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Resumen de ponencia
Fakenews e o enfraquecimento da cidadania comunicativa: o ecossistema da desinformação e o colapso dos processos informativos circulantes nas redes sociais digitais no Brasil e Argentina

*Thays Helena Silva Teixeira



Pensar a notícia em tempos de jornalismo digital com novos mecanismos de produção e apuração é fundamental para a compreensão da construção e organização do texto informativo e de seus produtos. Com o advento da internet, o jornalismo passou por uma reinvenção e tem adotado formas diferenciadas para o processamento da notícia. As redes e mídias sociais são exemplos de como o jornalismo se remodela para a produção noticiosa positiva e negativamente.
Partindo do princípio de que a notícia é uma construção (Teoria Construcionista, ALSINA, 2009; LAGE, 2005), portanto oriunda de processos elaborados que permeiam contextos, culturas e experiências compreende-se o texto noticioso e seus produtos como um recorte do real concreto. Na contemporaneidade os critérios também se modificam e formas de apuração surgem e desaparecem.
A transformação do acontecimento em notícia, além do contexto e do interesse, exige uma verificabilidade bem mais aprofundada: o informante não pode ser automaticamente transformado em fonte. (ALSIN, 2009). Veracidade, se torna uma palavra recorrente, mesmo que sempre tenha sido, além necessária no jornalismo.
Esses espaços possuem as suas potencialidades e se transformaram em ferramentas interessantes na construção de discursos democráticos por uma parcela dos cidadãos. Entretanto, esse que seria um espaço deliberativo importante se chocou com ferramentas que não favorecem essas demandas positivas. Fluxos comunicacionais inverídicos passaram a circular e checagem dos fatos (apuração) está enfraquecida.
Nem sempre o que parece ser uma notícia o é propriamente. A proliferação das fake news (notícias falsas) tem posto em xeque a estruturas da apuração noticiosa e coloca o jornalismo em um fogo cruzado.
A internet e as redes sociais se converteram em campo importantíssimo, crescente, e dinâmico do debate público e da disputa de narrativas, que levam à busca de hegemonias na política. Essa realidade abre espaço para discussões legítimas e factuais, mas também para discursos corsários, não legítimos e não factuais (fake news). (RUEDIGER, 2017, p.6).

No ímpeto de perceber como esses discursos são construídos em contextos jornalísticos regionais discutimos a questão da elaboração e reelaboração das práticas jornalísticas cidadãs quando do consumo e distribuição de fakenews no Brasil e Argentina. Em ambos países, a circulação de notícias falsas tem se mostrado crescente, gerando um ecossistema de desinformação que afeta a maneira como o cidadão consome, compreende, crítica, produz e analisa as gramáticas informativas.
A cidadania comunicativa e sua ambiência tendem a promover compreensões diferenciadas sobre a realidade social, permeando seu caráter multicultural, antropológico, micro e macrossocial, além das práticas comunicativas propriamente ditas. Camacho Azurduy (2005) aponta que a cidadania comunicativa é uma via entre os anseios e práticas cidadãs e suas relações com os meios de comunicação. Segundo ele, essas correspondências de interesses e convivências de uma maneira ou de outra, constrói formas de ser e exercer a cidadania comunicativa e que:
esta se estabelece com muito mais força na sociedade informacional do principio de século, através do vínculo no equitativo, mas com características de interdependência, entre a pessoa situada social e culturalmente e os meios e, cada vez com maior intensidade, as novas tecnologias de informação (TICs) (CAMACHO AZURDUY, 2005, p.29).

Assim, que a cidadania se figura como um reconhecimento dessa integração onde o cidadão consome discursos informativos e opinativos circulantes, que os interpreta sob a ótica de um conjunto de processos de valor simbólico e os utilizam conforme as suas demandas, considerando especialmente as categorias de uso e transformação.
Entretanto, Camacho Azurduy (2005, p.30) reconhece que essa ligação vai se construindo de forma desigual porque os meios de comunicação (hegemônicos) dispõem de uma série de condições de produção de sentidos que os cidadãos nem sempre tem acesso. “Não significa, de nenhuma maneira, submissão ao sistema de meio massivo existente”, mas ao contrário que podem existir uma apropriação conflitiva e competitiva, onde elementos como a racionalidade, a emoção, o desejo e a decepção estarão presentes.
Entendemos que esse processo de intersecção entre os agentes comunicantes e os meios de comunicação se pauta no debate público e se firma nos interesses de cada setor, sem a ilusão de que essa relação é justa, mas marcada pelas recorrentes reivindicações cidadãs, porque certamente a ideia de participação e decisão como pregam os meios é fictícia. Essa se dá nas bases reivindicatórias e contestadoras dos discursos e processos produtivos que são dissipados pelos microfones, textos e telas.
Nesse sentido percebemos porque as fakenews se configuram como um mecanismo perverso que prejudica a constituição da cidadania comunicativa. Com notícias falsas essa relação agentes comunicantes/meios de comunicação fica violada, porque os discursos produzidos falsamente dificultam a livre circulação de informações, a formação cidadã e consolida um cenário autoritário de falas não verdadeiras. Esses fluxos são compreendidos como um “ecossistema de desinformação”, conforme Claire Wardle, que ultrapassam a definição clássica da notícia, mas de outros conteúdos como paródias, montagens e outras formas de manipulação que circulam como conteúdo.
Neste espaço observamos as fakenews que circularam sobre o assassinato da vereadora do Rio de Janeiro, Mariele Franco (Brasil) e do ativista argentino Santiago Maldonado no Facebook. Sob uma perspectiva de abordagem qualitativa e análise descritiva apontamos como as características do conceito de cidadania comunicativa são enfraquecidas quando percebido a formação desse ecossistema de desinformação.
Em ambos os casos, a circulação das fakenews elaborou um ambiente desinformativo que propagou discursos odiosos, questionando o tipo de vida desses sujeitos, quando o que de fato precisava ser posto de voga eram as condições de morte deles, esfacelamento institucional nos dois países, perseguição política e os crimes propriamente ditos.




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* Silva Teixeira
Universidade Federal do Rio Grande do Norte UFRN. Natal, Brasil