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Resumen de ponencia
Imagens da classe em movimento: João Zinclar e a fotografia militante

*Sônia Aparecida Fardin



O presente trabalho tem como foco a atuação da classe trabalhadora brasileira na condição de autora de sua imagem fotográfica, em especial no período identificado como Ciclo de Governos Progressistas.
Na América Latina, o período do final da década de 1990 até 2015 esteve marcado em vários países pela ascensão, via eleitoral, de governos classificados como progressistas, o que caracteriza um ciclo político com especificidades ainda carentes de análises e interpretações teóricas. Essa afirmação está embasada, sobretudo, em ensaios publicados pela coleção Nossa América Nuestra, iniciativa da Fundação Perseu Abramo (2016), como parte de um conjunto de estudos dedicados ao debate das recentes lutas políticas da esquerda, com destaque para Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Venezuela, Equador e Uruguai.
No Brasil, nesse período, sujeitos políticos da classe trabalhadora como partidos, centrais sindicais, associações culturais, movimentos contra o racismo, contra o machismo e contra a homofobia puderam, pela via institucional, incidir na agenda do Estado burguês e conquistar instrumentos públicos de distribuição de renda, políticas de direitos humanos e mecanismos de valorização da diversidade cultural e de mídias democráticas e anti-imperialistas.
Contudo, os limites dessas conquistas e as contradições da política de conciliação de classes chegaram ao ápice em 2013. Nesse embate, a classe capitalista, por meio de instrumentos jurídicos, midiáticos e empresariais, orquestrou o Golpe de 2016 cujo roteiro inclui criminalizar e conspurcar a imagem da esquerda, destruir conquistas sociais e submeter a classe trabalhadora aos patamares de exploração do início do século XX. De mesmo padrão são os instrumentos utilizados pela classe capitalista para promover os retrocessos eleitorais na Argentina e no Chile e os ataques aos governos progressistas democraticamente eleitos no Equador e na Venezuela.
Todavia, é inconteste que os movimentos sociais da classe trabalhadora na América Latina viveram nos primeiros anos deste século experiências de lutas políticas que necessitam ser exaustivamente estudadas em suas vitórias e derrotas, inclusive para buscar superar o atual momento de retrocesso.
Uma das dimensões estratégicas das lutas políticas contemporâneas é a produção de narrativas visuais. O presente artigo busca dar uma contribuição nesse campo, o objetivo é problematizar as potências e contradições das práticas midiáticas visuais da classe trabalhadora brasileira, entre 2000 e 2013, a partir do estudo da trajetória de um fotógrafo militante e do mapeamento dos movimentos políticos e culturais com os quais ele interagiu.
O fotógrafo é João Zinclar, nascido em 13 de agosto de 1956 em Rio Grande, cidade litorânea no estado do Rio Grande do Sul, e falecido em um acidente automobilístico em 19 de janeiro de 2013, quando voltava de Volta Redonda para Campinas.
João era filho de operários de origem negra, começou a trabalhar na adolescência como comerciário e encanador industrial na construção civil. Aos dezoito anos, em busca de trabalho, decidiu migrar para grandes centros urbanos. Nos anos 1970, a vivência na construção civil colocou-o em contato com a rotina árdua de alojamentos e canteiros de grandes obras e, assim, também, com a diversidade de culturas da classe trabalhadora brasileira, em meio as contradições do modelo de desenvolvimento da ditadura civil-militar no Brasil, que fazia crescer não apenas altos-fornos, aeroportos, indústrias e refinarias, mas também ampliava desigualdades, êxodo rural, injustiças e medo.
Em um ambiente político envolto em opressões e resistências, nos meados da década de 1970, João trabalhava em Salvador, ganhava salário de trabalhador qualificado mas vivia em condição laboral opressiva. Circulava também entre os jovens praticantes da contracultura que se afastavam da vida sujeitada às normas mercantis. Nesse meio conheceu a artesã Carolina, que o convidou para viajar pelo Brasil. Deixou então o trabalho formal, tornou-se artesão. Já conhecia pescadores da beira mar e operários das grandes cidades, com o movimento hippie foi conhecer ribeirinhos da floresta amazônica e agricultores dos sertões e cerrados. Rodou o Brasil entre 1976 e 1980. No final dos anos 1970, a luta pela anistia, as greves dos canavieiros em Pernambuco e Alagoas e as dos movimentos operários em São Paulo fizeram-no rever a opção hippie e pensar em voltar para casa.
Em 1981, de novo em Rio Grande, passou a ler muito, em especial os jornais e revistas dos movimentos políticos de esquerda, com os quais também começou a interagir. Filiou-se ao PCdoB, ainda na clandestinidade, retornou à vida operária, adquiriu uma câmera fotográfica e frequentou cursos do Foto Cine Clube Gaúcho. Assim, em movimentos concomitantes, iniciou-se na militância sindical, na vida partidária e na fotografia amadora.
Como membro ativo do PCdoB recebeu a missão de ir construir a luta dos trabalhadores em Campinas, interior de São Paulo, onde trabalhou como metalúrgico e dirigente sindical, chegando a ocupar a diretoria de imprensa do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e Região.
Em 1996 decidiu sair do partido e dos quadros sindicais, mas não da luta política, iniciou um novo ciclo de militância: dedicação exclusiva à documentação fotográfica das lutas de entidades e movimentos sociais de resistência da classe trabalhadora.
Entre 1996 e 2013 interagiu com movimentos populares do Brasil, da Inglaterra, da Alemanha, da Bolívia, da Venezuela e do México, além de colaborações com boletins sindicais, blogs, sites, calendários e outros veículos da imprensa alternativa e popular. As principais atuações foram com Sindicato dos Químicos, Sindicado dos Metalúrgicos, Sindicato dos Professores, Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp, Sindicatos dos Correios, Jornal Brasil de Fato, Jornal e Revista do Movimento dos Trabalhadores Rurais SemTerra, Comissão Pastoral da Terra e Museu da Imagem e do Som de Campinas.
Em 2005 iniciou a produção de uma cartografia visual das regiões que compõem a Bacia do Rio São Francisco, trabalho que publicou em 2010 com o título O Rio São Francisco e as águas do sertão. Recebeu o reconhecimento dos movimentos sociais com os prêmios Medalha Hércules Florence – Mérito fotográfico, Campinas, SP (2005); Prêmio Luta pela Terra – Categoria fotografia – MST 25 anos – 1989-2009, Sarandi, RS (2009); Prêmio Amigos das Águas/ I Encontro dos Atingidos(as) pela transposição do Rio São Francisco, em Campina Grande, PB (2010) e Prêmio Pequi de Ouro, pela defesa do cerrado na Bacia do Rio Grande, em Barreiras, BA (2012).
Comunista, militante no sindicalismo e na luta cultural, entre 1995 e 2013, João produziu mais de duzentas mil imagens fotográficas, no Brasil, na Venezuela e na Bolívia, assim surgiu um dos mais significativos conjuntos documentais da história recente das lutas sociais brasileiras.
João Zinclar não era um fotógrafo que somente por razões de consciência e ou tino profissional dirigia seu olhar às movimentações da classe trabalhadora, mas sim um sujeito da classe em movimento. Desse lugar social ele se fez fotógrafo, forjado na luta, no plano individual e no coletivo. Portanto, para além da significância das dimensões quantitativas e qualitativas, o Acervo João Zinclar reúne informações sobre a luta cultural da classe trabalhadora brasileira no período denominado como ciclos progressistas, em especial no que tange às implicações políticas da visualidade fotográfica.
No presente trabalho analiso uma seleção de imagens desse acervo, organizada pelo próprio fotógrafo em 2012 para compor uma exposição celebrativa de sua trajetória. Todavia, tal exposição não chegou a ser integralmente realizada, apenas uma parcela foi exposta postumamente em agosto de 2013 com o título João Zinclar, a imagem militante.
A partir dessa seleção busco analisar as ações de documentação, do fotógrafo e de seus pares nos movimentos sociais, como estratégias de resistência às estruturas capitalistas de produção, veiculação e preservação de imagens.
A metodologia adotada é a elaboração de estudos iconológicos e iconográficos (KOSSOY, 2007), para mapear as tramas de significações sociais presentes nas atuações dos sujeitos políticos envolvidos nas temporalidades pré e pós ato fotográfico (DUBOIS, 1990). Em síntese, o foco é atuação da classe trabalhadora enquanto sujeito da produção de sua imagem, como dimensão estratégica na luta de classes no contexto latino-americano.


