A preocupação deste estudo crítico é com a formação das identidades na América-Latina, à luz da cultura, imbricada a toda uma conjuntura política, econômica e social advinda do processo de colonização e domínios centrais. Os objetivos pretendem apontar: o lugar de fala latino-americano permitido na relação Norte/Sul, os silenciamentos, bem como as vozes emancipatórias; quais as epistemologias que podem ser associadas a esse processo de dominação e ao de luta por libertação; e como o discurso midiático é alicerce das diversas relações de opressão ao longo da historia da região. As epistemologias do sul e os estudos críticos sobre comunicação, mídia e cultura estruturam a principal base teórica deste trabalho. Alguns conceitos-chave vão nortear a análise: colonialidade, dependência, hibridismo, multiculturalismo, diversidade cultural, descolonização do poder/saber. Até porque, “o sistema básico de colonização e de dominação externas, experimentado por quase todas as nações latino-americanas durante pelo mesmo três séculos, foi construído de acordo com os requisitos econômicos, culturais e políticos [...]” (FERNANDES, 1975, p. 13). Assim, toda transformação passa, necessariamente, por uma questão cultural, que está no bojo de todas as relações humanas e sociais.
Ao lado das construções teóricas sobre o contexto econômico, social e político da América Latina, vários autores também se detiveram em analisar a constituição das identidades culturais dos povos latino-americanos, influenciadas diretamente pelas colonizações. Algumas análises foram mais críticas e outras mais ingênuas. As mais críticas são as que contextualizam a colonização no âmbito do impulso capitalista no mundo. As mais ingênuas são as que adotam uma visão maniqueísta entre dominadores e dominados, sem articulação com uma estruturação política e econômica internacional. Alguns chegam até a ver vantagens nas trocas culturais entre colonizadores e colonizados. No clássico América Latina – Males de Origem, escrito em 1905, Manoel Bomfim traz uma dessas abordagens menos ácidas, mas que nem por isso colocam de lado os efeitos danosos da dominação eurocêntrica. Há trechos do livro em que Bomfim, ironicamente, traça a visão do europeu sobre os latino-americanos, considerados pejorativamente de “preguiçosos”, “mestiços”, “degenerados”, “bárbaros”. Há uma sugestão clara de que a constituição cultural identitária de raça está vinculada a valores e modo de vida “menores” ou de uma subespécie. O sociólogo Gilberto Freyre está entre os autores que descreveram o lugar de fala dos latino-americanos de forma mais acrítica (aqui comparando com o Brasil), em relação ao papel desempenhado pelos colonizadores e sua força de opressão sobre os colonizados. Há por parte de algumas análises freyreanas o argumento de que foi também deixado um legado positivo pelos europeus, bem como uma ideia de convivência de colonização harmônica.
Já o autor Aníbal Quijano (2010, p. 120), traz uma sistematização das principais questões sobre a formação dos povos latino-americanos, que ajuda a elucidar a interface entre o cultural, o social, o político e o econômico dos processos de colonização, no item “Colonialidade da Classificação Social Universal do Mundo Capitalista”. O autor explicita como as identidades raciais foram inclusivas ou excludentes para a separação entre dominantes e dominados, sendo os europeus considerados como “superiores” e os dominados não europeus como “inferiores”. Quijano (2010, p. 120) também referencia, criticamente, as características fenotípicas para denominar os chamados superiores e inferiores, assim como a “raça branca” para os europeus e a “raça de cor” para os não europeus. Há que se olhar com certa desconfiança para algumas teorias sobre multiculturalismo e hibridismo, sobretudo quando se analisa a conjuntura das colonizações da América Latina. Enxergar como vantagens as formas de aculturação geradas pela dominação dos colonizadores é optar por uma abordagem acrítica, ou melhor, que siga a ótica dos países hegemônicos. Um dos autores que trazem luz acerca de uma visão (e uso) crítica de multiculturalismo é Boaventura de Sousa Santos, quando ressalta que “[...] multiculturalismo, justiça multicultural, direitos coletivos, cidadanias plurais são hoje alguns dos termos que procuram jogar com as tensões entre a diferença e a igualdade, entre a exigência de reconhecimento das diferenças e de redistribuição que permita a realização da igualdade.” (SANTOS, 2003, p. 26).
