Latino-americanismo crítico da teoria social e política brasileira: as novas questões
Ao longo das décadas de 1960 e 1970, o Brasil produziu um importante pensamento crítico sobre a América Latina, com foco em preocupações como as tarefas da burguesia no desenvolvimento nacional, o desenvolvimento das forças produtivas materiais e humanas, bem como a situação da dependência econômica no cenário de capitalismo já globalizado.
A preocupação destes intelectuais de constituir um projeto político e intelectual de transformação profunda da sociedade articulou em vários centros acadêmicos o trabalho de economistas e cientistas sociais e políticos em instituições localizadas principalmente nas universidades públicas de São Paulo e do Rio de Janeiro.
O golpe de estado de 1964, e o recrudescimento da ditadura nos anos seguintes, porém, acabou empurrando para o exílio o mais rico setor deste pensamento crítico. E se por um lado o desterro desmontou os centros mais destacados de produção do pensamento sobre a região, por outro permitiu que estes intelectuais dialogassem com o pensamento latino-americano produzido nas diversas instituições de pesquisa da região, especialmente no Chile, na Argentina e no México, permitindo a disseminação do projeto intelectual brasileiro.
O retorno progressivo à vida democrática no Brasil na década de 1980 trouxe de retorno parte dos seus pensadores, entretanto, sem as condições do passado, ora porque os centros de pesquisa latino-americanista não mais existiam, ora porque a conjuntura histórica impunha novos desafios políticos e intelectuais a ser decididos na arena democrática: a reestruturação econômica e o desmonte dos núcleos de resistência social, a reforma do estado e a descentralização neoliberal, as agendas das novas minorias principalmente raciais e de gênero, bem como os processos de cidadanização.
Nesse novo cenário, o pensamento crítico brasileiro parece ter se voltado nos anos de 1980 e principalmente na década seguinte para preocupações internas. Na academia, uma nova intuição se expandiu nos centros de pesquisa, inspirados por palavras de ordem como a crises de paradigmas, sociedades complexas, ou epistemologias pós-modernas, entre outros. No plano das lutas sociais e políticas, os conceitos de cidadania, desigualdade, movimentos populares e democracia partidária tomaram o lugar de categorias consagradas ao longo do século, como classes sociais, imperialismo ou lutas revolucionárias. De modo que a conjuntura latino-americana parece ter sido deixada para as políticas estatais de integração regional em arenas neoliberais.
Mas a dinâmica própria das lutas políticas no subcontinente latino-americano foi se transformando gradualmente, e a atmosfera política foi encarnando com os ares de novas esquerdas organizadas em torno de sujeitos políticos não clássicos -como os indígenas -, além de governos progressistas com forte apoio popular.
Em consequência, parece ter se renovado também o interesse dos centros universitários e de pesquisa do Brasil sobre a América Latina, ávidos por compreender e acompanhar as transformações políticas regionais. Observa-se assim, na última década, o nascimento de grupos de pesquisa interdisciplinares e especializados em estudos sobre a América Latina ao longo de todo o país. No campo das epistemologias, o pensamento crítico tem se nutrido do pensamento decolonial hispano-americano, das epistemologias do sul da escola portuguesa e dos estudos culturais ingleses e norte-americanos. O eixo da produção do conhecimento também se modificou pela interpelação de uma nova universidade pública no Brasil com missão latino-americanista, a UNILA, no estado de Paraná, ao sul do país.
Nesta proposta, recupera-se a tradição do pensamento crítico brasileiro sobre a América Latina a partir das grandes questões que orientavam o projeto político e intelectual desses intelectuais. Num segundo momento, apresentam-se as novas tendências de interpretação da região, as preocupações epistemológicas contemporâneas e as novas temáticas trabalhadas nos grupos de pesquisa do país. A tese que se defende neste trabalho é que a crise dos anos 1980 e 1990 tem produzido uma quebra na lógica do pensamento crítico brasileiro sobre a América Latina, principalmente no referente ao projeto político intelectual. Entretanto, observa-se também a recuperação progressiva das grandes temáticas desenvolvidas naquele pensamento críticos dos anos 1960 e 1970, atrelada agora às novas preocupações sociais e políticas como raça, etnia e gênero ou meio ambiente, por exemplo. É desta produção de conhecimento de pensamento crítico brasileiro sobre a América Latina que tratamos nesta proposta.