A recomposição burguesa observada a partir de meados da década de 1980, como resultado da crise orgânica do capital vivenciada na década de 1970, promoveu um reordenamento do bloco histórico. Tal movimento levou no campo superestrutural, a um processo de reforma do aparelho estatal, que no Brasil, encontrou as condições para o seu desenvolvimento a partir de meados da década de 1990. Assim, teve início a reforma gerencial do aparelho estatal, que no campo educacional tratou de implantar uma pedagogia política do capital. Nesse contexto, consideramos que a transformação política e ideológica pela qual passou o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), foi essencial para que para a redefinição das políticas públicas educacionais dos diferentes níveis e redes de ensino do país. Esse artigo, objetiva assim, atestar que a reorientação institucional do INEP, promovida pela Lei nº 9.448/1997, teve o propósito de transformar esse órgão do Ministério da Educação (MEC), que vinha sendo progressivamente esvaziado de suas funções, ao menos desde a segunda metade da década de 1970, em um intelectual orgânico coletivo da classe dominante. Levando esse contexto em consideração, este artigo apresenta como referência teórica as categorias de intelectuais, desenvolvidas pelo filósofo italiano Antonio Gramsci (1891-1946). Para Gramsci, incialmente haviam os intelectuais do tipo tradicional, e a partir do desenvolvimento do sistema capitalista surgem os intelectuais orgânicos. O filósofo chama a atenção para o fato de que a complexidade das relações sociais associada a capacidade de adaptação do capital, como mecanismo de superação das suas próprias crises, ampliou, no mundo moderno a categoria dos intelectuais. Sobretudo, em decorrência da complexificação da superestrutura e das necessidades políticas do grupo fundamental dominante, surgem novos tipos de intelectuais, como é o caso dos intelectuais orgânicos coletivos. Para garantir a continuidade do seu projeto político é necessário que a burguesia, em suas diferentes frações, mantenha o controle hegemônico por meio do consenso em torno da sua ideologia. Se anteriormente, nos primórdios do desenvolvimento do sistema capitalista o controle sobre as classes trabalhadoras era feito muitas vezes por meio da correção física, atualmente tal consenso é conquistado por meio do controle do campo educacional. Assim, para Gramsci, ao menos algumas frações da burguesia são capazes de organizar a sociedade de modo a garantir a expansão da própria classe. Para além da manutenção do consenso em torno do predomínio de frações da burguesia sobre os trabalhadores, a conquista da hegemonia do Estado garante não apenas uma preponderância no campo econômico, mas também nos campos social e político. O controle das políticas públicas educacionais é justificado, por Gramsci, justamente pela tarefa educativa que o Estado possui para todas as frações de classe. Em uma sociedade socialista, no qual os sistemas educacionais sejam baseados no modelo de escola unitária, a tarefa dos intelectuais é a de educar o senso comum, que é acrítico, ocasional, desagregado e conformista, de modo que as pessoas possam desenvolver o bom senso, isto é, se identificarem enquanto sujeitos históricos e dessa forma, que possam lutar contra a dominação. Entretanto, em uma sociedade capitalista o intelectual, por atuar em prol do capital, não contribui com a elevação do conhecimento, mas mantém as classes trabalhadoras no nível do senso comum. Essas categorias possibilitam a compreensão das estratégias da classe dominante burguesa em sua tarefa histórica de conquistar e manter a hegemonia do aparelho estatal. Esse artigo apresenta alguns resultados de uma pesquisa básica qualitativa, de caráter explicativo, que visa compreender os fatores que contribuíram para a reestruturação do INEP, bem como entender o papel dessa instituição enquanto intelectual orgânico coletivo do capital. O INEP passa assim, a partir da sua reestruturação a atuar como um intelectual orgânico coletivo, desempenhando a função de organizador das reformas neoliberais da educação brasileira.