A partir dos anos 1990, consolida-se o processo migratório de bolivianos para a cidade de São Paulo (Brasil), tendo como principal destino a inserção em pequenas oficinas de costura. Essas oficinas, que alimentam a indústria de confecção local, tem como principais características: i) pagamento por peça produzida; ii) longas jornadas de trabalho, geralmente de 7h a 22h nos dias de semana, de 7h a 13h aos sábados, com folga sábados a tarde e domingos; iii) prazos curtos de entrega dos pedidos; iv) moradia nas oficinas de costura; v) condições insalubres de trabalho e de vida, associadas a doenças respiratórias e outras. Por causa das formas de trabalho nas oficinas, os costureiros imigrantes acabam ficando dentro do espaço de trabalho e moradia durante a maior parte do tempo. Por outro lado, isso só pode ocorrer porque a oficina garante as suas condições de reprodução. Portanto, para uma compreensão das formas de trabalho internas às oficinas de costura e do processo migratório de bolivianos para São Paulo, é necessário considerar as formas pelas quais a reprodução acontece e o papel desempenhado pelas mulheres. O objetivo desta ponência é apresentar as particularidades da experiência feminina nas oficinas de costura, ressaltando especialmente seu papel na produção e na reprodução doméstica, para contribuir a uma análise de gênero deste processo migratório. A pesquisa foi realizada através de entrevistas de profundidade realizadas com costureiras bolivianas residentes na cidade de São Paulo, entre 2015 e 2016. Usaremos as entrevistas de seis mulheres (cujos nomes foram modificados): Denise, Brenda, Jéssica, Beth, Marisa e Jimena. Em primeiro lugar, é fundamental ter em conta que, na maioria das oficinas de costura, a propriedade é de um casal. Dificilmente uma pessoa torna-se dona de oficina sendo uma mulher ou um homem solteiro. Além disso, muitas oficinas são projetos familiares, que podem ir desde um núcleo familiar mais restrito (pais, filhos, irmãos) ou mais extendido (tios, primos, cunhados). Assim, a reprodução dos trabalhadores muitas vezes se confunde com o cuidado da própria família. As principais atividades de reprodução que a oficina de costura demanda são: a alimentação dos trabalhadores; a limpeza dos ambientes de trabalho e moradia; a lavagem de roupas; e o cuidado com os filhos. A alimentação é, na grande maioria dos casos, fornecida pela própria oficina de costura para os horários de trabalho, ou seja, durante os dias da semana e até o almoço de sábado. A cozinheira pode ser a dona da oficina, muitas vezes mãe ou tia dos costureiros, ou uma mulher paga para esse serviço. A limpeza dos ambientes de trabalho, em algumas ocasiões, é realizada pelos próprios costureiros, mas muitas vezes deixada a cargo apenas das mulheres; pode haver uma faxineira contratada ou a própria dona da oficina se encarregar do serviço. A lavagem de roupas é sempre feita pelos próprios costureiros; no caso de casais que trabalham juntos, a divisão desse tipo de tarefas é variável, mas acaba muitas vezes recaindo sobre a mulher. O cuidado com as crianças é bastante difícil; em alguns casos, uma mulher mais velha, como a mãe de um dos donos, migra para São Paulo para cuidar das crianças; em outros, as crianças permanecem fechadas nos quartos enquanto os pais trabalham. Entre casais, também é comum que a mulher dedique mais tempo às crianças. Por isso, segundo nossas interlocutoras, as mulheres são as que mais trabalham nas oficinas de costura, porque além de costurar ainda se responsabilizam por uma série de tarefas de reprodução, remuneradas ou não. Nesse sentido, é também de suma importância destacar o papel produtivo fundamental que elas têm. Por outro lado, quando perguntadas sobre a problemática da remuneração, nossas interlocutoras afirmaram que “ganha mais quem trabalha mais”; nesse caso, porém, referiam-se apenas ao trabalho produtivo da costura, indicando como o ganho por produtividade estimula os costureiros a enfrentar as longas jornadas laborais. No trabalho produtivo, é característico que as mulheres usam as máquinas que exigem menos força física, porém mais habilidade e agilidade manuais; no entanto, isso não necessariamente se traduz em uma diferença de remuneração. Essa disparidade, quando acontece, pode ser encontrada por exemplo nos arranjos de trabalho produtivo e tarefas de reprodução realizados entre casais. Em outros casos, a mulher pode ter que abrir mão de costurar para cozinhar ou limpar mesmo sem ser remunerada por isso. E, entre os recém-chegados, é comum que não saibam costurar; os homens em geral tornam-se ajudantes de costura, que vão aos poucos aprendendo a manejar as máquinas, enquanto as mulheres são muitas vezes empregadas como cozinheiras e faxineiras e aprendem a costurar mais lentamente. A relação de divisão de tarefas entre o casal dono da oficina, em que o homem assume as tarefas para fora da oficina, como buscar e levar matéria-prima e peças, contatar clientes e fornecedores e pagar contas no banco, enquanto a mulher assume as tarefas internas, como costurar, cozinhar, limpar e lidar com os trabalhadores, sintetiza a relação intrínseca entre produção e reprodução doméstica que sustenta as oficinas de costura e, portanto, todo o processo migratório boliviano com inserção na indústria de confecção. Portanto, a presença da mulher é fundamental para a manutenção e a sustentação da oficina de costura, o que a torna também essencial para a consolidação e a sustentação de tal processo migratório. Pelo papel central da mulher na oficina, chega-se ao seu papel central no processo migratório. Por isso argumentamos que, para a sua compreensão, é necessário ir além das experiências masculinas apenas e considerar em conjunto as experiências particularmente femininas.