cerne a pesquisa qualitativa de abordagem etnográfica, e em seu bojo, triangulou-se procedimentos de observação, entrevistas e iconografias (imagens) produzidas a partir da estratégia proposta e aceita de um curso de fotografia ministrado às mulheres que desejassem participar. A imersão no terreno da pesquisa perdurou no total de onze meses. A compreensão interpretativa da escala do fenômeno em estudo, delimitou-se numa ecologia de saberes, traduzidas em cinco núcleos centrais epistêmicos, políticos e ontológicos que problematizou-se: os modos como a cartografia formal e a não-formal esculpem os espaço-tempos prisional; como os processos de reclusão na instituição prisional refletiram os espelhos das exclusões radicais caracterizadas pela dicotomia entre igualdade formal e desigualdade real; discutiu-se o saber-poder institucional como processos ordinários de apropriação e violência; abordou-se, a partir das experiências pessoais das mulheres em reclusão, os modos como a violência de gênero reverberam nos processos de encarceramento feminino; visibilizou-se as formas de resistências e resiliências, e os saberes construídos pelas mulheres subalternizadas da penitenciária nascidos da luta e do sofrimento. A contribuição epistêmica, ontológica e política da tese é perceber as injustiças sociais e cognitivas a que estão expostas as mulheres subalternizadas do Sul-global, ao tempo de contribuir para o debate dos feminismos pós-colonial, mobilizando novas questões para velhos problemas sócio-políticos e culturais. . Os resultados do estudo apontam na direção da superação do conhecimento sexista, antropocêntrico produtores de ausências não dialéticas entre o masculino e o feminino, de outro, apontar a necessidade de emergências de um pensamento pós-abissal que alimente a promoção e o acesso à justiça social e cognitiva de gênero pela via de educação libertadora, de uma pedagogia das oprimidas.