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Resumen de ponencia
Fenomenologia da percepção e Standpoint theory – uma proposta metodológica para a análise das experiências de adolescentes do sexo feminino com atos infracionais.

*Polliana Esmeralda Gonçalves Machado



O presente trabalho propõe refletir sobre as categorias de perspectiva e de experiência, partindo de discussões teórico-metodológicas do ponto de vista feminista e da fenomenológica como possíveis bases para a análise de experiências de adolescentes do sexo feminino na prática de atos infracionais e na experiência de cumprimento de medida socioeducativa de internação.
Segundo Vera Duarte (2015) as teorias sobre os comportamentos delinquentes femininos podem ser divididas: i. no uso teórico de teorias desenvolvidas para a delinquência masculina e “adaptadas” para as meninas; ii. no retrato de uma delinquência feminina reduzida à problemas de socialização do feminino, classificando as adolescentes que cometem atos infracionais ou como vítimas absolutas, ou como portadoras uma agressividade “anormal”, individual, devido uma ausência moral.
A adolescente que comete infrações é apresentada como mera agressora ou mera vítima, impossibilitando pensar nestas meninas como indivíduos, que possuem diferentes vivências e que de alguma forma estão ligadas à sua condição de gênero. Existe aqui uma necessidade de formular novas teorias e análises que consigam explorar o comportamento infracional feminino, elucidando a visão da própria adolescente, para entender os eixos estruturantes de sua ação partindo de uma narrativa da própria.
A teoria da perspectiva feminista seria apropriada para estabelecer diálogo com essas adolescentes considerando-as portadoras de conhecimento sobre suas próprias vivências. Esta possibilidade só é possível através das críticas teóricas feministas à princípios da ciência social positivista, que encaram os fenômenos sociais como coisas, que estão ali para serem analisadas de fora, como relações de causa e efeito, e muitas vezes reproduzem estereótipos baseados em estruturas, sem questionar as relações de poder envolvidas nas ações e como os atores se relacionam com sua realidade social, indo além de simples comportamentos engessados.
O ponto de vista feminista têm seu desenvolvimento na década de 1980 e abrange três princípios básicos: enfatizar a diferença empírica entre homens e mulheres dentro da sociedade patriarcal; reavaliar a desvalorização de qualidades culturalmente construídas como femininas; e propor mudanças internas na produção cientifica – teorias, metodologias, currículos, laboratórios, programas de pesquisa, etc. – para abarcar mulheres como investigadoras e investigadas nas pesquisas cientificas considerando seu ponto de vista.
A perspectiva feminina – assim como diversas outras ontologias não hegemônicas – não foi considerada como parte da ciência, colocando as formas de ver o mundo e experiências femininas em posições subordinadas, excluindo-as da construção do conhecimento. Nesse aspecto é que o feminismo da diferença ou da perspectiva feminista propõe uma dimensão dialética entre indivíduo e sociedade para entender as diferentes formas de construir a realidade social, voltando-se para as das mulheres como ponto de partida para compreender como o poder atua para perpetuar desigualdades e padrões de dominação dentro do campo de construção de conhecimento.
A noção de conhecimento situado elucida que qualquer indivíduo carrega em si uma carga de conhecimento e vivência prévia a qual não pode simplesmente se despir. Entretanto, essa carga pode influenciar mais ou menos – sempre irá influenciar – no campo de pesquisa social e na interação com os interlocutores, e isso vai depender de um reconhecimento e um posicionamento crítico do próprio autor sobre sua realidade e sua interação com o outro. É a inserção de uma perspectiva feminista de empatia com relação ao investigado e posicionamento de si no campo que tem a capacidade de revolucionar a forma de se fazer pesquisa social.
A teoria feminista supracitada considera a perspectiva feminina como fonte de conhecimento e pode-se estabelecer um diálogo com a filosofia fenomenológica em sua proposta crítica às concepções de universalidade, neutralidade e racionalidade – características consideradas hierarquicamente superiores em sociedades patriarcais, que serviram como base para as ciências sociais por um longo período da história, ditada por homens, brancos, europeus e de classes altas. Considerar a experiência do indivíduo, seu lugar no mundo e sua atuação na construção do conhecimento vem para questionar essa suposta neutralidade da ciência como um todo.
Na abordagem fenomenológica o indivíduo se relaciona com o mundo dando a ele significado, ao mesmo tempo que o mundo constrói sentidos para o indivíduo, é um processo de mão dupla, dialético, onde o mundo e o indivíduo não podem existir de forma independente, a realidade é construída socialmente (BERGER & LUCKMANN, 1985). Enquanto método empírico, a fenomenologia busca as “essências” dos fenômenos sociais, experiências de vida, perspectivas e intepretações dos indivíduos como fonte de informações.
A proposta de diálogo entre a fenomenologia e a teoria da perspectiva feminista como base de análise sustenta-se no entendimento dessas duas abordagens sobre a experiência como um processo amplo e complexo, que consegue destacar as correspondências entre estruturas sociais, valores, reação social, com sentido das ações, expectativas, perspectivas intersubjetivas de determinadas vivências. Quando a fenomenologia da percepção apresenta o mundo da vida, o cotidiano como fonte de conhecimento, ela possibilita a abertura para novas formas de interpretar os fenômenos sociais e aliado com teorias feministas amplia o conhecimento sobre as relações de dominação-opressão que as mulheres vivenciam e as formas com que essas são capazes de questionar o reestruturar as relações de gênero.
Utilizando a fenomenologia da percepção, é possível pensar perspectiva e experiencia como duas categorias uteis para pensar a relação dialética entre estrutura e indivíduo, em que o corpo está no mundo não apenas como um receptáculo de termos objetivos, mas também como um corpo ativo que dentro de um mundo concreto consegue se posicionar intersubjetivamente, podendo mesmo modificar seus padrões.
Tanto a fenomenológia quanto o ponto de vista feminista propõe o questionamento de abordagens positivistas sobre a construção do conhecimento, reconhecendo outras epistemologias possíveis. São propostas que tornam possível a dissolução de dicotomias na relação entre investigador e investigado, propondo uma ciência social mais empática, que permita um diálogo entre esses dois personagens na construção do conhecimento. Essa associação pode ser frutífera na análise de diversas experiências de mulheres e de suas perspectivas, mas no caso do diálogo com adolescentes autoras de atos infracionais se mostra como uma proposta capaz de avançar no apagamento das adolescentes como capazes de perceber e interpretar as próprias experiências.




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* Gonçalves Machado
Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Departamento de Sociologia da UnB. Universidade de Brasilia - PGSOL/UnB. Brasilia/ DF, Brasil