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Resumen de ponencia
O CONCEITO DE NATUREZA E O SOCIOMETABOLISMO DE MARX FRENTE A CRISE SOCIOECOLOGICA CAPITALISTA

*Fernando Bilhalva Vitória



O presente texto tem como objetivo mais amplo discutir os conceitos de natureza e de sociometabolismo nos escritos de Marx e, em um segundo plano, apontar as implicações de tais conceitos para a compreensão das formas históricas
contemporâneas do sistema do capital, notadamente aquelas desenvolvidas na Amazônia. Partindo da premissa - fundamentada em uma já importante e extensa bibliografia - de que a crítica da economia política de Marx é capaz de fornecer elementos fundamentais para a análise da relação entre sociedade e natureza, pretendemos, neste paper, examinar a proficuidade do pensamento marxista para o enfrentamento de uma das questões mais dramáticas e inquietantes do nosso tempo: a crise socioecológica.
Nesta direção, o natureza e de sociometabolismo de Marx, parte inicialmente da preocupação presente e cada dia mais exigente, das contradições da relação intima entre sociedade e natureza, produzidas pelo modo de produção capitalista, o qual, no final do século XX e início do XXI, têm como marca o cenário de expansão e crise do capitalismo, numa demonstração crescente e desenfreada de riscos a vida, não só da biodiversidade natural, mas da própria existência humana.
Esta crise é perceptível tanto em temos sociais, sob o desemprego estrutural e a precarização do trabalho, como em termos ecológicos, indo desde a desestruturação dos solos pela agricultura industrial e homogênea na figura do agronegócio, até o aquecimento global, com previsões catastróficas para o presente e para o futuro. Isso revela uma rachadura ou falha estrutural sob as relações produtivas e sociais vigentes no modo de produção capitalista.
Esta relação-limite revela, de algum modo, o que Marx chamou de rachadura ou falha metabólica sob as relações produtivas e sociais, a partir do mando do modo de produção capitalista.
Com ênfase neste contexto, consiste em resgatarmos e aprofundarmos, a potência do conceito de natureza ou sociometabolismo em Marx, como uma poderosa ferramenta de interpretação e compreensão qualitativa das relações sociais e ambientais no presente tempo, não só para termos de análise, mas também da práxis social na superação destas contradições, demostrando com isso, a atualidade do conceito frente a crise socioecológica profunda chancelada pelo capital.
Para isto, recorremos à obra de Marx, ou ao menos às preocupações do autor em torno da natureza na relação com as forças produtivas do capitalismo, no sentido de estabelecermos as principais linhas de seu pensamento com a relação à natureza e ao sociometabolismo, da falha metabólica – e de modo geral, do ecologismo presente no pensamento de Marx. Para isso, fazemos uso de obras como: Formações econômicas pré-capitalistas (1991); Manuscritos econômico-filosóficos (2004); A ideologia alemã (2001; 2007); O Capital: crítica da Economia Política (1985, 2008a, 2008b, 2013); – livro I, v. I e II; Crítica do programa de Gotha (2012); Contribuição à critica da economia política (2008c) e os Grundrisse (2011). Além destas obras, também dispomos de Schmidt (1976/2011); Burkett (2007), Foster (2010), Altvater (2007) entre outras.
A natureza no sentido marxista é dialética, e esta dialética se desenvolve mediante uma relação afinada entre a humanidade e a natureza, logo, a natureza em Marx, não é só uma categoria social, como determina Lukács, mas também na sua forma inversa, em que a sociedade também representa uma categoria natural (SCHMIDT, 1976, p. 78). Desta forma, o conceito de natureza em Marx articula-se por meio de um processo interno, inteiro e de implicações especialmente a partir da análise da economia política do seu tempo e de seus desdobramentos na forma de apropriação do mundo das coisas e da humanidade, numa dialética afinada entre o valor de uso e o valor de troca, e o papel da objetivação da mercadoria na sociedade capitalista. A partir de um fato político-econômico, ou seja, da alienação do trabalhador, “Marx chega ao trabalho alienado, exteriorizado, o que possibilita perguntar a quem pertence este trabalho alheio, ao qual Marx afirma que, necessariamente, a outro, um homem mesmo, fora do trabalhador” (FERNANDES, 1989, p. 159).
Além do trabalho, como observa Marx, em conjunto a subordinação da natureza em mãos alheias, apropriando-se tanto do trabalho como da composição inorgânica do trabalho e da existência humana.
Assim, por meio do trabalho exteriorizado, o trabalhador engendra uma relação social do produto do trabalho com um homem que não participa deste, ou seja, o capitalista, o “senhor do trabalho” (MARX, 1989, p. 160).
Desta maneira, a relação do trabalhador com o não trabalhador resulta na divisão social do trabalho, intensificada pela industrialização, no apoio do Estado, na propriedade privada e na subordinação do homem e da natureza; ou seja,
a produção capitalista só desenvolve a técnica e a combinação do processo de produção social ao minar simultaneamente as fontes de toda a riqueza: a terra e o trabalhador (MARX, 1985, p. 102).