Não poderia ficar de fora do aparato teórico deste estudo, as reflexões de Florestan Fernandes sobre o colonialismo latino-americano, que foi iniciado “com a ‘Conquista’ – espanhola e portuguesa - e adquiriu uma forma mais complexa após a emancipação nacional daqueles países” (FERNANDES, 1975, p. 11). O autor reforça a sua tese quando diz que esse modo de colonização “experimentado por quase todas as nações latino-americanas durante pelo mesmo três séculos, foi construído de acordo com os requisitos econômicos, culturais e políticos do assim chamado ‘antigo sistema colonial’”. (FERNANDES, 1975, p. 13). No rastro dessa colonização e suas diversas formas de dominação, vieram as dependências, ditaduras e explorações capitalistas. Porque “[...] as nações latino-americanas são produtos da ‘expansão da civilização ocidental’, isto é, de um tipo moderno de colonialismo organizado e sistemático.” (FERNANDES, 1975, p. 11). E “a razão dessa persistência é a evolução do capitalismo e a incapacidade dos países latino-americanos de impedir sua incorporação dependente ao espaço econômico, cultural e político das sucessivas nações capitalistas hegemônicas” (FERNANDES, 1975, p. 11).
É parte fundamental dessa reflexão crítica – a formação das identidades latino-americanas no rastro da dominação - apontar também o lugar dos meios de comunicação de massa, sobretudo da chamada grande mídia, dentro desse processo de subjugação econômica, social, política e cultural, na rota de exploração do capitalismo eurocêntrico, num primeiro momento, e estadunidense, na contemporaneidade. Desvelar os discursos midiáticos sobre e para a América Latina, é compreender a mídia enquanto instituição de poder - com filiações econômicas, sociais, políticas e culturais - que condiciona e determina as relações históricas de igualdade e desigualdade materiais e imateriais. Para isso, são apresentadas as reflexões forjadas pela teoria crítica da comunicação e da cultura; da relação entre comunicação e direitos humanos; e da economia política dos meios de comunicação. A realidade histórica da comunicação midiatizada, na região, demonstra um contraditório ao direito à liberdade de expressão e ao direito humano à comunicação: hegemonia do modelo privado com fins lucrativos de exploração dos serviços públicos de radiodifusão e concentração de canais de TVs e emissoras de rádio nas mãos de poucos proprietários. É um traço marcante do desenvolvimento dos meios de comunicação de massa em toda América Latina, cujo controle absoluto está nas mãos de algumas famílias (MORAES, 2009, p. 110), desenvolvendo, como acontece no Brasil, as concentrações horizontal, vertical, de propriedade cruzada e monopólio em cruz (LIMA, 2004, p.103 ).
Portanto, os discursos que circulam na mídia e os silêncios impostos às vozes emancipatórias também são responsáveis pela perda de tradições regionais, aculturações, pelas invasões de valores, crenças, hábitos e costumes importados dos países “centrais”; e causam um grande impacto sobre a vida econômica, social, política e, sobretudo, cultural desses países do Sul. Mas há uma reação latino-americana por emancipação e empoderamento.
Há uma busca por maior soberania e independência. A base econômica e política rege essa caminhada por libertação, mas ela passa, necessariamente, por uma mudança de lugar de fala das nações e povos da região. Muito desse estado de “ser submisso” está incrustado na formação das populações e seus líderes. Talvez essa libertação de padrões culturais seja mais difícil e tardia do que uma possível hegemonia econômica. São amarras difíceis de soltar.
Observa-se na história da América Latina uma adoção cultural “dominante”: de linguagens, padrões de estética, ideia de felicidade, influência musical e artística, consumo de produtos, modo e estilo de vida, enfim, de crenças, costumes e ideologias. São culturas materiais e imateriais, tangíveis e intangíveis, de fora, do Outro, do estrangeiro, do “dominante”. Dificilmente um povo, uma nação, uma região será emancipada se não olhar para dentro de suas tradições, reconhecê-las e valorizá-las. Essa “colônia” que tenta conquistar o mundo precisa conquistar primeiro a si mesma.