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Resumen de ponencia
Disputas jornalísticas: a configuração social da maior tragédia socioambiental do Brasil através dos números

*Elise Azambuja Souza
*Julia Capovilla Luz Ramos



1. Introdução

No dia 5 de dezembro de 2015 a barragem de Fundão, da mineradora Samarco, operada pelas empresas Vale do Rio Doce e BHP Billiton, se rompeu e provocou o vazamento de milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério que devastou o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, no Estado de Minas Gerais. O crime, que provocou a morte de funcionários e moradores, deixou milhares desabrigados e causou extensos danos sociais e ambientais. O acontecimento também jogou luz sobre a situação de permanente conflito que envolve a extração mineral e a dinâmica predatória da atividade, por exercer papel de centralidade econômica na região até o rompimento da barragem.
A dimensão catastrófica do evento potencializa o poder de afetação e provoca uma ruptura nos quadros de significação, exigindo a estabilização dos variados sentidos emergentes como forma compreendê-lo (QUÈRÈ, 2005). Nesse movimento, o papel de organizador de sentidos é exercido com centralidade pela mídia que, ao protagonizar a transmissão dos fatos também atua como configurador social destes.
No jornalismo, o ato de explicar a tragédia começa ainda em meio ao caos e ao desencontro de informações, o que altera também, as práticas instituídas no campo, demandando novas lógicas de apuração. Entretanto, após o período de incertezas quanto aos rumos do acontecimento, quando as informações já aparecem de forma organizada, o jornalismo volta às práticas legitimadas no processo de produção noticiosa. A proposta do trabalho, portanto, é refletir sobre a cobertura da tragédia em Mariana (MG) a partir da observação dos dados numéricos utilizados dez matérias publicadas em sites de jornais e revistas brasileiros após um ano de rompimento da barragem.
Considerando seu estatuto de verdade, os números são acionados para garantir segurança ao jornalista e para mensurar os impactos dos eventos catastróficos. Muitas vezes, os repórteres se refugiam na ideia de um “jornalismo de precisão” (MEYER, 1993) para isentar suas escolhas durante a apuração. O uso de determinadas cifras, porém, torna explícita a relação dos jornalistas com suas fontes e manifesta o direcionamento de alguns veículos sobre o desastre. Em nossa análise, procuramos entender o que os dados acionados pela imprensa para dimensionar tal acontecimento dizem sobre as disputas entre os diferentes setores sociais envolvidos.

2. O jornalismo e a hierarquia das fontes

De acordo com a ideia de jornalismo de precisão, com o aumento significativo do volume de dados disponíveis nas últimas décadas, o jornalista deveria atuar como um filtro, alguém capaz de organizar, interpretar e disponibilizar as informações. “Em outras palavras, o jornalista agora tem que ser um administrador de dados acumulados, um processador de dados e um analista destes dados” (Meyer, 1993, p. 25). Deste modo, há uma diferença intrínseca entre o trabalho jornalístico que apenas reproduz cifras daquele que coloca os conteúdos à prova a partir da análise e da interpretação.
Usualmente, os jornalistas dão preferência a dados extraídos de fontes confiáveis. Não por acaso, há uma escala para o uso das fontes na mídia. As “oficiais” (Schmitz, s/d, p.9) são preferidas, pois “tratam essencialmente do interesse público, embora possam falsear a realidade”. Quando se trata da cobertura de desastres, Amaral (2015) afirma que a utilização das fontes apresenta variações e a relevância de cada uma, além de proporcional à posição ocupada dentro da estrutura social, têm um efeito pré-determinado no desenrolar da notícia (Amaral, 2015, p. 44).
A partir de nosso corpus, separamos em quatro tipos as fontes acionadas para dimensionar numericamente o crime socioambiental em Mariana (MG): a) Governamentais; b) Empresariais; c) Especializadas; d) Não-governamentais. Estas fontes, reúnem empresas e órgãos que publicaram estudos e laudos oficiais em que mensuravam o desastre, a partir da divulgação de dados como volume de rejeitos liberados pelo rompimento, número de atingidos, etc. Entretanto, longe de estarem em consonância, os números divulgados variam sobremaneira de acordo com a entidade responsável, uma discordância que se repete nas matérias jornalísticas, principalmente em um dado-chave sobre a tragédia: o volume de rejeitos liberado pelo rompimento da barragem. Entre o maior e o menor valor publicados na imprensa constamos que existe uma diferença de 30 milhões de m³.

