Moeda social e Economia Solidária: instrumentos pedagógicos propostos na educação de tempo integral em uma escola pública
Eliandra Gomes Marques
Filomena Martins Lavado
Relataremos uma experiência pedagógica - desenvolvida entre 2012 e 2016 - com utilização de moeda social, num círculo inicial, realizada em escola pública que contempla um público anual aproximado de 250 estudantes, entre 6 e 13 anos de idade, no contra turno escolar do município de Itajaí, estado de Santa Catarina, Brasil, no âmbito do projeto: “A Educação Financeira e a Economia Solidária em um Contexto Lúdico e Sensibilizador na Educação Integral”.
Este relato, sob o ponto de vista de formadoras em economia solidária, falará sobre o projeto citado que teve por objetivo geral promover aprendizagens diferenciadas que permitiriam ao educando vivenciar e planejar ações, assumir e partilhar responsabilidades num universo coletivo e autogestionário, através da empregabilidade de uma corrente de experimentos ludo-pedagógicos, cujo elo principal seria a moeda social, envolvendo todas as disciplinas e todo o universo escolar, desde os educandos e suas famílias, os educadores e todo o “staff” da unidade escolar.
Inicialmente as professoras das disciplinas de Ciências, Português, Matemática e Educação Física reuniram-se para enfrentar o desafio de desenvolver um trabalho interdisciplinar, coletivo e social de acordo com as diretrizes governamentais contidas em documentos oficiais brasileiros como a LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) e o PCN Parâmetros Curriculares Nacionais. Em suas abordagens, esses documentos referendam “...que os parâmetros curriculares nacionais definem que os currículos e conteúdos não podem ser trabalhados apenas como transmissão de conhecimentos, mas que as práticas docentes devem encaminhar os alunos rumo à aprendizagem e a sua autonomia.” Assim, através de estudos e pesquisas dessas professoras, surgiu a ideia da criação de uma MOEDA SOCIAL que envolvesse estudo da matemática financeira; da história da humanidade referente ao escambo, à economia e às finanças; das ciências sobre o comportamento humano envolvendo a sustentabilidade ambiental e o consumo; das expressões linguísticas, idiomáticas e físicas utilizadas na comunicação desse universo e das artes e artesanatos que poderiam colaborar no fechamento desse organograma circular.
Mas, a moeda social, por si só seria um experimento pedagógico restritivo/limitado, pois sua utilização demandaria uma complexidade maior como a criação de uma rede/um sistema de relações envolvendo também a produção; circulação; oferta; troca para o consumo consciente de bens e serviços.
Então, outros instrumentos pedagógicos foram integrados a essa MOEDA SOCIAL, como uma COOPERATIVA DE MATERIAIS RECICLÁVEIS, um BANCO COMUNITÁRIO e FEIRAS/ATIVIDADES DE TROCAS, tornando mais significativos os conhecimentos relacionados à Educação Financeira e à Economia Solidária.
- Economia Solidária é um movimento social que se apresenta como uma opção de trabalho associativo e de enfrentamento ao capitalismo moderno. Institui o valor do ser humano – e não do trabalho - como fonte para a construção da qualidade de vida de seus integrantes. Também é uma ferramenta econômica utilizada pelas políticas públicas para o desenvolvimento local, através do apoio e fomento de associações e cooperativas que promovem atividades econômicas (produção, distribuição, comercialização e trocas; incluindo ainda finanças solidárias envolvendo cooperativas de crédito solidários, bancos comunitários de desenvolvimento e os fundos solidários). Vale informar ainda, que durante o desenvolvimento do projeto nos anos seguintes, várias instituições de apoio e fomento à Economia Solidária de Itajaí e região se envolveram em atividades internas e externas do mesmo, como o Instituto Eco Cidadão; a COOPERFOZ -Cooperativa de Catadores de Itajaí; o CEPESI – Centro Público de Economia Solidária de Itajaí, a FAMAI – Fundação Municipal do Meio Ambiente; a COOPERAR Cooperativa Rural e Artesanal de Itajaí, entre tantas outras.
Quanto ao projeto, a metodologia utilizada foi a pesquisa-ação, uma vez que a intenção não se delimita em apenas compreender ou descrever a prática, mas, sobretudo, refleti-la para transformá-la, visto que estão implicados ciclos de ação-reflexão-ação.
O projeto foi iniciado com os educandos em 2012 em atividades coletivas e voluntárias, envolvendo todas as disciplinas, para a criação e construção do nome e características físicas da MOEDA SOCIAL, que ficou denominada como NECDINDIN. A Cooperativa de Materiais Recicláveis e o Banco Comunitário que iriam gerir os recursos para aquisição e utilização da moeda social ficaram denominados COOPERATIVA 5 R’s e BANCO RECICOOPER, sendo que os cooperados e os correntistas seriam os próprios educandos; protagonistas de todas as atividades realizadas nas práticas educativas durante o ano escolar.
