Para enfatizar que o projeto colonial também é epistêmico, Gayatri C. Spivak (2010), no âmbito dos estudos pós-coloniais, mostrar a construção do sujeito colonial como o “Outro”, o qual se impede foi, e é, impedido de falar. Neste sentido, o olhar colonizador e patriarcal por vezes generalizou as experiências e os diferentes papéis das mulheres indígenas nas sociedades e construiu narrativas que as encerram em estereótipos de submissão, de lascívias, de integradoras e etc. Por sua vez, em perspectiva descolonial, Karina Bidaseca e Marta Sierra (2014) afirmam que as construções coloniais permeiam os feminismos emergentes nos séculos XX e XXI na América Latina. Em diapasão, Rita Segato (2012) problematiza acerca do processo colonizador e patriarcal sobre as populações indígenas, especialmente, em relação aos direitos das mulheres indígenas e ao direito à diferença dos povos indígenas. Partindo destas balizas teóricas-metodológicas, objetivo mostrar os discursos sobre a situação das mulheres indígenas do Brasil elaborados por mulheres lideranças a frente do movimento indígena e do movimento de mulheres indígenas face às políticas indigenistas e às políticas indígenas. Os discursos analisados foram apresentados nas seguintes conferências: Conferência Nacional de Políticas para as mulheres - Brasil, anos 2004, 2007, 2011 e 2016, Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Conexa, em Durban, em setembro de 2001, doravante Conferência de Durban, e Conferência Mundial sobre a Mulher, ano 1975, 1980, 1985 e 1995. Dirce Cavalheiro Veron, etnia Kaiowá, durante a I Conferência Nacional de Políticas para as mulheres, em 2004, exigiu respeito ao modo de viver das mulheres indígenas. Ela também evidenciou as discriminações às mulheres indígenas no movimento de mulheres. O discurso de Eliane Potiguara na Conferência de Durban denunciou a invisibilidade da situação da mulheres indígena do Brasil, que para ela, tem fundamentos em preconceitos, falta de conhecimento e de interesse. Estes dois exemplos chamam atenção para a colonialidade da política da mulheres e da política voltada às mulheres e sua associação ao processo neoliberal e a construção de pautas e de sujeitos governáveis, por outro lado, evidencia possíveis fissuras no discurso quando aponta as discriminações, os preconceitos e as invisibilidades das mulheres indígenas, com a exigência de espaço para mulheres indígenas enquanto sujeitos nas políticas dos direitos das mulheres. No geral, os discursos de mulheres indígena do Brasil, nestas conferências, abordam a luta por direitos, os enfretamentos das discriminações, a organização e a participação de mulheres indígenas no movimento indígena e no movimento de mulheres, bem como a luta pela vida frente aos inúmeros ataques. Há que se perguntar se a presença de mulheres indígenas vem provocando no movimento de mulheres, seja ele feminista ou não, tensões e embates, e, em que medida, faz emergir as práticas neoliberais das políticas para as mulheres, consideradas aqui como jogadas da colonialidade do poder e do saber. Ao mesmo tempo, é possível pensar como o significado da diferença étnica vem sendo abordado por mulheres indígenas dentro do movimento de mulheres no Brasil, uma vez que seus discursos traz a tona as discriminações em relações aos povos indígenas, os estereótipos em relação as mulheres indígenas e as dificuldade enfrentadas por elas para atuar neste espaço político. Para Chandra Mohanty (2008), a desconstrução e o desmantelamento do discurso hegemônico do feminismo, simultâneos a construção e a criação de política fundada em autonomia, geografia, história e cultura são necessárias para evitar que os feminismos "de terceiro mundo" sigam marginalizados. Deste modo, para pensar mulheres indígenas do Brasil e seus discursos em conferências enquanto construção política faz-se necessário realizar a crítica interna dos feminismos, cartografando nos discursos proferidos nestas conferências os conceitos de gênero, classe, raça e etnia visando a identificação das tramas da colonialidade, bem como as fissuras no tecido colonial.