3. Um ano depois da tragédia: os dados acionados e os sentidos possíveis

Cruzando os dados apresentados nos estudos realizados pelas fontes e os valores acionados pela imprensa para ilustrar o acontecimento, conseguimos identificar a origem dos números utilizados nas dez matérias jornalísticas que compõem nosso corpus. Entretanto, 40% das reportagens não contam com a identificação das fontes, como se as quantias publicadas fossem fruto somente do trabalho de apuração dos veículos. Além disso, a partir dos dados mobilizados nas matérias, vemos que os discursos sobre o primeiro ano do desastre são coordenados majoritariamente por fontes governamentais, aquelas que inspiram mais confiança nos repórteres (AMARAL, 2015), e em segundo lugar, pelas empresariais (Samarco) e pelas não-governamentais (Fundação Renova).
Partindo para o detalhamento da origem das informações temos, entre as dez matérias, oito que utilizam dados de fontes governamentais (Folha de S. Paulo, Blog do Planeta, Revista Exame, O Globo, Diário de Pernambuco, O Tempo e G1) e sete veículos que buscam informações em fontes empresarias ou não-governamentais, representadas, nesse caso, pela fundação criada pela Samarco para mitigar impactos e pela própria empresa (Folha de S. Paulo, IstoÉ, Blog do Planeta, G1, Correio do Povo, Revista Exame e Estado de Minas).
Não por acaso, as matérias que trazem de forma dominante os dados oferecidos pela Samarco também assumem posições mais brandas com relação à responsabilização da tragédia, enquanto as que utilizam dados de fontes governamentais, o que inclui órgãos ambientais de pesquisa, são mais críticas quanto as falhas nos processos de recuperação das áreas afetadas.
Pensando de forma mais ampla nas questões que se impõem sobre a cobertura de um desastre que, mais do que qualquer outro evento, envolve inúmeras possibilidades de sentido e coloca diferentes campos sociais em disputa, a relação existente entre os números mobilizados e as construções narrativas auxiliam na compreensão de um fenômeno: a escolha dos jornalistas por determinadas fontes de referência molda o conteúdo das matérias e modifica os sentidos possíveis para o acontecimento.

4. Considerações Finais

Conforme observamos, os números não estão livres de marcas de sentido que, ao serem definidas entre as possibilidades de cada enunciador, expõem intencionalidades. Um trabalho jornalístico que negligencia essas condições pode resultar na legitimação de determinadas posições, distanciando-se ainda mais do preceito de imparcialidade ainda solicitado pelo campo. Há, no material analisado, uma discrepância entre os dados divulgados pela mineradora e por diferentes órgãos governamentais e de pesquisa. As matérias jornalísticas, da mesma forma, não apresentam conformidade. Ademais, a transcrição literal desses números, sem indicação de fontes, passa a falsa ideia de uma apuração rigorosa por parte dos veículos.
As variadas nuances que matizam os desastres servem tanto para expor como para encobrir eventuais falhas e seus responsáveis, dificultando a validação das informações acessadas no processo de apuração jornalística. A conclusão a que se chega é que as cifras usadas nos relatos sobre o desastre revelam as tensões entre determinados setores da sociedade. Nesse sentido, a capacidade de desconfiar dos dados fornecidos pelas fontes, a habilidade de cruzar informações e a aptidão em analisar criticamente o contexto do evento noticiado a partir das intenções dos diferentes campos envolvidos torna-se imprescindível para a concretização de uma cobertura polifônica e responsável.


REFERÊNCIAS
Amaral, M. (2015). Fontes testemunhais, autorizadas e experts na construção jornalística das catástrofes. Revista Líbero, 18 (36), 43-54.
Meyer, P. (1993) Periodismo de precisión: Nuevas fronteras para la investigación periodística. Barcelona: Bosch.
Quéré, L. (2005) Entre o facto e o sentido. Trajectos. Revista de Comunicação, Cultura e Educação, 6, 59–75.
Schmitz, A. A. (2011). Fontes de notícias: Ações e estratégias das fontes no jornalismo. Florianópolis: Combook.




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* Azambuja Souza
Universidade Federal de Santa Maria - UFSM. Santa Maria, Brasil

* Capovilla Luz Ramos
Universidade Federal de Santa Maria - UFSM. Santa Maria, Brasil