Várias manifestações começam a emergir pelo mundo a partir de 2008, com as mais diversas reivindicações. Islândia, Tunísia, Turquia, Egito, Espanha e Estados Unidos são alguns dos países que podemos citar em que as manifestações tomaram grande visibilidade, principalmente por conta do uso intenso das redes sociais e da internet, com portais de notícias, sites, etc. A rede se tornou o principal meio responsável pela difusão e organização das manifestações, tanto por meio de postagens individuais nas redes sociais como por intermédio de Movimentos Sociais da era da internet, chamados pelo sociólogo Manuel Castells de Movimentos de Rede, devido à sua atuação em redes online e às características de organização. Essas manifestações, apesar de suas diferenças, trazem características comuns: além do fato de se organizarem através da rede, algumas tiveram princípios de cunho econômico, devido à crise financeira que teve início nesse mesmo ano de 2008; também levantaram a bandeira da democracia, seja reivindicando eleições diretas e a saída de ditadores do poder, seja pedindo mais democracia através da possibilidade de ampliar a participação. Este trabalho tem como objetivo geral discorrer sobre as manifestações que ocorreram no Brasil recentemente, em 2013 e 2015. As inaugurais se iniciaram na cidade de São Paulo, com a data da primeira manifestação em 06 de junho de 2013. Essa manifestação foi organizada pelo Movimento Passe Livre (MPL), um movimento horizontal, ou seja, sem lideranças e no qual as decisões são tomadas coletivamente através de assembleias, que tem como principal bandeira um transporte realmente público e gratuito, não mais nas mãos de empresas privadas de transporte, e que garanta o direito à cidade para todos. As primeiras manifestações ocorreram em 06 e 10 de junho de 2013 e pediam a revogação do aumento da tarifa do transporte coletivo que fora de vinte centavos. Com números entre 2 e 5 mil manifestantes, foram fortemente repreendidas pela Polícia Militar, fato que foi o estopim para a multiplicação de participantes e de manifestações que se espalharam pelas principais capitais do país, num movimento de ampliação das pautas e demandas das manifestações que ficaram conhecidas como “Jornadas de Junho”. Essas manifestações trouxeram como novos atores os novos Movimentos Sociais, ou Movimentos de Rede, e novas dinâmicas de participação política, com a organização dos protestos e discussões através das redes, além das próprias manifestações. As “Jornadas de Junho” marcam a abertura de um novo ciclo de protestos no Brasil contemporâneo, que se estende das manifestações de 2013 com a luta por direitos a manifestações contra a corrupção e o governo, em 2015. Nessa fase os novos Movimentos Sociais, ou Movimentos de Rede, entram em cena e aparecem como principais articuladores dos atos por todo o país, fazendo chamadas através das redes sociais para a população comparecer às manifestações e ir às ruas. Enquanto as manifestações de 2013 são fruto das demandas do Movimento Passe Livre (MPL), com a bandeira da mobilidade urbana, as manifestações de 2015 são organizadas principalmente pelo Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem pra Rua, dois movimentos caracterizados por alguns autores como sendo da nova direita, organizados pela internet e liderados por Kim Kataguiri e Rogério Chequer, respectivamente, além de outros nomes. Destaca-se novamente o papel da internet como principal meio de articulação dos movimentos e organização das manifestações, através de eventos criados nas redes sociais como o Facebook, imagens e vídeos, fóruns de discussão, notícias em tempo real e filmagens divulgadas de dentro das manifestações. Dada a contextualização anterior, esse trabalho tem como objetivo específico compreender as motivações das pessoas que foram às ruas na manifestação que ocorreu em 16 de agosto de 2015, bem como o papel dos novos Movimentos de Rede na articulação das manifestações. Para isso, aplicamos um questionário que tinha como objetivo colher informações sobre o perfil sócio-econômico e político-associativo do participante, bem como sua motivação para estar presente àquela manifestação. Além disso, as perguntas permitiram perceber o grau de confiança com relação às instituições democráticas. Tal questionário foi aplicado nas manifestações que ocorreram nas cidades de Araraquara, Ribeirão Preto e São Paulo, no estado de São Paulo. O questionário foi aplicado por pesquisadores espalhados nessas manifestações que pediam, aleatoriamente, que as pessoas respondessem-nos. Foram obtidas 86, 98 e 107 respostas, respetivamente, totalizando 291 participantes. Analisamos tais dados de maneira qualitativa, com o intuito de perceber e identificar o perfil dos manifestantes, quais suas reivindicações e a importância dos novos Movimentos Sociais para a presença deles na manifestação, etc. Além disso, buscando entender melhor esses movimentos e suas demandas, realizamos uma pesquisa nos sites, páginas e perfis em redes sociais desses movimentos na internet, a fim de coletar dados que contribuíssem com a caracterização deles como Movimentos de Rede e avaliar melhor a atuação deles tanto nos protestos como na própria rede. Os resultados encontrados demonstram empiricamente o que alguns autores já levantaram, sobre a crise de representação e desconfiança nas instituições e nos políticos. Também revelaram baixa simpatia pelos movimentos sociais, levando-nos a compreender as manifestações e os novos movimentos em rede como alternativas às tradicionais formas de organização dos movimentos sociais. Também os resultados permitiram mostrar a força da pauta anticorrupção como motivação da participação. Os dados coletados permitiram traçar o perfil sócio-econômico e político-associativo dos manifestantes. Trazem ainda possibilidades de análises e sugestões de pontos que podem ser abordados em pesquisas futuras, por ser um tema amplo e de recente discussão.