O presente trabalho visa reconstruir e analisar o conceito de cultura escolar, a partir da pesquisa sobre o processo de escolarização existente no Centro Educacional Marista Lúcia Mayvorne, em Florianópolis, cotejando tal conceito com as proposições teóricas do sociólogo Pierre Bourdieu, afim de superar as concepções de cultura escolar enquanto análises objetivistas ou, ainda, fenomenológicas. Para isto, será desenvolvido tal conceito, a partir da ideia de habitus de classe, observado ao longo das entrevistas realizadas pelo presente pesquisador.
Palavras-chave: cultura escolar; habitus; escolarização; violência simbólica.
Introdução
O sociólogo francês Pierre Bourdieu, ao longo de sua obra, sobretudo no que diz respeito aos cuidados metodológicos e epistemológicos da pesquisa, sempre elucidou a importância das abstrações conceituais, enquanto ferramentas para pensar a realidade. Porém, além disto, o autor sempre atentou para os frequentes problemas que o emprego de conceitos trazia às pesquisas. Pois, enquanto abstrações, corriqueiramente, estes conceitos acabam por ter um fim em si mesmo, estranhando, então, as relações existentes e, até mesmo, formadoras do conceito.
Tal problema é usual no que diz respeito à Sociologia da Educação e, sobretudo, no emprego do conceito de Cultura Escolar, ao qual o presente trabalho pretende ater-se. Isto é, tal conceito surge em alguns casos como um conjunto de normas e práticas próprias à instituição escolar, ou seja, cultura escolar enquanto “normas que definem conhecimentos a ensinar e condutas a inculcar, e práticas que permitem a transmissão desses conhecimentos e a incorporação destes comportamentos” (JULIA, D. 2001). Esta ideia é importante, fundamentalmente, em duas situações, sendo a primeira quando o pesquisador depara-se com uma ampla gama de variáveis e, o conceito em questão, apresenta-se como fator explicativo de um dos processos que ocorre no interior da escola, oportunizando que o pesquisador dedique-se a questões dadas como mais importantes. Outra situação é quando o objeto de estudo são as relações internas da escola, isto é, por exemplo, numa análise que visa apreender as formas pedagógicas da construção e ou transmissão de conhecimento em determinada instituição escolar, o pesquisador pode encontrar e classificar as normas e práticas particulares àquela escola, explicitando decorrentes destas características.
Deste modo, estas duas formas de apreensão e uso do conceito de cultura escolar podem ser problematizadas pelo viés epistemológico. Assim sendo, no primeiro caso, o pesquisador tende a considerar as normas e práticas como um conjunto dado, de certa forma parte da estrutura escolar. No segundo caso, o pesquisador que visa debruçar-se com maior empenho na composição destas normas e práticas, irá recair numa análise fenomenológica, de como a cultura escolar é construída ou vivenciada em tal espaço. Ambas as formas de apreensão recaem em extremos, ou por demasiado objetivismo ou subjetivismo, aparente dicotomia a qual Bourdieu visa superar, conforme o seguimento da presente dissertação.
Metodologia
Portanto, a partir da análise empírica do processo de escolarização do Centro Educacional Marista Lúcia Mayvorne, em Florianópolis-SC, buscar-se-á analisar com profundidade o conceito de cultura escolar, afim de desconstrui-lo, explicitando as complexas relações que o compõe a partir da teoria de habitus e campo. Tal movimento, dar-se-á em três etapas: pesquisa bibliográfica do conceito de cultura escolar e do referencial teórico, análise dos dados (entrevistas semiestruturadas e demais levantamentos bibliográficos) presentes no Trabalho de Conclusão de Curso de quem vos escreve e, finalmente, análise dos conceitos utilizados, sobretudo a reconstrução da cultura escolar enquanto habitus de classe, referenciada e observada no levantamento empírico.
Contudo, é de grande importância indicar que tal problemática teve concepção a partir de uma análise epistemológica. Isto é, seguindo os cuidados propostos pelo próprio Bourdieu, trata-se de olhar sociologicamente para um problema e, então, transforma-lo dentro do arcabouço teórico na problemática sociológica, que caracteriza-se na projeção de desnaturalizar um processo ao levar em conta as tensões existentes em seu interior e na relação dele com a exterioridade, bem como o a projeção a ação do indivíduo dentro do campo de possibilidades.
Questões de Pesquisa
Pierre Bourdieu, ao longo de sua obra, utilizou-se dos conceitos de habitus e campos, compreendendo sua proposta de superação da dicotomia entre indivíduo e sociedade. Sendo que o conceito de habitus, o qual será fundamental neste trabalho, é entendido como uma disposição de determinadas práticas de algum grupo ou classe, ou seja, sobretudo, as ações comuns ao espaço que são interiorizadas pelos indivíduos. Além disto, o habitus é, sobretudo, de classe. Isto é, o habitus é a interiorização da exterioridade e exteriorização da interioridade. Com isso, o compreendemos como um princípio gerador e, fundamentalmente, diferenciador de práticas.
É justamente neste ponto, na concepção de habitus enquanto um princípio fundador e diferenciador de práticas, baseado na relação do indivíduo com o meio, é que poderemos compreender o conceito de cultura escolar. Isto é, já vimos a compreensão deste último conceito como normas e práticas que possibilitam a transmissão de conhecimentos e comportamentos. Mas, afinal, quais são estes conhecimentos e comportamentos? A resposta para isto é o habitus de classe dominante. Ou seja, a escola não gera simplesmente práticas próprias daquele espaço, mas faz uso de práticas existentes no mundo social e, principalmente, valoriza não apenas as práticas e normas que lhe são convenientes, mas valoriza aquelas as quais são tidas como modelos, aquelas as quais o processo de escolarização que se conhece – sobretudo no nível de escola básica pública brasileira – fora construído sobre.
Considerações finais
Como será visto no decorrer de algumas entrevistas, é explicito que o processo de escolarização valoriza comportamentos que são típicos das classes dominantes, o que se dá por um processo histórico de dominação. Pois, qual escola pública não leva em conta o tal do “comportamento” (aquele conjunto de ações típicas do aluno quieto, atencioso, sobretudo de fala educada e não violenta, que tem contato com obras culturais, mas claro, a cultura europeia, ocidental, a qual, pelo arbitrário cultural se faz valorizada em detrimento das demais) como nota, fator de distinção entre alunos e, até mesmo, como critério para reprovação?
Referências bibliográficas
BOURDIEU, Pierre, & PASSERON, Jean-Claude. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Petrópolis-RJ. Vozes, 2008.
BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas sombólicas. São Paulo, Editora Perspectiva, 7ª edição, 2013.
______________. O poder simbólico. Tradução Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
______________. Meditações pascalianas. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2001.
JULIA, Dominique. A cultura escolar como objeto historiográfico. Revista Brasileira de História da Educação, São Paulo, nº1, 2001.