No distrito de Huanuni se encontra a mais importante mina de estanho do país. Em junho de 2006, a Empresa Mineira Huanuni foi estatizada pelo governo Evo Morales e voltou a ser administrada pela estatal COMIBOL, vinculada ao Ministério de Mineração. No período que antecedeu a completa nacionalização, a reserva de estanho era explorada por 800 trabalhadores mineiros assalariados, vinculados à COMIBOL e por quatro “cooperativas mineiras” (4 mil cooperativistas). A exploração da mina por assalariados e cooperativistas provocou inúmeros conflitos e disputas que culminaram no enfrentamento de outubro de 2006, quando 14 mineiros morreram. O governo Evo Morales foi obrigado a estatizar toda a reserva mineira de Huanuni, incorporando os 4 mil cooperativistas à empresa estatal, como assalariados. A partir de então, Huanuni tornou-se o maior e mais importante centro mineiro da Bolivia, bem como a principal sustentação do sindicalismo operário boliviano.
Nos grandes centros mineiros, a exemplo de Huanuni, Catavi e Siglo XX se gestaram um conjunto de crenças, valores e identidades fortemente marcadas pelo “orgulho” de ser mineiro e o reconhecimento do seu trabalho como a principal fonte de riquezas para o país (CAJÍAS DE LA VEJA, 2003). As concentrações massivas de trabalhadores em acampamentos relativamente isolados, as formas e condições de trabalho, a experiência da exploração, a convivência cotidiana nas comunidades, os rituais, tradições e crenças andinas, contribuíram para a formação, entre os trabalhadores mineiros, de um forte tecido social e politico.
No entanto, em meados dos anos 80, mais precisamente, a partir de 1985, essa cultura operária, classista e radical em seus métodos de luta, entrou em uma profunda crise. Nos anos 90 ocorreu um intenso e profundo processo de desestruturação/reestruturação da condição operária nas minas (BEAUD; PIALOUX, 2009). A crise econômica nos anos 80, a queda dos preços do estanho no mercado internacional e o processo de reestruturação produtiva nas minas pertencentes ao estado provocaram uma redução significativa do número de trabalhadores mineiros assalariados (GOMEZ, 1999).
Apesar da expressiva redução numérica e sua paulatina perda de protagonismo politico e sindical nos anos 90, ainda sobrevivem entre os mineiros, como parte de uma memória histórica e coletiva , um conjunto de tradições, crenças e atitudes políticas e sindicais que marcaram este grupo social ao longo do século XX. Esta memória coletiva incide fortemente sobre a reinterpretação dos eventos contemporâneos (BEAUD; PIALOUX, 2009), sobretudo na relação dos mineiros de Huanuni com o governo “indígena e camponês” de Evo Morales. As tradições, herdadas e compartilhadas, revelam-se de maneira significativa no distrito mineiro de Huanuni . Nele, os trabalhadores mineiros, a partir de uma acumulação histórica prévia, presenciaram a partir do ano 2000, uma paulatina recuperação do seu protagonismo, capaz de projetar-se novamente na vida política nacional (CAJIAS, 2013).
A memória, a história e as tradições reforçaram velhas identidades, crenças, costumes e práticas políticas e sindicais que pareciam ter desaparecido. Nacionalismo, Socialismo, independência política e sindical, Tese de Pulacayo, Revolução de 1952, Assembleia Popular, Jornadas de Outubro de 2003, a Guerra do Estanho, heróis e mártires, tornou-se um vocabulário comum compartilhado pelos trabalhadores mineiros de Huanuni. Nesse sentido, consideramos que entre os mineiros de HUANUNI, o passado está sempre presente (WINN, 2007). Esta memoria coletiva, produto das acumulações históricas previas, explica, em grande medida, a tensa e conflitiva relação dos mineiros com o Governo Evo Morales.
O distrito se transformou no principal centro de formação de novos dirigentes sindicais para a FSTMB e a COB. A recomposição e o fortalecimento dos mineiros de Huanuni ocorreu em um contexto de retomada das lutas sociais e populares na Bolívia, protagonizadas pelos povos e nações indígenas, e os novos movimentos sociais, urbanos e rurais (CONAMAQ, CIDOB, FEJUVE, entre outros). O ciclo de lutas sociais na Bolivia, que se iniciou no ano 2000, colocou em discussão, novas demandas e reivindicações. Uma nova agenda politica pautou o ciclo de lutas populares no país, entre os anos 2000 e 2005, como a nacionalização dos recursos naturais, a defesa do tradicional cultivo da folha de coca, contra a privatização da água, a nacionalização das minas, a convocação de uma Assembleia Constituinte e a refundação do Estado boliviano, através da construção de um “Novo Estado Plurinacional”.
De forma paralela à emergência dos novos movimentos sociais indígenas e camponeses, os mineiros e o sindicato de Huanuni tornaram-se uma importante referência para o conjunto do movimento operário boliviano. Este processo de fortalecimento e recuperação do protagonismo dos trabalhadores mineiros assalariados de Huanuni coincide com a chegada à presidência do país do dirigente sindical dos camponeses produtores da folha de coca, Evo Morales, em janeiro de 2006. Durante o governo Evo Morales, os conflitos protagonizados pelos mineiros de Huanuni expressam a complexa relação desta fração da classe trabalhadora boliviana com o novo governo.
Esta relação esteve marcada por uma tensão dialetica permanente entre a “resistência e a integração”. Os conflitos envolvendo os mineiros de Huanuni se constituiram em uma fonte constante de instabilidade política e social no país entre os anos de 2006 e 2014. Esta tensão não só ocorreu pela importância econômica do distrito de Huanuni e o expressivo numero de trabalhadores assalariados, mas, sobretudo, pelo protagonismo político e sindical que os trabalhadores mineiros assumiram a partir do ano 2000. Os mineiros de Huanuni notabilizaram-se por uma forte coesão politica e a radicalidade nos seus métodos de luta.
Os constantes conflitos envolvendo os mineiros assalariados de Huanuni e o governo Evo Morales foram motivados por distintas razões: a luta pela nacionalização da empresa, melhores condições de trabalho, a redução da idade de aposentadoria, o aumento salarial e a modernização da empresa . No entanto, sempre tomavam um caráter politico e suas demandas transcenderam as reivindicações econômicas e coorporativas, assumindo um forte componente político e de classe. O maior exemplo ocorreu com a efêmera, mas significatica, formação de um partido operário independente, o Partido dos Trabalhadores, impulsionado diretamente pelos mineiros de Huanuni . O objetivo dete livro é analisar os dilemas e tensões que envolveram esta complexa relação, buscando compreender a importância da tradição e da memória coletiva na relação dos mineiros de Huanuni com o governo Evo Morales.
A experiência de classe dos mineiros bolivianos com o Estado e as outras classes sociais ao longo do século XX, foram recriadas/reinterpretadas através de uma memória coletiva, herdada e compartilhada. Esta memoria coletiva se expressa frente ao governo Evo Morales. Para melhor compreender esta complexa relação tomamos como referência teórica, os conceitos de “experiência e consciência de classe” do historiador britânico E.P.Thompson, que permite analisar os comportamentos sociais e a luta de classes a partir das acumulações históricas prévias, sejam estas objetivas ou subjetivas (THOMPSON, 1979).