Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
Questões ambientais e participação social: da indiferença à racionalidade ambiental

*Rafael Braz



Introdução: Esta pesquisa propõe analisar quais são os atores, grupos, instituições e debates que existem no município de Pelotas, no estado do Rio Grande do Sul, região sul do Brasil, e que estejam relacionados com a temática socioambiental. Mais especificamente, pretende-se verificar como estes diferentes agrupamentos do espaço social interagem com o Estado e com as políticas públicas ambientais. Neste sentido, será de fundamental importância observar como atores e agências contribuem ou impedem – participando e contestando – a formulação de políticas públicas ambientais locais considerando duas dimensões: a internalização de um saber ambiental e a constituição de uma governança ambiental efetiva nas múltiplas interações entre sociedade e ambiente.

Objetivo: encontrar e definir os diferentes atores, grupos, movimentos e instituições que se relacionam com a temática socioambiental, considerando seus interesses particulares, as ações sociais, os conflitos e atividades de cooperação. Com isto pretende-se apreender como se constitui o cenário socioambiental local e como se organizam tais interelações no espaço social. Além disso, e fundamentalmente, verificar a teoria de Enrique Leff sobre a racionalidade ambiental, tentando localizá-la na dimensão empírica, e definindo assim sua constituição e sua influência no campo das ações socioambientais.

Métodos: as relações entre grupos, instituições e o Estado podem ser analisadas a partir de sua complexidade e a partir de aspectos sociais, políticos, econômicos, ontológicos e ambientais considerando a relação sociedade/natureza em suas múltiplas facetas. Para tanto, pretende usar como método o procedimento de mapeamento das questões, debates e interesses sociais, juntamente com a distribuição dos diferentes atores e agências no espaço social de acordo com seus interesses e capitais. Este procedimento pressupõe, em seu primeiro passo, denominado mapeamento teórico, apreender e situar os saberes produzidos pelos diferentes atores envolvidos sobre o tema, gerando conhecimentos e localizando questões que não tenham sido reconhecidas. O segundo momento envolve a delimitação do mapa de campo, que permite localizar e organizar os dados para a pesquisa tendo como referência o espaço geográfico, a história, cultura e ideias presentes no campo de pesquisa. O mapa de análise, finalmente, permitirá a compreensão e interpretação dos dados de pesquisa do mapa de campo em diálogo com as representações e significações do mapa teórico. Após o mapeamento das principais questões, interesses, atores e instituições, questões teóricas e empíricas mais específicas poderão ser analisadas mediante a determinação da posição social, dos habitus e das representações sobre ambiente, sociedade e sustentabilidade a partir da criação de uma distribuição teórica dos elementos anteriores no espaço social de tomadas de posição. Para operacionalizar estes princípios metodológicos, optou-se pela aplicação de quatro técnicas específicas: pesquisa e análise documental; trabalho de campo e observação participante; entrevistas; levantamento e análise das representações sociais. Desta forma, as posições objetivas que estão ocupadas no espaço social, considerando-se a estrutura de distribuição de diferentes tipos de capitais, serão responsáveis pelas representações e perspectivas sobre este mesmo espaço; fundamental também considerar que estas localizações no espaço estarão na base das tomadas de posição nas lutas no interior do campo, seja para transformá-lo ou para manter o status quo.

Resultados preliminares: dentre os fenômenos observado inicialmente, pode-se deduzir que existe um extenso processo de descolamento entre a dimensão natural, ecológica ou ambiental do cotidiano, ou mundo da vida, do município ora investigado. Tal descolamento se manifesta através do desconhecimento e do desinteresse coletivo referente às questões socioambientais mais proeminentes, dentre elas: a frágil política de saneamento, ocupação desordenada da bacia de Pelotas, problemas na macrodrenagem, ocupação desordenada de matas e banhados, etc. A indiferença social se traduz na falta de ações coletivas, na desorganização e falta de fôlego dos poucos movimentos sociais que esporadicamente conseguem se organizar. E especialmente, na ausência do poder público em tratar das demandas socioambientais, seja pelas fragilidades de instrumentos como o plano diretor ou a inexistência do zoneamento ecológico e econômico.

Considerações: a internalização do saber ambiental enquanto habitus que se objetiva nas representações sociais e atitudes cotidianas sobre meio ambiente e sua interface com a vida social não encontra correspondência no contexto local analisado. A dimensão socioambiental não encontra significância nem correspondências nas práticas do mundo da vida. A dimensão ontológica, portanto, está descolada e distanciada da dimensão ambiental; elemento fortemente combatido por Enrique Leff para a efetivação de um saber ambiental. Para superação deste contexto, encontra-se na conscientização através do poder público, e na educação ambiental, ferramentas essenciais de mudança nas representações sociais sobre meio ambiente; ou para rearticular as práticas sociais e os processos biológicos.




......................

* Braz
Universidade Federal de Pelotas - Instituto de Filosofia, Sociologia e Política - UFPEL-IFISP. Pelotas, Brasil