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Resumen de ponencia
Ciência e Tecnologia nas obras de Karl Marx

*Igor Assoni Monteiro Da Silva



A obra de Karl Marx, dada sua riqueza e profundidade de alcance, é objeto de diferentes abordagens que buscam refletir sobre aspectos particulares de seu pensamento. Aparentemente, ao substituir a análise da totalidade pela dos aspectos particulares abandonamos o caminho da dialética da totalidade do mundo material, forma essencial de investigação e exposição do modo de produção capitalista apresentados por Marx. No entanto, entendemos que a análise de alguns elementos pontuais pode lançar luzes em temas polêmicos da teoria marxiana. Este parece ser o caso na questão da ciência e da tecnologia no pensamento de Marx. A polêmica mais ruidosa em torno dessa questão é a do determinismo tecnológico supostamente presente na obra de Marx, como apontam alguns autores (BRAVERMAN, 1987, KATZ, 1997, WOOD, 2001; ROSENBERG, 2006).
Assim, o trabalho aqui apresentado buscará tratar de alguns pontos sobre a questão da ciência e da tecnologia em algumas das principais obras de Karl Marx. As obras analisadas para os fins deste trabalho serão as seguintes: Manuscritos econômico-filosóficos, de 1844; Grundrisse, de 1857-1858; Para a crítica da economia política – manuscrito de 1861-1863; O Capital – livro I, publicado pela primeira vez em 1867. A partir de uma leitura focalizada na questão da ciência e da tecnologia, buscar-se-á uma compreensão acerca do tratamento dado por Marx a tal questão. A opção por essas obras se fez pelo seu amplo conhecimento entre os leitores de Marx, mas também, e principalmente, pelo fato de que esse percurso nos permite conhecer o avanço do pensador alemão em todos os aspectos de sua obra, e, claro, em relação ao ganho de concretude das suas considerações sobre a ciência e a tecnologia. A compreensão dialética de Marx sobre o movimento do capital coloca a ciência e a tecnologia em um lugar específico, com funções específicas e com consequências específicas. Assim, embora seja uma tarefa complexa, pretendemos abordar a ciência e a tecnologia em sua complexidade, ou seja, no movimento que constitui o binômio ciência-tecnologia em uma força produtiva do capital, mas sem negligenciar as potencialidades vislumbradas por Marx na ciência e na tecnologia.
O debate em torno da questão da ciência e da tecnologia não são estranhos ao marxismo. Pelo contrário, constitui um objeto de análise importante para pesquisadores de todo o mundo, cuja produção oferece bases indiscutivelmente importantes. As diferentes abordagens existentes contribuem para a iluminação de diversos aspectos do tema “ciência e tecnologia” nos textos de Marx. Neste sentido, é importante uma pequena revisão bibliográfica da amplitude com que tem sido tratada a questão de que nos ocuparemos neste artigo, ainda que a título de exemplo.
O primeiro trabalho a se destacar sobre ciência e tecnologia em Marx é o de Enrique Dussel, Cuaderno Tecnologico-Historico (1984). Trata-se de uma obra na qual o autor realiza um estudo dos excertos de punho do próprio Marx, a partir dos seus estudos no Museu Britânico em 1851. O enorme peso dessa contribuição de Dussel é dado pela interpretação histórica do contato de Marx com a questão da ciência e da tecnologia no modo de produção capitalista e o papel da tecnologia para o ser humano em sua amplitude histórico-material. Entre outras coisas, Dussel (1984) demonstra o momento em que Marx se ocupa pela primeira vez da “questão tecnológica”, em 1845, ajudado por Engels.
Também de Dussel é Hacia um Marx desconocido: un comentario de los manuscritos del 61 – 63, de 1988. Entre tantos assuntos comentados – tais como mercadoria, dinheiro, mais-valor, etc. -, discute-se também a questão da tecnologia, mais especificamente o papel revolucionário da maquinaria na produção capitalista. Dussel discute as transformações formais na oficina artesanal que dão origem à manufatura, onde a base tecnológica permanece a mesma – ou seja, baseada no emprego dos mesmos instrumentos de trabalho da oficina artesanal -, para, em seguida, tratar da “passagem dialética do instrumento à máquina” que origina a “revolução tecnológica ou a base material que permite chegar à plena constituição do modo de produção capitalista” (DUSSEL, 1988, p. 267). O interessante a destacar aqui é o fato de que, segundo Dussel, Marx tira essas conclusões materialistas em 1863, retornando aos já referidos estudos de 1851, o Cuarderno Tecnologico-Historico.
Embora exista, como já se disse, uma importante produção teórica a respeito da ciência e da tecnologia nas obras de Karl Marx, por razões de espaço nos limitaremos a exemplificação de apenas mais um tema que recebeu atenção, em um estudo mais recente de Amy E. Wendling (2009). De um modo geral, seu trabalho Karl Marx on Technology and Alienation aborda questões também relacionadas à transformação capitalista do trabalho, mas a ênfase, como indica o título, é nos processos de alienação e estranhamento mediados pelo desenvolvimento tecnológico capitalista.
Apesar das patentes limitações da exposição na revisão bibliográfica, é evidente que existe uma enorme produção teórica dando conta de inúmeros aspectos da questão da ciência e da tecnologia no âmbito do marxismo. Tal literatura será uma indispensável fonte de pesquisa e interlocução para o trabalho que será desenvolvido para os fins propostos neste resumo. Espera-se, assim, que a abordagem realizada no trabalho a ser desenvolvido a partir desta proposta contribua com uma parte, ainda que pequena, do edifício teórico do marxismo frente às distorções e mistificações imputadas à obra de Marx.





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* Assoni Monteiro Da Silva
Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade - Universidade Tecnológica Federal do Paraná PPGTE-UTFPR. Curitiba - PR, Brasil