O presente trabalho é resultante de um estudo dirigido às transformações implementadas em Cuba, dentro do projeto societário, como parte dos dilemas e das tensões que tiveram início com o novo milênio. A pesquisa está voltada aos câmbios que estão sendo realizados com a participação de diretores, docentes, estudantes e demais agentes sociais, visando a adequação do sistema nacional de ensino às diretrizes para a Educação aprovadas no Sétimo Congresso do Partido Comunista Cubano (PCC), para o período de 2016 a 2030, consubstanciadas no abarcamento de novos programas e formas de gestão nas sedes escolares. Em Cuba, a segunda década do século XXI começou com a prática de câmbios importantes, centrados na esfera econômica e organizacional da sociedade. Diversos fatores, tanto externos como internos, evidenciaram as limitações da economia para seguir adiante e levar a vias de fato às transformações sociais, que demandam a sociedade cubana atual. Em meio a esse contexto de transformações, desde 2005, novos entraves demonstravam as dificuldades de enfrentamento ao déficit financeiro do balanço de pagamentos e às transferências bancárias para o exterior. O ambiente internacional caracterizava-se pela existência de uma crise estrutural sistêmica, com simultaneidade nos âmbitos econômicos e energéticos, crise alimentar e ambiental, onde o maior impacto recaia nos países em desenvolvimento. Cuba, não estava isenta dos impactos deste colapso, que foram manifestadas na volatilidade dos preços dos produtos. Além disso, o país experimentou um recrudescimento do bloqueio econômico, comercial e financeiro, durante meio século imposto pelos Estados Unidos. Configurou-se vitalmente necessário para atingir a invulnerabilidade da Revolução, a abordagem destas Diretrizes, de acordo com as conclusões do sétimo congresso do PCC.
A abertura de Cuba aos capitais forâneos teve lugar em 1982, quando ocorreu o primeiro antecedente de inversão estrangeira no período pós-revolucionário. Como resultado, o contexto passaram a requerer maior fortaleza nas instituições, incluindo a reorganização do Estado e do Governo. Com o objetivo de aligeirar a carga sobre o Estado, em alguns serviços, iniciaram-se experimentos tais como a substituição de restaurantes e de transportes obreiros estatais por outras modalidades, arrendamento de barbearias, cabelereiros e táxis a trabalhadores por conta-própria. A partir de 2011, como parte do processo de atualização socioeconômica na Ilha, vem aparecendo - de forma paulatina - disposições oficiais e jurídicas, encaminhadas pelo governo, a fim de ampliar o trabalho não subordinado à administração do estado, - o cuentatropismo -, como é conhecido em Cuba o setor privado da economia. Com medidas reconhecidamente válidas por todas as organizações de massa e necessárias ao desenvolvimento sustentável, essa gestão introduziu em Cuba mais de 200 ofícios exercidos de forma individual ou em cooperativas, tais como, pedreiro, eletricista, pintor, manicure, barbeiro, costureira, marceneiro, borracheiro, relojoeiro, tapeceiro e sapateiro. As atuais reformas permitiram desde o crescimento de dezenas de milhares de empresas privadas, até restaurantes e pequenos hotéis.
No bojo das dificuldades e transformações, para curso de 2009-2010, o Ministério da Educação empreendeu um profundo plano de transformações com o objetivo de continuar elevando a qualidade da educação e assim garantir que as futuras gerações estejam preparadas para enfrentar os problemas gerados pelo próprio desenvolvimento e pela atualização do modelo. Com esse intuito foram priorizados o trabalho político-ideológico e a educação em valores, em todo o Sistema de Ensino, sustentados em maior conhecimento da História cubana e universal. O novo modelo incluía 21 carreiras docentes, com 5 anos de duração, para todos os níveis, sendo 2 ou 3 anos de caráter presencial nas Universidades de Ciências Pedagógicas, em uma etapa de formação intensiva, propiciando a elevação da cultura geral do futuro docente e a preparação para o trabalho nas escolas. Concluída essa fase, o estudante se incorporaria a um centro escolar, próximo ao seu domicílio, para a sua formação profissional, sob a atenção direta de um tutor, com frequência às universidades pedagógicas, uma ou duas vezes por semana.
Na percepção desta pesquisa, refletir sobre a educação na Ilha é ressaltar a atuação do professor como agente político, em estreita relação com o desenvolvimento ideológico da nacionalidade e a escola como centro de cultura popular, formadora de sentimentos e de princípios morais. Entretanto, a prática vem demonstrando que apenas com lições não se forjaria uma nova consciência, diante da necessidade de os jovens participarem do esforço coletivo. O fato dos meios de produção serem considerados patrimônios do povo não se transforma em um sentimento coletivista, se os trabalhadores e os estudantes não se relacionarem com tais meios, como produtores e administradores. A passividade imposta aos jovens em seu processo de socialização e a influência de padrões externos, sobretudo da comunidade cubana residente nos Estados Unidos, conformaram um modelo de bem-estar, embasado no consumo e com tendências à mentalidade de consumidor acima da consciência de produtor, problemas que dificultam a consolidação do ensino na esfera dos valores, especialmente na faixa etária mais vulnerável, que é a adolescência. Não obstante, apesar dos recentes câmbios econômicos e do surgimento do trabalho por conta própria, a maioria da juventude cubana se encontra vinculada ao setor estatal. Isso está, provavelmente, relacionado ao fato de que o Estado cubano continua priorizando a inclusão de jovens em seus órgãos e entidades. Em sua essência, esta investigação aponta que muitos dos problemas atuais não ocorrerem somente pela oposição ao trabalho, porque, como valor, ele é aceito pela sociedade cubana, mas a questão se encontra na assimilação concreta da ideia, que nem todos possuem, muito menos quando as convicções necessitam ser transformadas em conduta efetiva. É fato notório, na concepção deste estudo, que persistem claros indícios da estagnação econômica ainda não superada, apesar da explosão do turismo, impulsionado pelo descongelamento das relações com os Estados Unidos em dezembro de 2014. Em termos conclusivos, é possível levantar muitas evidências de que, embora tenham sido afetadas nas estruturas, as instituições escolares cubanas ainda se apresentam como o principal alicerce do processo revolucionário, que tem na Educação a grande igualadora social no país.
Nos fundamentos da investigação, destaco os trabalhos Buenavilla Recio (2014), Mesa Tejada (2015) e Peréz Villanueva (2013). O percurso metodológico é uma abordagem etnográfica, que envolveu extenso trabalho de campo, com recorrentes aproximações de pessoas e de eventos. Os fundamentos desta pesquisa foram extraídos da frequência, nas três últimas décadas, a reuniões das associações de massa, escolas e congressos, em todas as províncias de Cuba, que permitiram o transitar entre a observação e a análise.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BUENAVILLA RECIO, Rolando. Historia da pedagogía en Cuba. Habana: Pueblo y Educación, 2014
MESA TEJADA, Natacha. La inversión Extranjera en Cuba. La Habana: Ciencias Sociales, 2015.
PERÉZ VILLANUEVA Omar. Cuba: la ruta necesaria del cambio económico. La Habana: Ciencias Sociales, 2013.