Este processo de minar as fontes originárias da riqueza, a terra e o trabalho, rebaixa a humanidade e a natureza ao nível da coisificação social e natural na produção da acumulação ou lucro, que se desdobra num coeficiente denominado de taxa de extração de mais-valia. O próprio Marx assim se pronuncia: “A taxa de mais- valor é, assim, a expressão exata do grau de exploração da força de trabalho pelo capital ou do trabalhador pelo capitalista” (MARX, 2013, p. 294).
Nesta direção de pensamento, o entendimento objetivo desta relação social como base no sociometabolismo e na compreensão de natureza em Marx, nos permite, em termos materiais e imateriais, dar um salto de entendimento, para além de uma simples compreensão fenomênica da forma e da intensidade, ou dos tipos de sociometabolismo na história, tratando da expansão metabólica não como algo fatalista e linear na história do desenvolvimento dos modos de produção socioeconômicos, mas como processo e resultado material de relações sociais que se modificam drasticamente sob o domínio das relações sociais de produção do capital.
A partir deste conteúdo intrínseco, as forças da natureza e do trabalho humano são rebaixadas à condição de empobrecimento sistêmico, resultante de uma mesma racionalidade, que explora e depreda tanto o homem e a mulher quanto a natureza (FONTANA, 2014).
O pensamento e prática da maximização do benefício econômico ou racionalidade ampliada da interconexão socioecológica, o sociometabolismo capitalista não é um conceito unânime para a análise da situação atual de crise. Tanto pode ser entendido como um processo cumulativo que se estende desde o início do surgimento da agricultura, vinculada ao caráter intrínseco do potencial de predação dos seres humanos na história, de uma era geológica, determinada, o Capitaliceno.
A lógica desta racionalidade, impulsionada pela dinâmica capitalista, instaura um experimento sem controle, em que o sociometabolismo do valor de troca se caracteriza por mecanismos insaciáveis de mercado, sob o mando do capital, com grande poder de transformação e cada vez mais acelerado pela inovação cientifica e tecnológica, modificando os espaços naturais, a exemplo da agricultura em escala frente aos bens hídricos, por exemplo.
Processos como estes produzem sistematicamente uma série de impactos sociais e ecológicos, como a contaminação da água, do solo e do ar, facilmente observável pelo uso dos agrotóxicos, a contaminação de organismos marinhos e da terra, além dos processos de transformação, transporte e consumo industrial, e dos derivados dos processos urbanos, isso sem falar nos organismos geneticamente modificados da engenharia genética ou biologia molecular, sobre cujos efeitos se possui escassa informação (MOLINA; TOLEDO, 2011).
Esta condição histórica e ideológica do capital “de que o ‘progresso’ é tanto inevitável, como bom” (HARVEY, 2002, p. 169) transforma o sociometabolismo do capital essencialmente em predação dos recursos da natureza e da humanidade pela exploração do trabalho e de outros territórios geográficos por meio de mecanismos de dependência econômica, que controlam a produção e o consumo e resultam com frequência na “Territorialização dos monopólios e Monopolização do território” (OLIVEIRA, 2011), como é o caso das multi-transnacionais, resumidas hoje em 147 corporações que controlam a economia mundial (MACHADO; FILHO, 2014, p. 62).
No entanto, esta crise não é o fim da história capitalista, mas, pelo contrário, o estágio propício para revolucionar-se, especialmente pela intensificação da exploração do trabalho e da natureza.
A partir desta virada de mesa, bárbara e selvagem, o capital tem topado com limites planetários, transformando-se no último século, e atualmente no século XXI, em uma nova força ou era geológica planetária, denominada por alguns autores, como Ramón F. Durán (2011) e Elmar Altvater (2014), de Era do Antropoceno ou melhor, o Capitaloceno.
La crisis cíclica del capital no sería tan dramática si no fuera amplificada por los efectos irreversibles por la transformación de la materia y la energía de la naturaleza, es decir, por la crisis de la relación entre sociedad y naturaleza (ALTVATER, 2014, p. 10). Em síntese, na via de Marx, o problema da crise socioecológica não é simplesmente situado em nível jurídico, técnico e físico, mas político, a “partir de uma crítica ao próprio funcionamento do sistema capitalista [...] desmitificando a suposta neutralidade da economia institucional, ao mostrar que a solução requer revisar/romper com as próprias relações capitalistas” (FOLADORI, 1999, p. 88); ou seja, o problema socioecológico é entrópico e necessita de decrescmento econômico urgente, mas depende de um tipo específico de sociometabolismo que vá além do valor de troca, imposto pelas relações de produção capitalistas, demonstrando assim, a originalidade e importância da concepção de natureza e do sociometabolismo em Marx.




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* Bilhalva Vitória
UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA UNIR. ROLIM DE MOURA, Brasil