1. Introdução
O presente texto objetiva analisar as bases epistemológicas presentes nos movimentos de educação popular ao longo do século XX. É um estudo de caráter bibliográfico que tem como fundamentação teórica a rede conceitual do coletivo Modernidade/Colonialidade. O trabalho é um ensaio inicial em construção, ou seja, os debates epistemológicos apresentados aqui carecem de mais aprofundamento. O artigo está divido em três momentos: no primeiro serão abordadas as três correntes que mais influenciaram a educação popular (anarquismo, marxismo e desenvolvimentismo), no segundo será debatido o marco da educação popular de Paulo Freire e na última será discutida a importância do giro decolonial para a educação popular.
2. EDUCAÇÃO POPULAR E SUAS BASES EPISTEMOLOGICAS NO DECORRER DO SÉCULO XX
A Educação popular é um acúmulo pedagógico histórico dos povos da América Latina, pode-se dizer que é uma das grandes heranças do hemisfério Sul, desde as lutas contra o controle colonial, passando pelas batalhas da independência aos dias atuais, com a consolidação dos Estados-Nação.
A educação popular engloba práticas, saberes e metodologias, ou seja, são pedagogias de resistências, resistiram ao colonialismo, resistiram ao império e resistem aos males do mundo globalizado capitalista atual, resistem a colonialidade histórica, são pedagogias que se alimentam das lutas e da criatividade latino-americana (STRECK, 2014). É bem verdade que não existe uma educação popular e sim educações populares, falar em educação popular sem estar situado deixa o debate amplo. Sabe-se que existem inúmeras educações populares, seja de cunho assistencialista, dogmático, filantrópico.
3. A EMERGÊNCIA DO GIRO DECOLONIAL E EDUCAÇÃO POPULAR.
Os referenciais conceituais que orientaram os movimentos de educação popular no Brasil e na América Latina foram guiados por conceitos como “classe social”, “Estado Socialista”, “Sociedade Ácrata”, “Desenvolvimento e Progresso”, “Civilizar e Emancipar” dentre outras as categorias teóricas usadas pelos militantes da educação popular, essas epistemologias compreendem os sujeitos populares como sujeitos que necessitam passar de um estado atrasado, ou menos desenvolvidos para evoluídos (desenvolvimentismo); outros como uma etapa reformistas necessária de conscientização das massas ou uma etapa necessária para a revolução socialista (marxistas).
Muitos projetos de educação popular foram dirigidos às camadas populares, isto é, foram impostos de forma hierárquica, exceto Paulo Freire e as práticas de educação popular inspiradas na sua teoria educacional, pois na educação frereana se entende que a educação é um ato dialógico, feita com o outro e não para o outro.
Contudo as bases teóricas utilizadas pelos educadores populares ao longo do século XX sejam eles dos setores conservadores ou progressistas eram filiadas a epistemologias eurocentradas, isto é, construções teóricas a partir dos cânones hegemônicos da epistemologia como: positivismo, marxismo, liberalismo, fenomenologia entre outras.
Epistemologias que partiam de um “ponto zero”, abstrato e universal caindo num circulo de reprodução teórica, isto é, apenas objetiva adaptar concepções teóricas em contextos muito distintos (RESTREPO, 2007; FLÓREZ-FLÓREZ, 2007; CAJIGAS-ROTUNDO, 2007; MALDONADO-TORRES, 2007).
Os cânones epistêmicos hegemônicos e os paradigmas universais são instrumentos que validam o que é conhecimento e onde se produz ou não se produz o conhecimento, contudo, esse discurso, que aparece como universal e neutro de lugar nenhum, não passa de uma falácia para encobrir as dominações epistemológicas.
A máscara universalista e neutra é nomeada como arrogância epistemológica ou, como Castro-Gómez (2007, p.83) denomina epistemologia do ponto zero, o pecado da Hybris que:
como Dios, el observador observa el mundo desde una plataforma inobservada de observación, con el fin de generar una observación veraz y fuera de toda duda. Como el Dios de la metáfora, la ciencia moderna occidental se sitúa fuera del mundo (en el punto cero) para observar al mundo, pero a diferencia de Dios, no consigue obtener una mirada orgánica sobre el mundo sino tan sólo una mirada analítica. La ciência moderna pretende ubicarse en el punto cero de observación para ser como Dios, pero no logra observar como Dios. Por eso hablamos de la hybris, del pecado de la desmesura. Cuando los mortales quieren ser como los dioses, pero sin tener capacidad de serlo, incurren en el pecado de la hybris, y esto es, más o menos, lo que ocurre con la ciencia occidental de la modernidad.
Castro-Gómez (2007) utiliza-se da metáfora da Hybris do ponto zero para afirmar que existem narrativas universais no campo acadêmico que propagam o “conhecimento verdadeiro”, conhecimento que é adquirido pela racionalidade científica como um conhecimento não situado, de lugar nenhum, ou seja, de um ponto zero. Entretanto, isso é um instrumento para invisibilizar as outras formas de produzir conhecimento, denominado de conhecimentos provinciais, regionalistas, ou seja, são processos que deslegitimam os conhecimentos-outros.
A epistemologia do ponto zero pertence a rede conceitual do coletivo Modernidade/Colonialidade que parte da tese as interpretações das realidades latino-americanas por parte dos pesquisadores latinos fundamentam as suas bases conceituais, os seus sistemas teóricos, os seus esquemas explicativos, através de epistemologias eurocêntricas reduzindo as interpretações sobre a América Latina (QUIJANO, 2007; CASTRO-GÓMEZ, 2007; GROSFOGUEL, 2007; WALSH, 2007; MIGNOLO, 2007).
A partir desse chão da Abya Yala se produziram práticas pedagógicas, didáticas, metodologias de pesquisa, currículos, concepções de formação docente, isto é, há nesse pedaço do mundo modos de pensar e fazer educação, pedagogias que possuem características próprias dadas suas formações históricas e culturais, práticas educativas que não são melhores nem piores diante de outras sociedades, apenas possuem traços distintos, por isso são denominadas pedagogias latino-americanas.
Historicamente a educação popular é forjada pelos movimentos sociais, suas práticas pedagógicas são desenvolvidas por campesinos, assentados, sem terras, quilombolas, indígenas, movimento negro, sindicatos, dentre outros coletivos sociais. Porém as bases epistemológicas ainda estão enraizadas pela colonialidade, por teorias eurocêntricas, a educação popular precisa ser decolonizada.