O presente pojeto de pesquisa busca ser uma ponte entre o já estabelecido consenso acerca do domínio acadêmico estadunidense no âmbito das RI – em específico na formação das teorias basilares da área; e a empiria de um estudo pontual sobre essa dominação no plano das ideias – em especifico, o ideário neoliberal na economia.
Partindo-se de um enfoque teórico neogramsciano que enfatiza a importância da ideologia na manutenção e na reprodução de uma certa classe social, esse projeto tem como ponto de partida o entendimento de que a elite dirigente legitima seu papel ao persuadir a sociedade a pensar de uma determinada forma – uma que reproduz a desigualdade econômica e social do status quo (Gramsci, 1971). Nesse sentido, a dominação atual não seria assegurada por coerção mas também (e principalmente) por consenso através de uma série de instituições sociais que servem para justificar e legitimar o sistema de dominação (Cox, 1981). Da mesma forma, a partir de uma combinação que envolve coerção e consenso, as estruturas hierárquicas e hegemônicas são criadas e mantidas a partir do papel das instituições, recursos materiais e ideologias disseminadas em um processo de institucionalização e construção de legitimidade que viabiliza o papel dirigente das classes dominantes (ibidem) através de uma relação recíproca e, portanto, nunca unilateral. A hegemonia no âmbito global, assim, é entendida como uma forma de dominação onde o(s) estado(s) predominante(s) cria(m) uma ordem mundial consistente com sua própria ideologia e valores servindo para a reprodução dessa mesma hegemonia e da sua classe dominante através de práticas de consenso (prospecto de satisfação e de desenvolvimento a longo prazo).
De fato, essa hegemonia atualmente se assenta sobre o “saber técnico” em um modelo de relações sociais baseado numa estrutura de produção centro x periferia caracterizado por um centro pequeno que detém os recursos financeiros e de pesquisas de ponta enquanto a periferia se encarrega da produção de componentes dependentes desses primeiros e da reprodução desse. Stephen Gill, por exemplo, lida especificamente com o que chama de “civilização de mercado” (GILL, 1995) – o senso comum global que foi construído a partir da hegemonia capitalista anglosaxã que dissemina e valoriza conceitos de desregulamentação e livre mercado como algo naturalmente benéfico a todos mas que serve para assegurar a dominação da classe hegemônica sobre outras classes sociais bem como do Estado hegemônico sobre periféricos.
Se, como argumentam Bourdieu e Wacquant (1992), a teoria sem empiria é vazia e a empiria sem teoria é cega; o esforço do projeto de pesquisa aqui apresentado é o de relacionar um estudo empírico através da Teoria Crítica no âmbito das RI. Através de uma pesquisa intitulada “O Poder das Ideias: A formação de redes de institutos neoliberais na América Latina (1981-2016)”, se busca analisar os institutos neoliberais no Brasil que fazem parte de uma ampla rede estadunidense coordenada pela Atlas Network, atentando para redes de relações entre os institutos e trajetórias e perfis sócio-econômicos dos membros. De maneira mais geral (ou implícita), consiste em apresentar a dominação estadunidense no âmbito das ideias – em específico na promoção do modelo capitalista neoliberal - dentro de um grupo específico de institutos que, por sua vez, propagam doutrinas, valores e interesses desse país.
O Atlas Network, ou legalmente denominado como Atlas Economic Research Foudation, é um think tank originado em 1981 por Antony Fisher , tendo como objetivo principal a disseminação das concepções econômicas ultraliberais, por intermédio de organizações parceiras em todos os continentes. Em específico, a defesa da iniciativa privada, do livre mercado, do empreendedorismo, da responsabilidade individual, da propriedade privada, das liberdades individuais, da meritocracia e do governo mínimo. Com a ascensão do argentino Antonio Chaufen à presidência da Atlas em 1991, a rede tem suas ações ainda mais focadas no âmbito latino americano.
Tendo como contribuintes importantes nomes da economia estadunidense como os irmãos Koch, a Atlas tem hoje institutos parceiros em 87 países da América Latina e Caribe. Só no Brasil são 12 institutos: Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP); Instituto Liberal (IL); Instituto Millenium (Imil); Instituto de Formação de Líderes - São Paulo e Belo Horizonte (IFL-SP) (IFL-BH); Instituto Liberal de São Paulo (ILISP); Instituto Ludwig von Mises Brasil (Mises Brasil); Estudantes Pela Liberdade (EPL); Instituto de Formação de Líderes (IFL); Instituto de Estudos Empresariais (IEE); Instituto Liberdade (IL-RS); Instituto Líderes do Amanhã.
Esse é um projeto de amplo escopo lidando com os 12 institutos do Brasil no período de 1981 (fundação da Atlas) a 2016 (marco temporal mais próximo que se pode chegar). Especificamente, se busca verificar como se dão as redes de relações entre os institutos (financiamentos, contribuições e trânsito entre participantes e agentes dos institutos) num primeiro momento e a composição dos institutos (trajetórias e perfis sócio-econômicos dos membros e lideranças) num segundo momento. Espera-se, assim observar empiricamente pontos de contato entre os agentes nos EUA situados na Atlas e os no Brasil situados dos 12 institutos analisados; assim como possíveis relações entre a atuação dos agentes nos institutos e seus interesses econômicos e políticos (por exemplo, exercer a presidência em uma determinada empresa ou defender certas ideias de políticas públicas). Desse modo, é possível verificar a constituição de um network de relações entre institutos e indivíduos onde esses exercem a produção e a circulação de textos e de ideias no âmbito do pensamento neoliberal que, por sua vez, dada sua circulação, influenciam efetivamente o surgimento e a fortificação do ideário estadunidense neoliberal no Brasil.