Bibliografia e Fontes Audiovisuais

COLEÇÃO Nossa América Nuestra, São Paulo: Fundação Perseu Abramo. Partido dos Trabalhadores, 2016. Disponível em: . Acessado em 24 de fevereiro de 2018.

DUBOIS, Phillippe. O ato fotográfico. São Paulo: Editora Papirus, 1990.

KOSSOY, Boris. Realidades e ficcões na trama fotográfica. Cotia: Ateliê Editora, 2002.

KOSSOY, Boris. Os tempos da fotografia. Cotia: Ateliê Editora, 2007.

ZINCLAR, João. O Rio São Francisco e as águas do sertão. Campinas -SP, 2010.

FARDIN, Sônia. João Zinclar, o fotógrafo das lutas brasileiras. Outras Palavras, 2013.
Disponível em: . Acessado em 24 de fevereiro de 2018.

João Zinclar, a imagem Militante. Museu da Imagem e do Som: Campinas-SP, 2013. Doc. 29 min.
Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=KYD95zhe1f0>. Acessado em 24 de fevereiro de 2018.

Minha exposição. Acervo João Zinclar: Campinas-SP, 2013. Disponível em: < https://ajz.campinas.br/>. Acessado em 24 de fevereiro de 2018.





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* Fardin
Acervo João Zinclar AJZ. Campinas, Brasil