O artigo tem o intuito de apresentar algumas ideias da cafeicultura colombiana a partir de uma abordagem histórico-critica e tomando como recorte espacial o caso do Departamento de Risaralda, Colômbia. Acreditamos que uma análise geográfica do café como um “fenômeno” histórico, requer entender a relação campo-cidade, dentro de um contexto convulsionado e geralmente contraditório, no qual, o ator principal: o cafeicultor, faz parte do elo mais vulnerável da cadeia de valor e é quem absorve a maior parte da crise com sua sobre-exploração.
A estrutura do artigo será desenvolvida através de uma argumentação teórica, uma análise de contexto e sucintas conclusões por sub-item, tendo nesta esteira, um eixo estruturante denominado condições herdadas: oposição e materialidade, aqui as primeiras escalas de subordinação, desde o processo de colonização, até o momento de independência, assim, varias são as estruturas comerciais, produtivas e de poder que se mantêm, a maioria herdando com certa inércia uma alta dependência e dominação externa (que depois será assumida pela oligarquia crioula, com latifúndios, mercados de exportação pre-industriais, e nos centros de poder dados nos principais centros urbanos). Como explica Singer (1977, p. 21, 22) “O florescimento da economia colonial na América Latina independente é menos paradoxal do que parece. Compreende-se isso quando se considera que o movimento pela emancipação política não trouxe consigo qualquer mudança na relação de força entre as classes”, em outra palavras, “[...] as estruturas de dominação que se consolidaram após a independência só poderiam promover o crescimento da economia em moldes coloniais”.
Concretamente, no fim do século XIX, a relevância dos pequenos produtores é maior na produção de café e está totalmente envolvida com o processo de expansão chamado de Colonización Antioqueña, o qual consistia no deslocamento de camponeses até o sul do país, na procura de terras sem proprietário, estabelecendo roças no meio de áreas de florestas de galeria (PARSONS; ROBLEDO, 1997). Um fato importante é que para o ano de 1850 começa a presença de empresários do café na região e com este as lavouras em grandes fazendas e com este acumulação de capital, além da significativa mão de obra disponível se produz um aumento da produção cafeeira, bem como o posicionamento do grão como produto basilar de exportação (ROBLEDO, 2008). Tanto numa escala nacional, como regional o café chegou a representar no auge de produção e do bom preço internacional, aproximadamente, 30% do PIB do Eje Cafetero e também concentrou 50% da produção nacional do grão (TORO, 2005). Todos estes aspectos são basilares na consolidação da economia como na formação das cidades, processo no qual, a institucionalidade cafeeira teve um papel fundamental na consolidação de infraestrutura e serviços. Porém, após a ruptura do Pacto Internacional del Café no final da década de 1980, assim como condições próprias do contexto, foram expressadas, com um sintoma de uma crise, que provocou segundo Castrillón (2004), entre 1985-1993 mais de 600 mil pessoas em condição de deslocamento forçado.
Após desenvolver a estrutura que alicerça e orienta o artigo, serão abordadas três premissas. A primeira intitulada as formas: o campo oferece a cidade demanda; o campo obedece e a cidade comanda, mostrará algumas ideias que fundaram o pensamento dicotômico na relação campo-cidade, primeiro fazendo uma leitura da predominância das formas, para depois desvelar a força do poder do capitalismo na abrupta disparidade entre as condições de desenvolvimento entre o campo e a cidade.
Vários aspectos são determinantes quando falamos de um certo equilíbrio campo-cidade alterado, neste ponto, observamos que essas condições herdadas, possibilitariam com o ingresso da industria, a inauguração finalmente de uma divisão social do trabalho, está atividade eminentemente urbana, como frisa a Queiroz (1979) com a dominação do campo pela cidade, a economia passa a reorganizar as relações sociais e os processos em curso, alterando assim os novos equilíbrios, a industrialização não só alteraria a relação campo-cidade pelo novo papel da cidade de gerar excedentes e concentrar capital, também pela própria tecnificação do campo, criando assim uma relação caracterizada já não somente pela divisão e estratificação social, também por uma “verdadeira ruptura cultural” (QUEIROZ, 1979, p. 172). Como apresenta Moreira (s/d), existiria uma formação histórica universal da relação campo-cidade que se relaciona como uma primeira etapa em que a economia e a sociedade rural são predominantes, numa segunda etapa, com o surgimento de uma sociedade capitalista, introduz-se a divisão territorial do trabalho conforme se organizava a produção, distribuição e consumo de maneira distintiva mas interdependente. Risaralda não é alheia a este processo, a divisão do trabalho tem um carácter predominantemente sócio-espacial, em que as condições de industrialização e urbanização, como um duplo movimento, também de concentração e descentralização de capital.
