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Resumen de ponencia
Mundo turbulento e as revoltas da utopia

*Manuela Salau Brasil



. A criação da palavra “utopia” data de 1516, quando Thomas Morus divulgou seu livro: “Utopia ou o tratado da melhor forma de Governo”. A obra está dividida em duas partes: na primeira o autor denuncia a realidade da sociedade inglesa de sua época, e na outra, revela as virtudes de sua ilha imaginária, a ilha de Utopia. A utopia seria, então, a imagem de uma sociedade contraposta àquela da realidade criticada, adquirindo estatuto de uma sociedade perfeita, uma espécie de ilha da fantasia. De gênero literário, a utopia se deslocou para outras áreas, se expandiu para outros estudos, mas parece que a concepção original se sobrepôs sobre as demais. O uso da palavra é vinculado às ideias de perfeição, ilusão, impossibilidade, numa espécie de congelamento do sentido primeiro. Esta associação ultrapassa o campo do senso comum, uma vez que na academia tal visão igualmente é majoritária. Exemplo disso foi a necessidade de distinguir o Socialismo utópico do Socialismo científico, revelando a forma como a utopia está presa à acepção original. Nesta comunicação, propõe-se debater sobre uma perspectiva distinta, em que a utopia adquire uma conotação positiva, política e possível. Da mesma forma, reivindica-se que deixe seu lugar de categoria marginal na academia para assumir uma condição de centralidade a ponto de tornar-se um campo de estudos específico do pensamento social. Tal compreensão contempla diversos desafios, a começar pela revisão do conceito de utopia e sua revitalização, identificando seu lugar num mundo em crise. Um pensamento crítico não prescinde de explorações sobre alternativas viáveis de transformação, e para isso se compromete em aliar a dimensão crítica a uma dimensão propositiva sobre a realidade social. Compõe-se então um movimento que relaciona a denúncia ao sistema com análises objetivas e subjetivas sobre as condições de possibilidades de mudanças. Tal compreensão fundamenta-se na obra de Ernst Bloch, reconhecendo que com ele os estudos sobre utopia ganham novas dimensões. O autor ressignifica não só a utopia, mas também a esperança, os sonhos e a imaginação, possibilitando a defesa da utopia como algo positivo e concreto, ao mesmo tempo em que lhe confere a condição de categoria científica. É a partir da esperança que Bloch recupera e valoriza a utopia: a esperança é o antídoto contra o ceticismo e o niilismo, incitando a imaginação a pensar em cenários “ainda não” realizados. Por sua vez, a imaginação alimenta os sonhos diurnos que são traduzidos em utopias. É fundamental ressaltar a distinção dos conteúdos tanto das esperanças quanto dos sonhos diurnos, pois deles advém os significados diferentes de utopia. A esperança e os sonhos diurnos baseados na ilusão, na fantasia, no desejo sem vínculo com a realidade, geram as utopias abstratas, tal qual a ilha de Morus. Todavia, os sonhos diurnos e as esperanças, quando assentados em análises sobre determinada realidade histórica, podem originar utopias concretas, ou seja, possíveis de serem realizadas. Portanto, se por um lado é concebida como uma projeção inatingível, um desejo irrealizável, fonte de um otimismo sem respaldo na realidade, e neste sentido é uma utopia abstrata, por outro, o conceito de utopia concreta remete a possibilidade, processo, construção, transformação, ação, política, e desta forma convoca a um otimismo militante. Com este aporte teórico, resgata-se não apenas uma racionalidade compatível com um pensamento crítico, mas também alinhado com as epistemologias do Sul. Na sociologia das ausências e emergências, no trabalho de tradução, afia-se o olhar para enxergar o novo que já está nascente, ou perceber as latências de um mundo em transformação. Não se trata de rascunhar ou criar ilhas de perfeição, mas de investigar e identificar utopias sociais em nosso tempo. Este trabalho é facilitado pelas experiências dos movimentos sociais, que mesmo em épocas de crise tem protagonizado propostas e práticas que desafiam o desalento e as posturas mais pessimistas. Enxergar e analisar estes embriões do novo é um esforço necessário dentro do registro de um pensamento crítico e comprometido com a mudança, e nele a utopia ocupa centralidade no farol das utopias concretas de Bloch. Nesta chave de interpretação, refuta-se a utopia como simples artifício retórico ou como recurso de um otimismo ingênuo, muito menos como adereço de uma realidade imutável. E, a partir disso, pode-se problematizar algumas questões, tais como: Em que medida pode-se sustentar utopias concretas em contextos desfavoráveis como os atuais? Em que medida as utopias sociais podem contribuir para o ponto de virada nestes contextos? Possuímos condições de identificar e potencializar os “ainda não”? Tais inquietações não obscurecem o fato de que, num mundo em turbulência, de um presente perverso, as utopias ganham relevância, numa aposta de um futuro melhor.




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* Salau Brasil
Universidade Estadual de Ponta Grossa UEPG. Ponta Grossa, Brasil