O objeto deste trabalho é a análise da originalidade das reflexões de Manoel Bomfim (1868-1932) e Celso Furtado (1920-2004) para pensar o Brasil e a América Latina. Os objetivos são: i) apresentar a originalidade de cada um dos autores nas suas reflexões sobre o Brasil e América Latina; ii) mostrar que a reflexão desses teóricos faz parte de um pensamento fundador brasileiro e latino-americano, autóctone e original. Hipótese de trabalho: esses teóricos fazem parte do grupo de pensadores brasileiros que fundam um pensamento original, autóctone no Brasil e na América Latina.
Ao observarmos a extensa obra de Manoel Bomfim, destacamos os livros dedicados a uma interpretação (ensaística) inédita do Brasil e América Latina, de caráter político-social e histórico. Dentre eles: A América Latina: Males de Origem (escrito em 1903 e publicado em 1905). Neste livro, segundo Botelho (2009: 120), ele enfrenta a teoria do racismo científico e esboça reflexões sobre educação, racismo e a construção da nação Brasil que irá complementar na trilogia O Brasil na América: Caracterização da Formação Brasileira (escrito em 1925 e publicado em 1929), O Brasil na História: Deturpação das Tradições, Degradação Política (escrito em 1926 e editado em 1930), e, O Brasil Nação: Realidade da Soberania Brasileira (escrito em 1928, com posfácio de agosto de 1931, ano da publicação). Bomfim coloca-se entre os pioneiros da crítica ao racismo científico que, baseado no determinismo biológico como modelo explicativo da sociedade, dividia a humanidade em raças superiores e inferiores, civilizados ou bárbaros. Para ele, os problemas do atraso e da desqualificação não podiam estar embasados na raça; outrossim, deveriam ser diagnosticados no parasitismo social do qual eram vítimas e da dominação externa (colonizadores) e interna (elites) a que estavam submetidos estes povos (da América Latina, em geral, e de modo específico, o Brasil). Intentava ver tais dilemas superados pela educação. Esta posição crítica, quase ácida ao posicionamento político-filosófico de seus contemporâneos rendeu a Bomfim a pecha de utópico. Outro aspecto do pensamento de Bomfim que podemos destacar é a sua defesa do desenvolvimento industrial como a melhor forma de superar a dependência (podendo nisso ser considerado um precursor do desenvolvimentismo), pois via as economias essencialmente agrícolas como sinônimas de economias colonizadas (nesse aspecto pode ser visto como um precursor de Caio Prado Júnior). E a busca da superação da dependência passava também por não aceitar o imperialismo. No poderio norte americano, via uma ameaça à soberania dos países latino-americanos. Em seu último livro – O Brasil Nação (1931), Bomfim já não acreditava na transformação social somente pela educação popular: para ele a transformação da sociedade viria também por uma revolução socialista.
Dentro dessa linha de Bomfim de diagnosticar o atraso brasileiro e latino-americano e propor soluções para superá-lo, podemos observar a reflexão original de Celso Furtado, tanto no período em que atuou na CEPAL (1949-1957) quanto no período em que esteve à frente da SUDENE (1959-1964). No período cepalino destacamos as obras A Economia Brasileira (1954) e Perspectivas da Economia Brasileira (1958). Em A Economia Brasileira (1954), é patente a preocupação em entender a economia brasileira no período em que é escrito o livro através do uso instrumental da história para compreender as características peculiares de uma economia subdesenvolvida como a brasileira. Esse livro se constitui na reunião das reflexões de Furtado em três frentes que ele trabalhava no período: i) teoria do desenvolvimento: gênese histórica e mecanismos de acumulação; ii) perspectiva histórica e problemas atuais da economia brasileira; iii) crítica das ideias sobre desenvolvimento econômico. Cabe destacar nesse livro a sua preocupação em mostrar que o sucesso da colonização no Brasil e o fracasso nos EUA se constituíram em raízes da situação de subdesenvolvimento que obstaculiza a construção da nação, mas também afirma o Brasil em suas potencialidades, dadas as semelhanças de recursos naturais e de tamanho de território entre esses dois países. Perspectivas da Economia Brasileira (1958) trata de três temáticas: i) equacionamento do problema do desenvolvimento da economia brasileira na etapa vivida na década de 1950 (industrialização planejada a partir de 1956); ii) análise de suas tendências fundamentais; iii) tentativa de determinar os principais fatores que poderiam reduzir o ritmo desse desenvolvimento nos anos que se seguiriam. Após sua saída da CEPAL em 1958, Furtado passa um período na Universidade de Cambridge, local em que pesquisa e escreve o livro Formação Econômica do Brasil – FEB (cuja primeira edição foi publicada em 1959), cuja análise está centrada na evolução econômica do Brasil com a utilização do modelo keynesiano. Tal livro também se constitui numa ampliação da sua tese de doutorado de 1948 e do