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Resumen de ponencia
Comunicar é disputar: uma análise sobre as redes do Coletivo Papo Reto.

*Fabíola De Cássia Freitas Neves



Entre o final do século XX e início do século XXI, a difusão do acesso à internet e, consequentemente, o aumento da velocidade de propagação da informação agregaram novos elementos aos estudos clássicos sobre os Movimentos Sociais dentro das Ciências Humanas. Autores como, por exemplo, Manuel Castells se propõem à analisar os modos como alguns dos Movimentos Sociais deste período histórico se utilizam de aparatos tecnológicos para desenvolver suas organizações internas e suas relações com outros movimentos sociais. Em outras palavras, as Tecnologias da Informação possibilitam a construção de relações sociais em redes, onde indivíduos ou um conjunto de indivíduos se associam entre si por possuírem objetivos em comum. Foi neste contexto que um grupo de jovens moradores do Complexo do Alemão, bairro da cidade do Rio de Janeiro, criou o Coletivo Papo Reto.
O Coletivo Papo Reto é um coletivo de mídia independente formado por oito jovens moradores do Complexo do Alemão que atua tanto em Redes Sociais (Facebook, Twitter, Whatsapp) quanto nas ruas, dentro e o fora do Alemão. Segundo Thainã de Medeiros (cofundador e membro do Coletivo Papo Reto) estas duas formas de atuação tem como objetivo a disputa de discurso e a garantia dos Direitos Humanos. Enquanto movimento social, o Papo Reto dissemina um discurso sobre o Complexo do Alemão que contrapõe à mídia hegemônica afim de que romper com os estereótipos sobre os moradores deste bairro e ainda se envolve diretamente em disputas políticas quando, por exemplo, questiona políticas públicas de segurança que para os mesmos não são eficazes. Em outras palavras, o Coletivo possui “uma dupla e indispensável existência que os articula tanto aos processos de construção do tecido social quanto, simultaneamente, ao campo dos conflitos políticos” (RIBEIRO, 1991, p.101, 1§).
No entanto, o presente artigo procura analisar o modo como o Papo Reto se relaciona com os moradores do Alemão e com os outros atores sociais externos à favela, partindo do pressuposto de que o Coletivo cria, sustenta e se insere em redes. As organizações sociais em rede “constituem uma nova forma de constituição do NÓS e da sua ação e têm por pressuposto a ação coletiva e direta dos seus membros” (EGLER, 2017, p.6), de modo à aproximar atores sociais com objetivos correlacionados potencializando suas forças em prol de uma causa única, ainda que esta seja um somatório ou uma adaptação das causas individuais.
“Em nossa sociedade, que conceptualizei como uma sociedade em rede, o poder é multidimensional e se organiza em torno de redes programadas em cada domínio da atividade humana, de acordo com os interesses e valores de atores habilitados” (CASTELLS, 2012, p.10;2§) e tais redes de poder se utilizam da comunicação para moldar mentalidades sob as quais suas ações serão legitimadas. Portanto, atuando no cerne que legitima a manutenção do poder da sociedade contemporânea, o Coletivo Papo Reto juntamente com outros atores sociais “subvertem a prática da comunicação tal como usualmente se dá, ocupando o veículo, criando a mensagem [...] Lutam contra os poderes constituídos identificando as redes que os constituem” (IDEM, 2012, p.11;4§).
Desta forma, se o Papo Reto possui parceiras com outras instituições localizadas no complexo do Alemão, Organizações Não Governamentais internacionais, Movimentos Sociais da periferia da região metropolitana de Belo Horizonte e São Paulo, etc., o presente trabalho busca perceber como tais parcerias culminam ou não em uma vivência social organizada em redes, à luz dos conceitos de autores como Ana Clara Ribeiro, Ilse Scherer-Warren, Manuel Castells e Tamara Egler, Isto porque através de uma organização em rede, os movimentos sociais podem transpor “fronteiras territoriais, articulando as ações locais às regionais, nacionais e transnacionais; temporais, lutando pela indivisibilidade de direitos humanos de diversas gerações históricas de suas respectivas plataformas; sociais em seu sentido amplo, compreendendo o pluralismo de concepções de mundo dentro de determinados limites éticos, o respeito às diferenças e a radicalização da democracia através do aprofundamento da autonomia relativa da sociedade civil organizada” (SCHERER-WARREN, 2016, p.127, 1§).




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* Neves
Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional . Universidade Federal do Rio de Janeiro - IPPUR/UFRJ. Rio de Janeiro, Brasil