Esta premissa se fundamenta dentro de uma racionalidade específica que chamaremos como segunda premissa, o pano de fundo: o capitalismo depende das desigualdades. Na sociedade urbana, o pensamento concreto e dicotômico parece se aprofundar. Segundo Marques (2002), historicamente “[...] tanto na geografia como na sociologia tem predominado a adoção do enfoque dicotômico”, sempre com uma marcada oposição e valoração do campo como aquilo mais tradicional, comunitário, estático e conservador, etc. E a cidade com o evidente rompimento que faz a industrialização, funda-se um imaginário de progresso, do moderno e dinâmico. Como salienta Wilches (2000), essa noção de desenvolvimento termina designando ao rural um papel residual no próprio desenvolvimento. Mas que fica por trás desta visão de desvalorização? Como esclarece Marques (2002, p. 101), nas análises dicotômicas da sociologia -- assim como de outras áreas do conhecimento-- “A ambiguidade, e não a contradição, é proposta como fundamento de diagnóstico das descontinuidades da vida social, de modo que em cada termo da dicotomia não haja ambiguidade”. Como estas relações são tipicamente contraditórias, exemplificar dito movimento, é afirmar a capacidade do campo de produzir alimentos, que pelo contrário, não serão produzidos pela cidade, mas sim comercializados e consumidos através de uma série de serviços urbanos que ao mesmo tempo serão negados no campo (TALASKA, SILVEIRA, ETGES, 2014).
Desta maneira, o contexto de Risaralda trás uma série de elementos que vamos complementar com a terceira premissa os conteúdos: o rural-urbano são conteúdos da realidade concreta, em que partimos do suposto de que a cidade e o campo “[...] se diferenciam pelo conteúdo das relações sociais nelas contidas e estas, hoje, ganham conteúdo em sua articulação com a construção da sociedade urbana” assim, “O problema é que ‘urbano’ e ‘rural’ longe de serem meras palavras são conceitos que reproduzem uma realidade social concreta” (CARLOS, 2004, p. 130).
Nesta realidade, sabendo que a área rural, que representa 98,74% da área total do departamento, concentra 21,71% da população, e a área urbana corresponde a 1,26% que concentra 78,29% da população total. Em suma, os problemas apresentados no Diagnóstico de Risaralda (2012), tratam-se a partir da baixa produtividade e competitividade em alguns subsetores agropecuários, principalmente pelo alto custo de produção; a baixa produtividade da mão de obra rural e as intensas variações climáticas. Ademais de aspectos como a baixíssima taxa de educação formal da população rural (20,6% ensino fundamental e 9% ensino médio em nível nacional), informalidade no emprego de 75% conjugado com uma taxa muito alta da migração campo-cidade, tornando-se um cenário difícil para continuar e viver das atividades do campo.
Com a quarta premissa: o território na processualidade indissociável: as possibilidades da geografia agroalimentar na abordagem da relação campo-cidade, pretende-se abordar as novas possibilidades da cafeicultura que estão surgindo e assumindo um papel de contestação à velha cafeicultura, que após a sua tecnificação e monocultura, teve uma forte simplificação do sitio criando uma serie de dependências com o mercado, a institucionalidade, de insumos químicos, heteronomia na organização, etc. Neste sentido, vemos o fenômeno das organizações de pequenos produtores de cafés especiais como um espaço dinamizador de outros produtos e serviços, assim, como de demandas específicas da agricultura, por exemplo das condições laborais e da descentralização do poder e da autonomia das organizações, assim como, uma redistribuição na balança do circuito, que tende a sobrecarregar os benefícios sobre os elos comercias.
Como temos tentado expor, várias ideias numa ordem histórica e processual vêm delimitando o que chamamos da relação campo-cidade que em realidade, como ponto gravitacional de todo o sistema, é uma parte, que igual que as formas campo-cidade, precisam ser olhadas como dimensões que compõem um território, ou seja, um todo, e não como oposições bifurcadas. Conforme ao argumento de que as concepções da realidade tem o poder de alterá-las, baseando-nos em algumas ideias de Gomez (2001, p. 5, tradução nossa), “[...] a concepção que se tenha sobre o alcance do rural tem importantes consequências na hora de definir políticas públicas”. O tipo de linguagem não só condiciona o paradigma desde o qual o pesquisador se alicerça, mas também os referentes que instrumentalizam as políticas territoriais, noções tais como: multifuncionalidade, multiatividades, relação campo-cidade, rural no urbano e urbano no rural, percepção, etc., são em últimas, novas abordagens na pesquisa que trazem as propostas de novas ruralidades, processo que requer identificar e redefinir o velho, eis um bom ponto de partida para reconhecer a novidade e o alternativo.