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Resumen de ponencia
Usos da memória e construções narrativas sobre a paisagem cultural e o patrimônio cultural na cidade de Cataguases (MG) entre 1990 e 2015

*Isadora Lomeu Nunes Hermann Garcia



“Cataguazes...
Há coisa mais bela e serena oculta nos teus flancos.
Nas tuas ruas brinca a inconsciência das cidades
que nunca foram, que não cuidam de ser.
Não sabes, não sei, ninguém compreenderá jamais o que desejas, o que serás.
Não és do passado, não és do futuro; não tens idade...”
LOPES, 1928.

Confere ao senso comum a sensação de que o mundo se torna cada vez menor à medida que o tempo passa e o meio técnico e científico se desenvolve. De certo, as transformações das bases e processos produtivos, a expansão do capital, a circulação mundial de informações, bens e produtos, bem como a velocidade dos meios de transporte, contribuíram para a construção de um espaço globalizado. Todavia, a ideia de um mundo menor consiste em algo maior que apenas um aspecto sensorial. A mudança e renovação constante das práticas de reprodução social - intrínsecas ao capitalismo - traduzem modificações nas concepções de tempo e espaço, encurtando a distância entre os lugares (HARVEY, 1989).
A forma volátil do capitalismo tardio e as múltiplas transformações inerentes à sua flexibilidade, poderiam sugerir o desaparecimento progressivo de modos de vida locais e paisagens culturais (CIVALE, 2015). Entretanto, torna-se notável a emergência de novos fenômenos sociais no período histórico que abarca as últimas décadas do século XX e as primeiras décadas do século XXI, amparados pela noção de patrimônio cultural, memória e identidade. Num movimento de ascendência privilegiada, tais conceitos têm ocupado posição de destaque no que diz respeito à legitimidade, preservação e valorização cultural, reflexões identitárias e políticas com vínculo social, fazendo do culto à herança uma preocupação coletiva. Esta proeminente onda de patrimonialização incidiu não somente sobre as grandes cidades, mas também, sobre municípios pacatos das Minas Gerais, dentre tantos: Cataguases.
Berço de diversos movimentos culturais, a cidade de Cataguases, localizada na Mesorregião da Zona da Mata (MG), possui em seu espaço urbano materialidades distintas, marcadas por uma riqueza de tipologias arquitetônicas, urbanísticas e paisagísticas. De construções neocoloniais, ecléticas e industriais, ao reconhecido patrimônio cultural modernista, a cidade mostra-se plural e multifacetária, uma expressão concreta de processos sociais diversos, na forma de um ambiente físico construído sobre o espaço geográfico, como destacado por Harvey (1989).
Após a decadência da exploração do ouro nas regiões centrais de Minas Gerais, começa-se a estimular a ocupação, o povoamento e desbravamento dos “Sertões Proibidos”, a Zona da Mata mineira. Considerando este contexto, a ocupação de Cataguases data meados do século XIX, tendo como um de seus desbravadores o francês Guido Tomaz Marlière, coronel comandante das Divisões Militares do Rio Doce e diretor dos índios. Nos trabalhos de Alonso (2010), o autor ressalta a importância da cafeicultura e a agropecuária para o crescimento e desenvolvimento da cidade. Apesar de não assumir papel de destaque na produção, Cataguases tornou-se polo de escoamento e distribuição da produção de café, a construção da Estação Ferroviária da Estrada de Ferro Leopoldina em 1877, permitiu o acesso e a distribuição da produção regional.
Passado este período, cujas características estão associadas ao ciclo do café, a instalação de indústrias de tecidos - principalmente por influência de Francisco Inácio Peixoto - passa a redirecionar os investimentos, reorganizando a economia cataguasense e proporcionando uma reestruturação urbanística e arquitetônica na cidade. Neste sentido, o movimento modernista inaugurado na década de 1920 assume importante papel, caracterizado por intervenções de grandes arquitetos e artistas como: Oscar Niemeyer, Cândido Portinari, Burle Marx, Joaquim Tenreiro, Djanira, José Pedrosa e Jan Zach. Estas obras e construções modernistas projetaram Cataguases para o Brasil, transformando-a em polo cultural a nível nacional. Além da influência modernista, a “princesinha da Zona da Mata” presenciou o eclodir do movimento literário “Revista Verde” e tem seu destaque no cinema nacional, imagem esta demarcada por Humberto Mauro.
Diante dos múltiplos aspectos mencionados, Cataguases destaca-se como cidade plural que é reflexo de diversas temporalidades, das características e das relações de uma sociedade local composta por agentes distintos. Apesar de sua variedade cultural, apenas o modernismo é exaltado como relevante, seja por instituições locais de preservação do patrimônio, memória e identidade, ou mesmo pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que em 1994 realizou diversos tombamentos no município.
Dito isto, o presente trabalho tem por objetivo investigar e entender os usos da memória e as construções discursivas sobre a identidade local, no município de Cataguases (MG) através de suas partes visíveis que são as paisagens culturais e o patrimônio material. Além disso, a pesquisa incorpora a construção discursiva sobre o patrimônio, trazendo à tona as disputas simbólicas travadas entre classes dominantes e os diferentes grupos identitários locais. A metodologia utilizada abarca uma pesquisa documental realizada a partir da leitura de Atas de reunião, Dossiês de Tombamento, Livros de Tombo e Jornais locais, que interroga tais documentos, trazendo à luz o conflito escondido sobre o qual o documento foi produzido.
Analisar o contexto histórico é uma maneira de compreender o período com mais complexidade e usos dados à memória. A principal questão metodológica que orienta o trabalho é analisar os discursos contidos nos documentos e nas paisagens construídas, posto que, estas últimas são impressões sociais gravadas no espaço urbano.




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* Lomeu Nunes Hermann Garcia
Universidade Federal de Viçosa UFV. Viçosa, Brasil