Resumen de ponencia
Repensando o currículo a partir das ocupações de escolas
*Mário Augusto Correia San Segundo
*Ricardo Gonçalves Severo
Em maio de 2016, uma série de ocupações de escolas por seus estudantes foi iniciada no Estado do Rio Grande do Sul, no Brasil. Até o mês de julho, foram mais de 150 escolas ocupadas em todas as regiões do estado. Inicialmente as motivações giraram em torno do apoio aos professores, naquele momento em forte mobilização; pela retirada de projetos de leis entendidos como nocivos, em tramitação na Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul (ALERS); e, devido à falta de investimentos financeiros em educação por parte do governo do estado, o que impactou fortemente no cotidiano escolar, em virtude da precarização da estrutura de ensino como um todo. No presente artigo, analisa-se de que forma a ação e interpretação das ocupações por parte dos estudantes no que diz respeito à educação oferecida nas escolas pode nos ajudar a refletir sobre a temática do currículo escolar e o papel da escola na socialização política da juventude. Esta fase da vida é de fundamental importância, uma vez que nela se definem as diferentes formas de se portar socialmente das pessoas, nas suas relações e interpretações do espaço público, o que estabelece um habitus duradouro e que, via de regra, constitui-se nos processos de inter-relação social que iniciam-se na família e têm continuidade na escola, esferas centrais de socialização das crianças e jovens. Como fonte, foram utilizados os relatos transcritos de onze grupos de discussão realizados com estudantes que participaram de ocupações nas cidades de Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande, e sessenta e cinco questionários individuais com dados coletados após a realização dos grupos de discussão. Estas entrevistas foram realizadas para uma pesquisa maior registrada sob o título de “Interpretações Sociológicas sobre o Movimento de Ocupação nas Escolas do Rio Grande do Sul”, realizada pelo grupo de pesquisa “Dinâmicas Políticas, Estado e Movimentos Sociais”, composto por professores da FURG e IFRS. A pesquisa empregou os pressupostos do método documentário proposto por Wivian Weller e Nicolle Pfaff, que trata de buscar a construção de categorias de acordo com o grupo de referência. As entrevistas foram realizadas em grupos de discussão com estudantes que participaram das ocupações, orientados por três perguntas centrais: Como foi o processo de construção da ocupação na escola? Como era o cotidiano da ocupação? Como foi feita a decisão pelo término da ocupação? Durante o tempo de ocupações, os e as estudantes organizaram espaços de estudos em forma de oficinas, rodas de conversas, intervenções artísticas e, em alguns casos, até mesmo em aulas um pouco convencionais, como nos casos em que organizaram cursinhos preparatórios para o ENEM. Nesse processo, os e as ocupantes escolheram os conhecimentos e as temáticas que deveriam ser tratadas. No texto reflete-se a respeito de algumas questões: estariam eles construindo um currículo que lhes parecia ideal, embora limitados pelas circunstâncias? Em que estes conhecimentos se diferenciam daqueles oferecidos cotidianamente na escola? O artigo trará citações de parte dos relatos dos(as) estudantes entrevistados(as) e, a partir das mesmas, análise da temática proposta. Com base no diálogo com as ideias de autores como Michael Apple e Paulo Freire, o artigo chega a suas considerações finais abordando como os estudantes, ao tomarem o controle da escola e ao estabelecerem para ela um currículo diferente durante a ocupação, mesmo que não planejado ou sem coerência técnica, nos dão alguns indicativos sobre quais conhecimentos emergentes podem ser pensados na escola, como saberes “velhos e novos” podem ser trabalhados em formatos didáticos atualizados, como as oficinas por livre adesão, o que não é, de fato, novo, porém rompe com o cotidiano engessado das aulas obrigatórias. As ocupações nos dão alguns elementos para buscarmos mais contato com estes jovens, para construirmos novos conhecimentos e possibilidades de ensino. É possível pensar o currículo das ocupações e ver elementos que seriam bem vindos no cotidiano escolar. Elementos estes, que são apontados no decorrer de todo o texto e que nos levam a refletir sobre a necessidade permanente de estudo e reformulação curricular, na busca dos conhecimentos mais significativos a serem compartilhados e discutidos.