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Resumen de ponencia
Casa Amarela Quilombo Afroguarany: ocupação, arte e resistência pelo direito à cidade

*Francine Nunes



ta comunicação tem como objetivo apresentar resultados de uma pesquisa etnográfica sobre a iniciativa de um grupo de artistas e produtores culturais em São Paulo (Brasil) envolvidos na gestão e ocupação de um imóvel abandonado no centro da cidade. O caso analisado é da ocupação intitulada "Casa Amarela Quilombo Afroguarany", um casarão construído em meados de 1920 e que foi ocupado em 2014 para o estabelecimento de um ateliê compartilhado de criações artísticas e também espaço de moradia. Casa Amarela Quilombo Afroguarany procura mobilizar ações sócio-culturais que envolvam arte, ocupação e resistência e também voltadas para as matrizes afro-indígenas, por isso a denominação "Quilombo" e "Afroguarany". Atualmente, os moradores promovem atividades regulares ligados a música, arte urbana (TAG e graffiti), exibição audiovisual, dança, teatro, performance, batalha de poesias (os chamados Slam) e festas de Dancehall, um estilo musical jamaicano que surgiu no fim dos anos 70. Além disso, realizam atividades de formação e debate sobre questões ligadas a gênero, etnia e ocupação urbana.
O caráter qualitativo da investigação implica a utilização de técnicas etnográficas, com observação, produção de diário de campo e entrevistas. Esta opção metodológica se fundamenta na necessidade de reconhecer as diferentes temporalidades nos modos de atuar das juventudes e nas distintas manifestações culturais estabelecidas na ocupação conforme as respostas frente as condições de vida dos sujeitos. Assim, são os estudos sobre as juventudes e as dinâmicas urbanas que fornecem o percurso não só teórico, mas metodológico, pois interessa compreender como as experiências e trajetórias dos sujeitos pesquisados são configuradoras das suas práticas políticas e artísticas.
O desenvolvimento do trabalho traz a ideia de ocupação não só como espaço de habitação, mas como um campo artístico-cultural e estratégico de luta e cooperação. A análise de processos alternativos de habitar nos invita a pensar o "direito à cidade" como um projeto que emerge a partir da chave da ocupação, sendo essa um dos fronts da luta contra a precariedade de condições e desigualdade sociais, econômicas, políticas, institucionais, laborais que afetam diretamente as juventudes urbanas implicadas. Há quatro anos a ocupação está inserida num contexto de surgimento de uma série de iniciativas juvenis em que a cultura é compreendida como vida e práticas cotidianas nos espaços praticados da cidade. A análise da metrópole de São Paulo aponta para um cenário em que o processo de expansão do capitalismo é violento e reduz a cidade a um modelo politico-territorial mercantilizado. Assim, procura-se atentar em como as criações coletivas em lugares ocupados podem proporcionar a compreensão de conflitos adjacentes ao tecido urbano e do papel simbólico desses espaços na produção de resistências a partir da relação entre arte e política. O poder politico já não se orienta somente em termos normativos, mas é definido pelo processo de produção de vida social, do criar, do ser e do existir.
Entende-se que os movimentos de ocupação se constituem como léxico da agência politica e de resistência no contexto urbano e informam sobre as cidades, seus habitantes, os modos de vida e as tensões produzidas nesses cenários. Interessa, portanto, a compreensão de que as ocupações problematizam o acesso a direitos e as relações de poder e além disso, ampliam a potência do exercício cotidiano de luta pelo direito à cidade a luz de praticas artísticas.
A arte desempenha um papel crucial no processo de resistência e valorização das singularidade e demandas coletivas que inauguram experimentações alternativas e movimentos de resistência à redução dos lugares em espaços homogêneos, hierarquizados e privatizados. A tessitura politico-estética é alterada pela produção do comum, do reconhecimento, da comunicação e da criação em rede. Atos capazes de levar a um processo de autonomia e auto-organização de coletivos culturais e que possibilitariam a ampliação das mobilizações contra as privatizações, remoções e suspensão de direitos. Enfim, a pesquisa aponta que a conexão entre arte e politica nos revela que as formas de resistência podem criar engajamentos e um tipo de responsabilidade coletiva pela vida dentro dos limites intoleráveis que a racionalidade neoliberal nos impõe. Experiências estéticas urbanas como a Ocupação Casa Amarela Quilombo Afroguarany contribuem para a recriação e ampliação de repertórios políticos e artísticos. Nas ruas, praças, ocupações, marchas e protestos. Assim, arte e resistência são partes cruciais daquilo que chamamos de direito à cidade.




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* Nunes
Programa de Estudo Pós-Graduados em Ciências Sociais da Pontifícia. Universidade Católica de São Paulo - PEPG/PUCSP. São Paulo, Brasil