Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
Rodas Culturais e formação de subjetividades na ação político-pedagógica de jovens para jovens

*Valentina Carranza Weihmuller



Este trabalho teve início em maio de 2016, quando por meio do Projeto de Pesquisa-extensão “Estudo sobre as mediações das ciências, da saúde e da mídia na educação dos Jovens em situação de vulnerabilidade social” (NUTES – UFRJ), conhecemos um grupo de meninos e meninas moradoras de Manguinhos, RJ, adolescentes jovens entre 15 e 19 anos de idade, estudantes do ensino médio de colégios estaduais localizados nessa área urbana. A partir desse projeto interagimos com os/as jovens em diferentes espaços de sociabilidade, tanto dentro como fora da escola, fato que nos permitiu conhecer diferentes práticas, espaços e dinâmicas de recriação social e cultural.
Partindo da centralidade da cultura nas sociedades contemporâneas e do reconhecimento dos jovens como sujeitos sociais com agência cultural, o trabalho problematizou a formação de subjetividades juvenis em um complexo de favelas da cidade de Rio de Janeiro (Manguinhos) a partir de “práticas socioculturais não formais de jovens para jovens”. Especificamente, analisaram-se as rodas culturais, iniciativas de caráter público, ligadas ao movimento hip hop e de recente surgimento na cena carioca.
Como relata Alves (2016), as rodas culturais surgem na cidade do Rio de Janeiro há aproximadamente 7 anos, a partir da atuação do “Circuito Carioca de Ritmo e Poesia” (CCRP). Dada sua vinculação ao hip hop, as rodas culturais se expressam por meio dos elementos próprios a esse movimento urbano (rap, grafite, break) tendo como principal manifestação o rap no formato de batalhas de rima, ou rima de improviso. Mas também ampliam a inclusão de outras manifestações de arte de rua, que não querem depender dos circuitos de produção centralizados. Os locais onde as rodas acontecem são geralmente espaços públicos e a participação é aberta e gratuita, tanto para os artistas que queiram apresentar seus trabalhos como para o público que esteja a fim de assistir a roda (Alves, 2016).
Por meio de uma estratégia de pesquisa qualitativa mista (etnografia, análise de discurso e monitoramento de mídias digitais) o trabalho se orientou a compreender as rodas tanto na sua dimensão prática, como discursiva, esta última a partir da análise de rimas de músicas, com embasamento de noções da análise crítica de discurso crítico (Foucault, 2008, Fairclogh, 2001). A aproximação ao campo foi desde um olhar “de perto e de dentro” (Magnani, 2002, 2009) como “público” das rodas. Assim a participação da pesquisadora foi através da circulação e interação tanto nas cenas “ao vivo” como nos espaços de visibilidade e promoção digital de 10 rodas de Manguinhos, RJ durante setembro de 2016 e junho de 2017.
Nos resultados, processos de subjetivação foram identificados e caracterizados pela ocupação coletiva e autônoma do espaço público (físico e digital) e de uma estratégia discursiva de denúncia, reflexão e proposta, que transformam os estigmas sociais adjudicados às juventudes de favelas em emblemas identitários (Reguillo, 2000).
Conforme nosso referencial teórico, apoiamo-nos no conceito de pedagogia da perspectiva crítica cultural de Giroux (1999), que a entende como uma forma de política cultural que transpassa diferentes linguagens, atividades e espaços sociais. Nessa concepção, o fazer pedagógico-político está sempre implicado na construção e organização de conhecimento, desejos, valores e práticas em diferentes âmbitos sociais. Com base nessa ideia, caracterizou-se as rodas abordadas como um tipo de prática social que expressam um modo particular de política pedagógico-cultural.

Em relação à dimensão cultural-pedagógica, descrevemos como nas rodas se desenvolvem processos de subjetivação que produzem formas particulares de criação de sentidos e representações sobre o mundo, a sociedade e sobre as juventudes em “si mesmas”. O interessante das rodas é que a função pedagógica (de conduzir o processo de criação de sentidos e práticas) se dá entre jovens. Baseados na cultura hip hop, eles criam o espaço de interação, decidem sobre as formas de expressão, estabelecem suas regras, falam suas linguagens, propõem conteúdos segundo seus interesses.
Focando na análise da especificidade política da prática cultural-pedagógica, constatou-se como as rodas em Manguinhos, RJ se preocupam com o desenvolvimento de um processo que tem como horizonte “mobilizar conhecimentos e desejos que possam conduzir à minimização do grau de opressão na vida das pessoas” (Giroux, 1999, p. 15), além de recuperar espaços públicos em territórios historicamente controlados e oprimidos pela hegemonia colonialista/capitalista da “modernidade” latino-americana urbana, e seus mecanismos de ocupação e intervenção militar, estigmatização sociocultural e privação económica. Assim as rodas abordadas manifestam a aposta de Freire (1978) em relação à potencialidade dos processos educativos não formais na hora de visibilizar e legitimar o saber popular e a na potencialidade das modalidades dialógicas “não formais” para o desenvolvimento do trabalho político-pedagógico.
Neste sentido, enfatizamos a importância das rodas como instâncias de sociabilidade com características de autonomia, num marco de produção de sentidos, significados, valores e agência das juventudes para as juventudes, sem subestimar os tensionamentos que o circuito de rodas culturais e o movimento hip hop carioca apresentam atualmente em relação ao Estado e ao mercado. Além disso, reconhece-se a demanda da juventude hip hop de Manguinhos pela cultura, a educação e o conhecimento, fato que interpela aos setores, políticas e instituições estatais no seu dever de garantir esses direitos.

Referências bibliográficas
Alves, R. G. (2016). Resistência e empoderamento na literatura urbana carioca. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea. no 49, p. 183-202.
Fairclough, N. (2001). Discurso e mudança social. Trad. Izabel Magalhães. Brasília: Universidade de Brasília.
Foucault, M. (2008). A Arqueologia do Saber. Trad. Luiz Felipe Baeta Neves. 7ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária.
Freire, P. (1987). Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 17º ed. Versão Digital. Disponível em: Acesso: 5 de julho 2016.
Giroux, H. (1999). Cruzando as fronteiras do discurso educacional: novas políticas em educação. Trad. Magda França Lopes. Porto Alegre: Artes Médicas Sul.
Magnani, J. G. C. (2002). DE PERTO E DE DENTRO: notas para uma etnografia urbana. Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 17, no 49. 2002. Pp. 11-29.
______. (2009). Etnografia como prática e experiência. Horiz. antropol. Porto Alegre, v. 15, n. 32, p. 129-156, dez.
Reguillo, Rossana. (2000). EMERGENCIA DE CULTURAS JUVENILES estrategias del desencanto. Ed. Norma: Bogotá.




......................

* Carranza Weihmuller
Programa de Pós-gracuação em Educação em Ciências e Saúde. Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde. Universidade Federal de Rio de Janeiro PPGECS - NUTES - UFRJ. Rio de Janeiro, Brasil