A COOPERATIVA 5 R’s era abastecida com a venda mensal de materiais recicláveis (latinhas, lacres e panelas de alumínio, vidros de conservas e óleo de cozinha usado) que eram entregues pelos educandos e seus familiares na escola, mediante o recebimento de pontos de troca de acordo com cada material, e registrados em planilhas individuais por educando e por turma, fixadas na Sala dos Professores.
Esse processo de entrega, controle, organização e venda dos materiais recebidos eram realizados pelos educandos, com supervisão de educadores, em atividades que posteriormente eram discutidas em sala de aula, promovendo aprendizados e pensamentos críticos sobre as mesmas.
Então, uma vez ao mês abria-se as instalações físicas do Banco RECICOOPER quando essas planilhas eram manuseadas, procedendo à soma de todos os pontos, divulgando o montante obtido por cada educando e que era convertido pela moeda social NECDINDIN ao câmbio fixado e de 5 pontos X NC$ 1,00.
Esse montante também era registrado na conta corrente de cada participante, em um livro especial para esse fim. Nesse momento os educandos recebiam a moeda social NECDINDIN em cédulas impressas de NC$2,00, NC$5,00, NC$10,00, NC$20,00, NC$50,00 e NC100,00 que seriam utilizadas na própria escola através da aquisição ou troca de produtos oferecidos em atividades paralelas de FEIRAS DE TROCAS com a promoção de bazares temáticos (dia de mães/pais/crianças) (semana do meio ambiente, semana do lixo zero), cafés solidários, feiras orgânicas e outras.
Ao final de cada ano acontecia uma Assembleia Geral de Prestação de Contas dos valores arrecadados e eventualmente utilizados em materiais necessários para a realização de algumas atividades como as FEIRAS DE TROCAS, por exemplo. Na Assembleia Geral os educandos praticavam o seu direito de opinar e votar quanto à destinação das sobras financeiras do projeto, sendo que os votos tinham pesos diferentes, de acordo com a grau de participação de cada um nas atividades durante todo o ano letivo (1;2;3).
Assim, nas semanas antecedentes ao fim do ano letivo, o projeto era encerrado pois os valores do Banco RECICOOPER eram zerados com as destinações das sobras decididas na Assembleia Geral e as contas correntes encerradas com a utilização total da moeda social distribuída durante o ano e utilizada nesse período. Havia ainda numa última atividade de FEIRA DE TROCAS, com tema natalino, visto que no ano seguinte o projeto seria reiniciado em sua totalidade, envolvendo um novo público devido à rotatividade de educandos e educadores.
Nessa atividade de reinício do projeto, de explicação de sua prática eram os próprios educandos do ano anterior que se voluntariavam para serem os replicadores e comentaristas das experiências passadas (cada educando pode permanecer nessa unidade de ensino de contra turno até 9 anos, período de estudo do ensino fundamental no Brasil).
Constatou-se que esta práxis viabilizou um processo de aprendizagem muito importante para a vida do educando em relação às finanças e ao meio ambiente, visando qualidade de vida para si e sua família. Assim como, concebeu a Educação como uma prática comprometida com a troca de saberes possibilitando a vivência de experiências e a criação de espaços para a participação dos educandos e educadores no processo de construção de valores voltados à prática da democracia participativa.
Os resultados foram muito relevantes dadas as condições para que os envolvidos no projeto refletissem a respeito do uso consciente do dinheiro e da correta destinação dos resíduos sólidos envolvendo conceitos de cooperativismo como responsabilidade social e ética.
Muito interessante foi verificar a ação transformadora que o projeto proporcionou a todos, não somente para os educandos e suas famílias, mas também para os educadores e outros membros da comunidade escolar. Assim como o progresso de seu escopo, que ano a ano evoluía agregando novas atividades coletivas sugeridas por todos, uma vez que foi um processo educativo democrático e participativo que cresceu e se multiplicou também com o apoio e articulação de várias instituições do movimento da Economia Solidária que foram se envolvendo nos trabalhos voluntários.
Exemplo disso foi o Instituto Eco Cidadão, uma ONG que promove a educação e a sustentabilidade ambiental e que realizou diversas oficinas voltadas para esse tema, com ênfase na Semana Lixo Zero, movimento do qual é representante na região norte do litoral catarinense.
Palavras-chave: Moeda social. Cooperativismo. Banco Comunitário. Economia Solidária. Sustentabilidade Ambiental. Políticas Públicas.