Esta apresentação tem por objetivo relatar os resultados parciais de pesquisa desenvolvida em nível de doutorado que investiga as relações entre o futebol de várzea e o processo de metropolização de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais, Brasil. O estudo concentra-se entre as décadas de 1940 e 1980, momento no qual se deu a reconfiguração do tecido urbano e do perfil populacional da cidade. Período de grande fluxo migratório, bem como do aumento da pressão pela terra, trata-se de época chave para compreensão do arranjo atual que essa prática esportiva assume na cidade. O trabalho articula temas como desenvolvimento da modalidade após a sua profissionalização e o aprofundamento da cisão entre o meio amador e o profissional; os sentidos de uma atividade atlética vivenciada pelos setores populares e vinculada às suas formas de sociabilidade, de criação de sentimentos comunitários e de laços de pertencimento com os territórios; as experiências políticas em nível municipal, com estabelecimento de relações clientelistas e a organização dos grupos interessados na defesa dos espaços dedicados ao futebol de várzea.
Mesmo que pouco percebido em função da falta de cobertura midiática, o futebol de várzea tem grande penetração nas camadas populares das cidades brasileiras. No caso de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais com cerca de 2 milhões e meio de habitantes, a prática tem extensão considerável. São aproximadamente cento e cinquenta campos de várzea. Nos campeonatos promovidos pela Federação Mineira de Futebol, por meio de seu Setor de Futebol Amador da Capital, há o envolvimento de ao menos 144 clubes, distribuídos em diferentes divisões e que, em todas as categorias, inscrevem mais de 12 mil atletas a cada ano nos torneios, incluindo-se cerca de 500 mulheres. Esse universo refere-se apenas às entidades que se engajam no circuito competitivo oficial, havendo uma variedade de copas independentes que mobilizam número ainda superior ao apresentado. Como medida da participação do público torcedor, cita-se, por exemplo, a final da Copa Itatiaia, promovida pela principal rádio local, realizada em 24 de janeiro de 2016, no Estádio Independência, a qual reuniu 16.449 pessoas.
A compreensão da persistência dessa prática esportiva popular passa pela percepção da forma como seus agentes reagiram a um processo histórico de metropolização que implicou (e implica até os dias de hoje) em forte pressão sobre os terrenos ocupados pelos campos mantidos pelas agremiações varzeanas. Muitos foram os espaços que desapareceram e levaram à extinção de clubes tradicionais do meio amador local. Outras entidades buscaram refúgio em áreas preservadas por associações irmãs.
Nesta apresentação será apontado o cenário geral dessa transformação por meio de mapeamento realizado ao longo da pesquisa. Essa visão cartográfica do fenômeno permite dimensionar de que forma a prática interagiu com a reconfiguração do espaço de uma metrópole em emergência. Em que medida, por exemplo, um primeiro movimento de expansão da mancha urbana, entre os anos 1950 e 1960, permitiu o surgimento de diversos locais de jogo, seguido, nas décadas de 1960 e 1970, da pressão decorrente da especulação imobiliária e de obras de estruturação viária e de equipamentos públicos, que colocou em risco boa parte das praças esportivas criadas. Ao se examinar a evolução da distribuição geográfica dessas áreas observa-se a relação dinâmica que estabeleceram com Belo Horizonte, servindo de índices de identificação dos perfis de ocupação que predominaram em cada região da capital de Minas Gerais.
Por fim, por meio de alguns casos exemplares, serão apresentadas estratégias adotadas pelos integrantes das agremiações para manutenção da prática, com a permanência em seus locais originais ou a conquista de novos espaços de jogo. Em sua atuação cotidiana eles se articularam com redes clientelistas, apropriaram-se de mudanças na legislação urbanística e mobilizaram formas de luta adotadas por outras associações comunitárias.
Com esse breve panorama, pretende-se indicar um quadro geral da pesquisa em andamento e abrir possibilidades de diálogos com fenômenos similares que possam ter ocorrido em outras cidades não só brasileiras, mas latino-americanas.