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Resumen de ponencia
"Raça" e colonialismo: ensaio teórico à luz de clásicos pós-coloniais

*Washington Luiz Dos Santos Assis



Embora os estudos pós-coloniais só tenham se consolidado como teoria crítica após a década de 1980, seu objeto de estudo e suas ideias são desenvolvidas por intelectuais anticolonialistas como Aimé Césaire, Albert Memmi e Frantz Fanon desde a segunda metade do século XX, influenciando reflexões e produções de textos acadêmicos relacionados à colonização dos povos não-europeus e as consequências desses processos sociais nas sociedades ocidentalizadas. O presente texto é composto de reflexões teóricas sobre a influência do fato colonial na produção de desigualdades sociais, sobretudo, as produzidas em torno da ideia sociopolítica (constituída) de “raça”, utilizada para subalternar e inferiorizar sujeitos, constituindo hierarquias sociais por meio da essencialização e valoraração das diferenças. Neste senda, este trabalho apresenta a teoria crítica pós-colonial como chave teórico-interpretativa imprescindível para a compreensão dos efeitos nocivos do colonialismo em na sociedade contemporânea.
É neste complexo mundo de diferenças, onde os grupos sociais mais abastados classificam, inferiorizam e subalternizam os demais por características fenotípicas e regionais, assujeitando-os, ao invés de tê-los ou vê-los como semelhantes, que se faz cada dia mais necessário compreendermos as discussões propostas pelos intelectuais e estudiosos pós-coloniais, que têm contribuído significativamente para a descolonização dos sujeitos e a desconstrução das hierarquias sociais, causadoras de grande parte das desigualdades sociais no mundo contemporâneo. Dado que, desde a modernidade, as sociedades dominantes subalternam, inferiorizam, desqualificam e, até mesmo, desumanizam os sujeitos diferentes em nome de uma visão homogênea de mundo. Deste modo, as sociedades dominantes idealizam o mundo de forma a constituírem parâmetros que determinam os sujeitos desejáveis e não-desejáveis, cujos critérios de seleção obedecem, sempre, a lógica sociopolítica de uma sociedade ideologicamente euronortecentrada .
Os parâmetros são definidos por intermédio de critérios subjetivos, previamente definidos pelos grupos dominantes, de modo a constituir objetivamente um mundo de diferenças que – há muito – tem expropriado riquezas, direitos e, até mesmo a humanidade de sujeitos subalternos e sociedades periféricas, usurpando-lhes boa parte de suas capacidades de agência e coexistência.
Mesmo após a descolonização dos países de África, Ásia e das Américas, as marcas da colonização permaneceram no imaginário dos povos, tanto colonizadores quanto colonizados, formando o pensamento das elites e dos grupos sociais dominantes, que, ideologicamente, tomam o imaginário social das demais representações da sociedade, fazendo-os acreditar na existência de, apenas, um único mundo possível; que nada mais é, que aquele oferecido pela classe dominante.
Nesse sentido, é nosso dever mencionar que, principalmente nas sociedades ocidentalizadas, as relações sociais não sofrem mudanças estruturais desde o início da modernidade, pois ainda mantêm a mesma lógica de dominação social estabelecida pelo sistema colonial, distribuindo e restringindo vantagens conforme as hierarquias sociais, subjugando pessoas, grupos e, até mesmo, sociedades inteiras, em nome de uma suposta superioridade euronorcêntrica.
A teoria crítica pós-colonial tem se apresentado como uma valorosa ferramenta para a desconstrução de epistemologias geradoras de discriminação e desigualdades sociais, em especial, nas sociedades colonizadas e ocidentalizadas. Apesar das principais obras relacionadas com esses estudos terem sido escritas a partir da década de 1950, a teoria pós-colonial só passou a ser amplamente difundida após os anos de 1980.
Com a finalidade de darmos seguimento a difusão desse pensamento, em especial, entre a comunidade acadêmica – para que esta possa engajar-se na empreitada de descolonização do ser, do poder e do saber –, apresentamos neste texto algumas reflexões sobre a noção da constituição de desigualdades sociais e o pensamento crítico pós-colonial. Sempre, em busca de apreender “o que o colonialismo tem que ver com as desigualdades sociais, em especial as produzidas nas periferias das sociedades modernas contemporâneas? ”.
A resposta para essa pergunta não seria possível sem a contribuição dos clássicos anticoloniais, dos quais elegemos textos de Aimé Cesáire (1978), Albert Memmi (2007), Jean-Paul Sartre (2007) e Frantz Fanon (2008). Por dos quais, percebermos que ao estabelecer-se no mundo moderno o sistema colonial constituiu epistemologias subalternantes e inferiorizantes, deslocando sujeitos e os povos não enquadrados nos padrões pré-estabelecidos pelos ditames brancos ocidentais para as periferias das sociedades, expropriando-lhes o reconhecimento do ser, do poder e do saber.
Embora tenham suas peculiaridades, os textos utilizados trazem como pontos de intersecção a denúncia da exploração dos sujeitos “diferentes” por inferiorização, geralmente, envolvendo questões raciais, contextualizando essa situação com a lógica de dominação colonialista, demonstrando que uma das armas do colonizador para “legitimar” a sua suposta superioridade é a desumanização de sujeitos por discriminação racial, independente se judeus, índios ou negros. Pois, toda forma de racismo e exploração são desumanas. Um racismo não difere de outro, pois todo racismo atinge o mesmo “objeto”: o homem (FANON, 2008).
Os textos pós-coloniais representam não apenas uma maneira de denunciar as atrocidades cometidas pelo sistema colonial, mas também, revelar como esse sistema exploratório deixou marcas na humanidade e quais as consequências dessas marcas, que não podem nem devem ser negadas, tampouco, apagadas da memória das sociedades. No entanto, necessitam de resgate para que todos sejamos esclarecidos e os efeitos da aventura colonial sejam desconstruídos, a fim de não se apagarem as evidências e as gerações futuras não sofrerem as mesmas mazelas.
Dito isto, concluímos que o colonialismo tem, sim, muito que ver com as desigualdades sociais surgidas após a modernidade, pois ao constituir epistemologias em que o reconhecimento da pessoa humanidade se daria, apenas, a partir de uma única visão de mundo, a euronorcêtrica, expropriou das demais sociedades, e seus “diferentes” sujeitos a condição de (co)existência em um mundo criado por eles, colonizadores, e para eles. Assim, com a imposição da lógica colonizadora, o colonizado deixa de se sentir humano, pois a sua condição de humanidade passa a estar atrelada ao reconhecimento do colonizador, que impõe a ele, colonizado, um novo sentido de existência.




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* Dos Santos Assis
Universidade Federal de Rondônia UNIR. Porto Velho-RO, Brasil