Este trabalho traz uma reflexão, de inspiração autoetnográfica, a respeito de mudanças no processo de trabalho que vêm ocorrendo em uma unidade de transporte de derivados de petróleo pertencente a uma grande empresa pretoleira no Brasil, localizada no Rio de Janeiro. Esta reflexão parte de minha inserção como membro do proletariado, trabalhador técnico em automação, com formação de nível médio, tendo ingressado por concurso público na empresa em 2012. Atualmente, sou também estudante de graduação do curso de administração pública em uma universidade federal, que teve ampliação ao longo do governo Lula. As observações a seguir apontam para o aprofundamento dos processos de precarização do trabalho que vêm ocorrendo desde o golpe de estado que aconteceu no Brasil em 2016. Esta análise aponta que se, por um lado, a produção de narrativas sobre esta empresa teve um local central na construção financeiro-midiática que culminou com o recente golpe de estado, por outro lado mostra como a racionalidade neoliberal imprime entraves à organização dos trabalhadores, aprofundando diferenças ideológicas e identitárias entre eles.
A divisão do trabalho da área finalística na empresa opera a partir da distinção de funções: técnicos de manutenção e técnicos de operação, ambos com escolarização de nível médio; e engenheiros, que têm formação de nível superior. Tratando-se da unidade em questão (um terminal de escoamento da produção de derivados de petróleo), aos técnicos de manutenção cabe manter a funcionalidade das máquinas e equipamentos disponíveis para atividade. Os técnicos em operação são responsáveis por operar os equipamentos que são centrais nos processos de produção e transporte de petróleo. Os engenheiros conduzem a gestão de todo o processo de manutenção e operação. Há aqui uma primeira singularidade na divisão social do trabalho neste contexto: aos engenheiros tem sido atribuída a administração dos processos, no lugar da criação de soluções de problemas técnicos, dado o modelo de formação da engenharia no Brasil (JACINSKI; LINSINGEN, 2011).
Seguindo essa divisão social do trabalho, há grandes diferenças salariais. Os valores mensais a seguir foram equivalidos a dólares americanos (U$) no período de abril de 2018 e são descritos já descontados os impostos. Os engenheiros ganham, em média, no início de carreira, U$2100, podendo chegar, ao longo do sistema de promoções, em média a cerca de U$3500. Quanto mais alto o cargo de gestão, maior o salário, que pode chegar a U$6500 por mês. A diferença é grande para os trabalhadores de nível médio. Porém, entre esses últimos, há ainda maior desigualdade, que é ordenada pela aderência à garantia de manutenção de funcionamento do parque industrial. Isso quer dizer que, enquanto técnicos em manutenção recebem em média U$1000 mensais no início de carreira, os técnicos em operação ganham o dobro (U$2000). Cabe ressaltar que todas as funções têm a mesma carga horária semanal, porém com distinções no regime de plantões, adicionais noturnos, etc. Há técnicos de operação que chegam a receber U$3400. Todos os trabalhadores que são considerados “próprios”, ou seja, contratados via concurso público, têm esse perfil salarial e ainda recebem adicionais ao salário, como plano de saúde, auxílio educação para os filhos, transporte até o local de trabalho provido pela empresa e ainda têm acesso a um plano de previdência social complementar.
No entanto, cabe destacar que, para além das desigualdades existentes entre os trabalhadores “próprios”, ocorre o aprofundamento das disparidades, quando observamos a situação dos trabalhadores terceirizados. Na unidade em análise, ocorre terceirização da força de trabalho de técnicos de manutenção e engenheiros. Um técnico em manutenção terceirizado recebia até o início de 2018, U$1200; após a contrarreforma das leis trabalhistas viabilizada pelo golpe de estado, isso caiu para U$630 por mês. Um engenheiro terceirizado recebia U$2800 e hoje recebe U$1700. Os terceirizados não recebem complementações salariais, tais como transporte até o trabalho, previdência privada, ou auxílio-educação para os filhos. Quanto ao plano de saúde, este adicional existia antes da contrarreforma para terceirizados, mas a cobertura do plano já era menor que a dos “próprios”. Após a contrarreforma trabalhista, a cobertura do plano de saúde ficou ainda mais restrita. Cabe mencionar que a função dos técnicos de operação de máquinas e equipamentos não foi terceirizada pela empresa.