seu livro de 1954. Um outro ponto importante em FEB se encontra no fato de que a preocupação com as disparidades regionais se torna cada vez mais realçada nas reflexões de Furtado, apesar dos avanços na industrialização. Ele defende a necessidade de políticas de desenvolvimento que almejassem o fim de tal situação, para que a nação continuasse seu processo de formação e construção. Ao mesmo tempo em que elaborava o diagnóstico do subdesenvolvimento brasileiro para compreender tal obstáculo para a construção da nação, Furtado propunha a solução para a superação de tal situação através do planejamento democrático estatal, para promover o desenvolvimento econômico, tomando parte de um debate intenso no Brasil e no mundo sobre o planejamento e a industrialização para a superação do subdesenvolvimento. Podemos afirmar que no período em que Furtado participa da CEPAL, ocorre a predominância do técnico sobre o político, na visão do planejamento como elemento de superação do subdesenvolvimento e construção da nação. No período em que atuou na SUDENE (1959-1964), Furtado atua pelo desenvolvimento do Nordeste como uma forma de diminuir as disparidades regionais no Brasil, tendo enfrentado muitas dificuldades para levar à frente seus projetos devido à forte oposição da direita e dos EUA. Além dessa atuação, ele continua sua reflexão sobre o desenvolvimento e o subdesenvolvimento, destacando-se os seguintes livros: A Pré-Revolução Brasileira (1962) e Dialética do Desenvolvimento (1964). A Pré-Revolução Brasileira (1962) se constitui numa compilação de estudos, cuja preocupação é, segundo Furtado, esclarecer à juventude universitária brasileira sobre as grandes transformações pelas quais o Brasil passava naquele momento. Destacamos do livro uma primeira crítica ao modelo de desenvolvimento econômico adotado pelo país e que ele defendia: não houve modificação nas condições de vida de 75% da população brasileira, muito pelo contrário, houve uma crescente concentração social e geográfica de renda, além de ter levado a um aumento relativo da renda da terra. No plano político-administrativo, a ampliação e a diversificação das funções do Estado não foi acompanhada das necessárias reformas de base do próprio Estado, o que colaborou para o enorme aumento do coeficiente de desperdício na ação administrativa pública. Dessa análise, podemos observar que o diagnóstico de Furtado acerca do desenvolvimento é dinâmico, significando para ele que durante a ação para superá-lo é possível reavaliá-la, reiterando sua defesa do planejamento democrático para o desenvolvimento econômico, dentro de sua defesa da socialdemocracia. No livro Dialética do desenvolvimento (1964) destacamos o fato de que o autor observa os fatores dinâmicos da economia brasileira se debilitarem devido à conformação das forças políticas no período (e que apoiariam o golpe de 1964), que impedem a superação dos obstáculos estruturais do subdesenvolvimento. Após o golpe de 1964, Furtado é cassado e parte para o exílio, onde continua suas reflexões sobre o subdesenvolvimento, mantendo sempre o caminho dinâmico do pensar esse fenômeno e as propostas de sua superação para que a construção da nação Brasil continue.
Portanto, a partir do que foi exposto nas linhas acima, podemos afirmar que Manoel Bomfim em suas principais obras, apresenta sua preocupação com a realidade nacional e latino-americana; a questão racial; a busca de uma concepção acerca do nacionalismo e a observação dos problemas da Latino-América – os conflitos entre seus países, o debate do socialismo e sua viabilidade, avançando para considerações políticas, econômicas e sociais que curiosamente, só encontrarão ênfase nas produções intelectuais de décadas depois. Estes fatos, somados, dão o tom da diferença e importância do pensamento bomfiniano neste período, e apontam para o que pensamos ser sua contribuição na formação de uma ciência social brasileira, autóctone, não importada nos seus vícios europeus ou norte-americanos, mas nascida da vivência social-histórica do autor, da realidade que matiza a sociedade de seu tempo. Salientada a importância do salto qualitativo de seu pensamento, nascido no seio do racismo científico, do cientificismo da época, para a crítica do mesmo e a proposição de novas reflexões na busca de soluções para os problemas da nação brasileira, e até da América Latina. Sobre Celso Furtado, é possível afirmar que, a partir de seu engajamento na CEPAL, ele faz um caminho original para diagnosticar o subdesenvolvimento brasileiro e propor alternativas à sua superação, elaborando uma reflexão que não faz um mero transplante das teorias originadas nos países centrais, mas sim adaptações à nossa realidade brasileira e latino-americana.
Por fim, podemos elencar como pontos em comum aos autores analisados a originalidade e a inovação dentro do contexto e do debate em que estão inseridos, além da crença na possibilidade de realizar a nação brasileira, comprovando nossa hipótese.