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Resumen de ponencia
Fé vivida, celebração registrada: patrimonialização e experiências de mobilidade em uma folia de reis na cidade de Belo Horizonte, Brasil

*Guilherme Eugênio Moreira



Testemunhamos no Brasil uma vasta diversidade de celebrações religiosas que acontecem pelo movimento e no movimento. Comumente associadas aos espaços rurais e às cidades interioranas, na contemporaneidade essas celebrações são comuns nas grandes cidades brasileiras. No chamado catolicismo popular, encontramos romarias, procissões, reinados, congados, cavalhadas, dentre muitas outras. Um expressivo exemplo são as folias de reis, recentemente registradas como patrimônio cultural do estado de Minas Gerais, Brasil. Presentes em todas as regiões do país, as folias são manifestações religiosas católicas que se estruturam em devoção a algum santo e consistem em grupos de cantadores e tocadores (foliões) que andam pelas ruas e visitam as casas de devotos para distribuir bênçãos divinas e receber donativos em troca.
Nessas celebrações, caracterizadas por intensas mobilidades, circulam fiéis, familiares, santos, bandeiras, canções, instrumentos, graças e ofertas. Inspirado por autores da chamada virada da mobilidade (mobility turn), como Tim Cresswell (2006), Paola Jirón (2010), Vincent Kaufmann (2014), Mimi Sheller e John Urry (2006), o presente trabalho pretendeu investigar as experiências de mobilidade de uma folia de reis na cidade de Belo Horizonte, Brasil. Os autores dessa virada nos convidam a reconhecer a mobilidade como cerne da experiência humana e encará-la como dimensão analítica central em nossos trabalhos, a partir da investigação da construção de significados que os agentes vivenciam em seus movimentos. Nas práticas móveis, as pessoas se entrelaçam em múltiplas relações com a materialidade das ruas e com as demais pessoas que cruzam suas trajetórias, tecendo cartografias de poder que expandem ou restringem seus lugares pela cidade.
Dessa maneira, o pesquisador buscou compreender como as interações dos foliões uns com os outros, com outros agentes e com os elementos e condições colocadas pela cidade atuavam na definição de seus itinerários, trajetos e movimentos. A partir de ferramentas de shadowing (JIRÓN, 2011), quis apreender as práticas de movimento e seus significados em diferentes escalas. Percebeu como os arranjos espaciais e as possibilidades de movimento de cada participante dependiam de sua função na folia e eram limitadas ou expandidas de acordo com os espaços; como os momentos de deslocamento e espera nas ruas e calçadas tinham diferentes sentidos e eram tão constitutivos da folia como as visitas dentro das casas; e como os foliões resolviam os conflitos entre modernidade e tradição, colocados pela cidade grande.
Além disso, como afirmado anteriormente, as folias foram reconhecidas como patrimônio cultural imaterial do estado de Minas Gerais (Brasil), no início de 2017. Os bens culturais imateriais dizem respeito às práticas, expressões, celebrações, lugares e modos de fazer reconhecidos pelos grupos sociais como integrantes de sua memória e identidade. O patrimônio imaterial constitui uma realidade recente no campo das políticas culturais, resultado de décadas de reivindicações a respeito da necessidade de promoção e proteção das manifestações culturais intangíveis de povos e comunidades tradicionais. Suas premissas nos propõem a entender, portanto, os processos de criação, manutenção e transmissão do conhecimento, marcados por incessante dinamicidade. Não se trata mais da autenticidade e imutabilidade que sustentavam as primeiras retóricas do patrimônio edificado, mas sim de continuidade sócio-histórica, o que implica em encarar as dinâmicas de permanências e transformações dessas expressões culturais.
Nesse sentido, instauram-se novos desafios: como dar conta das singularidades e constantes mudanças desses bens culturais nos processos patrimoniais de inventário, registro e salvaguarda? Como a agenda das políticas patrimoniais, seus projetos, textos e discursos podem abranger celebrações intrinsecamente móveis, como as folias de reis? Como uma política pública marcada por prazos e exigências de produtos finais pode alcançar as vivências cotidianas dos detentores desses bens culturais, que sempre se atualizam e se recriam? A partir da pesquisa desenvolvida com essa folia de reis, algumas provocações exploram as possibilidades dos estudos de mobilidade para a proteção e salvaguarda de celebrações móveis como patrimônio cultural. Da mesma maneira, são examinadas as potencialidades das pesquisas sobre festas religiosas no espaço urbano para a construção de um debate mais democrático a respeito de quem são os agentes que fazem a cidade.




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* Eugênio Moreira
Programa de Pós-Graduação em Antropologia, Universidade Federal Fluminense PPGA/UFF. Niterói, Brasil