As relações entre os trabalhadores operam segundo uma lógica de controle de uns sobre os outros, escamoteado sob práticas gerencialistas. O estabelecimento e a persecução de metas toma lugar tanto da análise global e crítica sobre o processo de trabalho, quanto do próprio trabalho de manutenção, levando à fragmentação das práticas. Pior, tornando a persecução das metas um fim em si mesmo. A cisão entre trabalhadores “próprios” e terceirizados, mesmo aqueles que participam da mesma função (como os técnicos em manutenção) propicia o surgimento de hierarquias tácitas: os “próprios” muitas vezes assumem o papel de controle do processo de trabalho dos terceirizados, levando a tensionamentos nas relações entre trabalhadores. Com a criação de “castas de poder” entre trabalhadores de mesma função, sob a assunção de funções gerenciais dos “próprios” controlando o trabalho dos terceirizados, as diferenças salariais ganham tons de distinções sociais, dificultando a ideia de “unidade” dos trabalhadores.
Outro exemplo de prática gerencialista é a aplicação de modelos estatísticos ao modo de operação e predição dos processos de trabalho da área de manutenção. O modelo de “manutenção baseada na confiabilidade”, criado a partir da experiência da indústria automobilística, estabelece a otimização da manutenção na medida em que cria formas de predição e estimativas de manutenção que muitas vezes são inadequadas à realidade do parque industrial em questão. A ideia de otimização carrega consigo o enxugamento dos quadros e o desemprego estrutural, chancelado por um conhecimento reconhecido como científico e que independe do grau de automação de processos. Em outras palavras, a justificativa de demissões e precarização do trabalho está embasada não apenas no argumento de ampliação da automação do parque industrial, mas sim na aplicação desse tipo de modelo gerencial-estatístico. No caso analisado, muitas vezes os atores envolvidos na gestão utilizam essas ferramentas não propriamente para a melhoria da manutenção e produção, mas a usam com o sentido retórico de ancorar a diminuição imediata de custos.
O uso desse ferramental gerencialista inclui argumentos de minimização de gastos articulados com a valorização do “mérito” de cada trabalhador empenhado em atingir as metas propostas. Isso tem se tornado mais frequente no cotidiano da empresa, tendo se fortalecido concomitantemente às contrarreformas. Esta lógica implica que cada trabalhador “próprio” se reconheça como um gerente de si e dos outros. Pode-se defender que aqui opera uma ideologia gestionária, aos moldes do que Vincent de Gaulejac (2007) aponta, colonizando as subjetividades e imprimindo entre os trabalhadores distinções de status social. Muitos dos trabalhadores que ocupam cargos de gerência não se veem como membros da classe trabalhadora. A ideia de “sucesso” e “fracasso” é imputada a cada indivíduo. Há de se ressaltar, ainda, que as grandes diferenças salariais contribuem para essa situação.
Práticas gerencialistas e suas implicações para a fragmentação dos processos de trabalho e de produção de subjetividades são apontadas por Dardot e Laval (2016) como dimensões da racionalidade neoliberal. Este é também um grande desafio para a atuação das representações de trabalhadores, sobretudo aquelas organizadas em associações ou sindicatos. A ideia de unidade da classe trabalhadora, evocada pelas representações, pode não fazer sentido diante de tantos mecanismos de distinção de status. Por outro lado, vê-se que algumas entidades sindicais tendem a se aproximar mais dos trabalhadores que têm o poder de interromper o funcionamento das máquinas. Apesar de ser uma atuação legítima, isto, frente a uma situação de tensionamento das relações já existente, tende a aprofundar mais ainda essas diferenças entre os trabalhadores da área finalística. Fazer revelar e enfrentar as repercussões da racionalidade neoliberal e seu caráter gerencialista pode ser um caminho potente para os movimentos dos trabalhadores envolvidos nesta análise.
Referências:
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo. Ensaio sobre a sociedade neoliberal. Editora Boitempo, 2016.
GAULEJAC, Vincent de. Gestão como doença social: ideologia, poder gerencialista e fragmentação social. Editora Ideias & Letras, 2007.
JACINSKI, Edson; LINSINGEN, Irlan von. Uma análise crítica das pesquisas sobre as relações entre aspectos técnicos e sociais da formação de engenheiros. XXXIX Congresso Brasileiro de Educação em Engenharia. 2011. Disponível em: Acesso em 07 abr 2018.