Este texto analisará, em perspectiva comparada, as estratégias de integração regional praticadas por Índia e Brasil no século XXI. Tratam-se dos dois países caracterizados como subdesenvolvidos que mais avançaram na direção de uma indústria nacional, sem romper com o capitalismo, nas respectivas regiões em que estão situados: a América Latina e o sudeste asiático. Nos dois casos, a reprodução de desigualdades sociais pelas quais estes países são mundialmente conhecidos, associada à perpetuação da vulnerabilidade externa que foram incapazes de superar, limitou o alcance dos projetos associados ao desenvolvimento nacional no período da Guerra Fria.
Já no final do século XX, a aceleração das tendências à financeirização do capitalismo no contexto do colapso soviético, que pressionou pela abertura econômica multilateral em um movimento que se confunde com a própria globalização, esteve associado à difusão da agenda política identificada com o neoliberalismo em todo o mundo, e também nestes países. Entretanto, a forma como o neoliberalismo penetrou em cada país esteve condicionada por múltiplas particularidades, dentre as quais é possível destacar, no plano político, a emergência do Partido dos Trabalhadores no contexto de transição democrática no Brasil; a corrosão do Indian National Congress (INC) e o ressurgimento da política comunal no subcontinente asiático.
De modo análogo, a institucionalização de um regime multilateral referido à Organização Mundial do Comércio (OMC) em 1994, reforçou a pressão para a formação de blocos econômicos. Neste contexto, os países analisados adotaram estratégias de integração regional específicas, mas que admitem diversas analogias, como se descreverá adiante. No âmbito global, eles convergiram no início do século XXI no BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), um acrônimo cunhado em 2001 pelo economista Jim O´Neill do grupo financeiro Goldman Sachs, referindo-se a um conjunto de países de notável potencial econômico e que inicialmente. Inicialmente, a África do Sul não estava incluída. Nos anos seguintes estes países passaram a reunir-se sistematicamente, consolidando um bloco com interesses afins, cujo potencial político e econômico tem sido objeto de discussão . A convergência dos três países neste bloco constitui um denominador comum suplementar, que instiga a comparação.
Em consonância com as premissas do método comparativo, esta pesquisa salientará as tendências comuns, mas também as particularidades da maneira como cada um destes países responde à globalização. A investigação partirá da análise dos regimes de acumulação prevalente em cada país, referidos às especificidades da história, à conjuntura política e ao entorno regional, para desvelar a racionalidade que preside as respectivas estratégias de integração regional. Entendo que este enfoque permite, inclusive, contribuir para a discussão sobre o BRICS, ao referir os limites e possibilidades da iniciativa ao movimento da história em que estão inscritos os países analisados. Por outro lado, na medida em que a política de integração regional e a participação no BRICS são duas dimensões da resposta destes países aos desafios colocados pela globalização, a comparação proposta contribuirá para uma reflexão sobre este fenômeno da perspectiva das singularidades históricas dos países referidos.
O ponto de partida da investigação é a constatação de que houve iniciativas de integração simultâneas nos anos recentes, com características comparáveis. Entre 2000 e 2001, observa-se o surgimento da Iniciativa de Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), sob a liderança brasileira, na América do Sul e a South Asia Subregional Economic Cooperation (SASEC), protagonizada pela Índia. Na sua origem, ambas iniciativas estão vinculadas às instituições financeiras internacionais: o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que desenhou a proposta inicial da IIRSA; e o Asian Development Bank, que secretaria a SASEC até os dias de hoje. Entre estas situações, é possível constatar similaridades formais, como os onze corredores multi-modais internacionais da SASEC, que parecem uma versão mais modesta dos dez eixos de integração e desenvolvimento que compõem a IIRSA.
Em ambos casos, as iniciativas no campo da infra-estrutura se relacionam a organizações políticas regionais, embora de forma distinta. Originalmente associada à malograda Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), a IIRSA foi incorporada ao Conselho de Infraestrutura e Planejamento (COSIPLAN) no ano seguinte à criação da União das Nações Sul-Americanas (UNASUL), em 2008. No sub-continente asiático, a SASEC abriga os países membros da South Asian Association for Regional Cooperation (SAARC), exceto Paquistão e Afeganistão. A exclusão do rival nuclear e de seu vizinho, deixa a Índia em uma posição de liderança em uma organização que conta ainda com Bangladesh, Butão, Maldivas, Sri Lanka e Nepal. Estes mesmos países integram a Bay of Bengal Initiative for Multi-Sectoral Technical and Economic Cooperation (BIMSTEC), além de Myanmar e Tailândia. Aos olhos do ADB, a iniciativa é vista como a chave para promover a conexão mercantil da Ásia, vinculando o subcontinente asiático em torno da Índia, ao sudeste asiático e às ilhas do Pacífico por um lado, e à China por outro (ADB: 2016).
Ao examinar estas iniciativas simultâneas de integração da infraestrura regional, constata-se que a IIRSA prevê conectar a costa atlântica ao portos do Pacífico, superando a Amazônia e a cordilheira dos Andes como obstáculos naturais à integração do Brasil com o sub-continente; e a SASEC objetiva combinar a política de "olhar para o ocidente" da Tailândia e os países da ASEAN, com a política de "olhar para o oriente" praticada pela Índia e o sul-asiático (BONU: 2012; DATTA: 2017). Em cada uma destas situações, os países examinados na pesquisa ocupam um lugar central.
Na esfera da integração econômica, é relevante recordar que os países da SAARC constituíram em 2004 a South Asian Free Trade Area (SAFTA), enquanto na América do Sul, a ALCA foi rejeitada na IV Cúpula das Américas em Mar del Plata em 2005, mas o Mercosul subsistiu como espaço de integração comercial.
Nesta perspectiva, as questões que motivam a análise são:
Quais as estratégias regionais delineadas por Brasil e Índia no contexto da globalização?
Quais paralelos e contrastes podem ser observados entre estas estratégias no século XXI?
Quais comparações podem ser compreendidas entre iniciativas de integração como IIRSA e SASEC?
Qual o papel de instituições financeiras multilaterais como o BID, o ADB em seus contextos regionais?
Qual o lugar do entorno regional na internacionalização de empresas destes países?
Qual a relação dos respectivos Estados Nacionais com estes processos?
Tomadas no seu conjunto, estas questões iluminam as práticas sociais e políticas das burguesias locais, as particularidades do regime neoliberal e as estratégias de acumulação nacional e regional em cada país, constituindo um ângulo privilegiado para analisar, por meio do exame de casos concretos, os caminhos diversos da globalização, e as motivações para o engajamento no BRICS neste contexto.