O passado constrói-se e alimenta-se de «cegueiras» e omissões que, ao longo dos anos, vão penetrando na memória e no imaginário social colectivos. Interpretações maniqueístas da realidade que contribuem para que se perpetue uma análise das relações dos actores da história assente numa perigosa, incompleta e limitada dialéctica dicotómica. Pelo que foi silenciado, mas também pelo que se ocultou ao escolher o que contar, há dimensões fundamentais da Guerra Colonial / Guerras de Libertação africanas que permanecem como não existentes na memória e no imaginário social colectivos – ausências legitimadas tanto pelos países colonizadores como pelos colonizados. Se, por um lado, a narrativa nacionalista dos Movimentos de Libertação Africanos que eclodiram na década de 60 focaram-se na promoção da sua luta, omitindo a existência de negros a defender o regime colonial; por outro, a sua presença como parte integrante das tropas coloniais também não encaixava nas referências das nações colonizadoras, que tendiam a objectivar os negros nas categorias de ‘nativos’, ‘indígenas’ e ‘terroristas’ (Meneses & Martins, 2013).
Este contexto contribuiu para que a importância da participação dos Comandos Africanos nas Forças Armadas portuguesas durante a Guerra Colonial / Guerra de Libertação na Guiné (1963 – 1974) - à semelhança do que aconteceu em Angola e Moçambique – tenha sido diminuída, invisibilizada e empurrada para o campo do não-acontecimento como fruto de uma activa produção de não existências (Santos, 2002). Tanto o abandono a que Portugal dotou estes homens no final da guerra, como as perseguições e fuzilamentos a que foram sujeitos pelo PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo-Verde) depois da independência são temáticas que quase não se inscrevem na história produzida sobre esse período.
Pretendo apresentar uma recolha de micro-narrativas em vídeo (já recolhidas) sobre a experiência e os afectos vividos pelos Comandos Africanos, e as suas famílias, na Guerra Colonial / Guerra de Libertação e na descolonização da Guiné-Bissau para fazer emergir vozes que tendem a ficar fora da História, vozes que não se encaixam numa narrativa linear e não tiveram espaço nem nos projectos políticos das antigas nações colonizadoras, nem no dos novos países. Este trabalho surge no âmbito da minha tese de doutoramento que desenvolvo no Programa de Doutoramento em Pós-colonialismos e cidadania global promovido pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, em Portugal,
Até 1970, quando foi constituída a primeira Companhia de Comandos Africanos na Guiné, os negros ocupavam, em geral, lugares de menos destaque na hierarquia das Forças Armadas. Uma tendência que se viria a inverter nos últimos anos do conflito. Com a chegada de António de Spínola à Guiné como Governador-geral, em 1968, a africanização da guerra começou a sentir-se de uma forma efectiva (Coelho, 2002). Com ela, Spínola tentava resolver o problema da falta de pessoas na frente de batalha e reduzir o número de tropas vindas da metrópole e, consequentemente, a pressão internacional para que Portugal entregasse as suas colónias. A opção por recursos humanos locais tornava os contingentes mais adaptados ao terreno e ao clima e aumentava a capacidade de infiltração no movimento do PAIGC (Rodrigues, 2010, p. 113).
A Guiné foi a única colónia a ter três companhias de Comandos africanos integralmente compostas e dirigidas por tropas negras (Afonso & Gomes, 2000). Eram Tropas Especiais que integravam o exército regular, os homens mais bem treinados das Forças Armadas, escolhidos para liderar as missões mais exigentes, aqueles a quem as chefias do exército confiavam a vida. É preciso não esquecer que ser colonizado e fazer a guerra no seio da força militar colonial não era uma opção sem constrangimentos - o serviço militar era obrigatório em Portugal, não o cumprir significava, à partida, ser desertor. Autores como António Tomás (2008), Luís Nuno Rodrigues (2010) e Carlos Matos Gomes (2013) fazem referência a ‘privilégios’ concedidos, mas a que tipo de regalias se referem? A coação e a oferta de privilégios, tanto do lado das Forças Armadas como do PAIGC, foram teias complexas que ainda não foram explicadas em toda a sua amplitude, não sendo, por isso, algo que se possa resumir à aparente simples escolha entre lutar por um regime opressor e um movimento libertador; ou sequer à identificação político-ideológica com o regime colonial.
Os Comandos Africanos foram homens que deram o sangue debaixo da bandeira portuguesa. Foram homens que juraram defender Portugal. Homens que não tiveram espaço, nem tempo, para ser outra coisa que não portugueses
e que, aquando da independência da Guiné, são abandonados por Portugal e perseguidos pelo PAIGC que, durante a luta de libertação, tinha prometido liberdade para todos.
Assim, esta apresentação pretende debater o papel dos Comandos Africanos que integraram as Forças Armadas Portuguesas na Guiné durante a Guerra Colonial / Luta de Libertação Nacional e apresentar, recorrendo a vídeos com relatos na primeira pessoa as memórias dos próprios sobre a experiência vivida. Diversos autores (Cabral, 1954, 1979, Chabal, 1981a, 1983a, 1983b;Davidson, McCulloch, & Chabal, 1984; Dhada 1993; Forrest 2003; Green 2016b Hawthorne 2010 Mendy 1994) escreveram sobres os últimos anos da presença imperial portuguesa e o nascimento do Movimento de Libertação Nacional na Guiné-Bissau, mas é escassa a bibliografia que problematiza a importância destes homens no conflito. As suas vozes serão aqui apresentadas como contributos capazes de fazer emergir uma História alternativa, uma História para a qual as pequenas vozes do passado - que tendem a ser esquecidas - têm um contributo a dar. Serão apresentados os testemunhos de diversos comandos africanos a viver na Guiné-Bissau e discutido de que forma o apagamento da sua presença nos arquivos e o silenciamento das suas vozes impossibilitou a compreensão do seu papel no conflito.
Como recorda Hazel V. Carby, no prefácio de 2015 de Silencing the Past (Trouillot, 1995) aquilo que as narrativas históricas nos contam e omitem, aquilo que nos recordam ou nos fazem esquecer, são silêncios que revelam desigualdades de poder. Qualquer narrativa histórica, porque reflexo de uma opção política, nunca é total nem transparente, por isso, qualquer pessoa que dela suspeite pode questioná-la, expor as suas raízes, e fazer dessas novas descobertas outra história. Assim sendo, tentar-se-á perceber como tanto a história colonial, como a história nacionalista, promoveram a construção de meta-narrativas (Lyotard, 1984) fragmentárias que sobrevivem quase intactas até aos dias de hoje no imaginário colectivo; e compreender em que medida
os estudos Pós-Coloniais têm aberto espaço para o declínio da sua universalidade, espaço não só para outros questionamentos mas, sobretudo, para que outras vozes possam emergir.