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Resumen de ponencia
A ETNOGRAFIA COMO RECURSO METODOLÓGICO PARA ENFRENTAMENTO DOS PROBLEMAS NAS PESQUISAS MIGRATÓRIAS

*Pedro Marchioro



De acordo com Sayad o imigrante só existe a partir do momento em que ultrapassa a linha que diz respeito à demarcação do território nacional. Só existe, portanto, se considerado de determinado ponto de vista, a saber, da sociedade de imigração. É, pois, dentro dessa dimensão que devemos nos posicionar para compreender os fatores estruturais que incidem sobre os imigrantes.
Por certo há uma complexificação deste binário imi/emigrante, já notado por muitos pesquisadores da migração contemporânea, no que tange a sua dependência dos recortes tradicionais dos Estados-nação. Apontam eles para uma população intermediária, circunscritas aos não-espaços, isto é, aos espaços transnacionais desprovidos dos demarcadores institucionais clássicos. Essa população é, justamente por sua qualidade volátil e impalpável, alvo de anseios de enquadramento e inteligibilidade por órgãos supranacionais, como a ACNUR, a ONU, a OIT, etc.
Todavia, no caso de nosso objeto de análise - os haitianos no Brasil e mais especificamente em Curitiba - a lente da imigração, tal como conceituada por Sayad, torna-se imprescindível, pois são as mesmas que aparecem pontuando, de forma decisiva, o itinerário do imigrante no universo de investigação. Esta lente se alimenta de múltiplas fontes que se entrecruzam não somente para analisar mas para construir seu objeto mesmo – o imigrante. Assume a figura da interpelação performativa, ou seja, do enunciado acaba por constituir aquilo que descreve. O modo como esse imigrante é construído diz respeito, portanto, à própria forma como está construída a sociedade que o constrói. Daí a imigração ganhar traços peculiares condizentes ao espaço de sua imersão. Daí ainda haver diferenças profundas quando comparadas a situações de outras realidades sociais. Posto isso, sobressai-se a necessidade de se obter algum conhecimento estrutural sobre a sociedade de imigração para se compreender o que se passa a partir daí e porque a imigração assume determinados desdobramentos.
Feito este primeiro movimento metodológico, ingressa-se em um segundo sobre as ponderações teóricas do que vem a ser o espaço social de imersão do imigrante considerado para traçar os próximos rumos metodológicos da pesquisa, questões, por exemplo, como “raça” e economia - o desenho que esta assume na configuração de classe e do mercado de trabalho -, vêm a ser fundamentais no caso dessa pesquisa, ao mesmo tempo sobre o modo como estas se relacionam. Nesse sentido, na sociedade brasileira o atributo “raça” está estreitamente ligado ao emprego e configuração da mão de obra, aos ditames jurídicos (noção de justiça, de cidadania, de humanidade), que não podem ser menosprezados, visto que decisões institucionais jamais se fazem sobre um vazio social. Nas palavras de Souza a categoria de raça se centraliza pelo peso que a escravidão teve na história do pais, perpassando todas as suas instituições e constituindo ela mesma uma instituição total. O problema da raça se desloca e antecede a entrada em cena do imigrante. É a partir das condições produzidas pelas instituições marcadas pelo diferencial da raça que os imigrantes serão abordados.
Estes elementos estruturais, macrossociais, são postos em relevo através de indicadores quantitativos, análises probabilísticas, desenhos estatísticos, etc. Através deles podemos apreender a composição das esferas sociais fundamentais do social ou aquelas para as quais direcionamos nossas pesquisas. Por exemplo, sobre o percentual de absorção de pessoas que apresentam determinados atributos (gênero, idade, raça) por determinadas instituições ou sobre a presença das mesmas em determinados níveis ou segmentos. Na maior parte de pesquisas levadas a cabo nesse sentido, observa-se que mulheres e negros estão menos presentes em setores privilegiados das sociedade e mais presentes naqueles de menor prestígio, de modo que se pode levantar pistas, por exemplo, sobre os motivos de haver encontros mais frequentes com estes sujeitos em dados espaços, sob determinadas condições e agindo de determinadas formas. Mas, e daí? Uma vez que o cenário social com suas demarcações diferenciais está delineado, como reconhecer os constrangimentos reais, concretos, sutis que dificultam a passagem dos sujeitos que carregam esses traços e que só eles (ou que nem eles) podem identificar.
Bourdieu demonstrou que são as variáveis estruturais que produzem as bases do mundo social, que balizam as interações e que são, sobretudo, suas determinantes justamente por serem ignoradas enquanto tal pelas consciências que a participam em seus desdobramentos cotidianos. Porém, fora da lógica da causa e efeito, é também nessas interações clivadas por dimensões inconscientes e conscientes que se encontram os princípios da constituição do social, numa lógica relacional.
Quais são então os fatores estruturais que se apresentam aos olhos e incidem sobre o corpo do imigrante quando da transposição das demarcações sociais? É possível apreendê-las? Como? Onde?
Em nossa pesquisa temos trabalhado com a etnografia como ferramenta imprescindível para responder a estas questões. A etnografia, dentro de um quadro de triangulação, cruzada com levantamentos quantitativos e análises estatísticas, configura-se em um momento particular do processo de pesquisa, mesmo que jamais perfazendo uma etapa estanque, mas sempre considerada dentro de uma triangulação que se retroalimenta. É, nesse sentido, o mapa geral, as figuras de grande escala proporcionadas pelos métodos quantitativos que norteiam o pesquisador nas observações em campo, ao mesmo tempo que são as informações trazidas das observações em campo que preenchem os vazios existentes entre os números e traços elaborados pelas ferramentas estatísticas. O quantitativo destaca as linhas mestras com seus dentros e foras em que se localizam e se tencionam os objetos da pesquisa, assim como sobre a composição do universo de análise. Mas é a etnografia que dota de carne e sangue esse esqueleto.
A etnografia também é uma metodologia que se dirige para o estrutural. Tanto a observação quanto as entrevistas buscam captar os padrões gerais que atuam dentro das variações manifestas das ações e dos fatos. Pois, pressupõe-se que a sociedade é marcada pela contingência mas principalmente pela regularidade, numa dinâmica de respostas semelhantes a estímulos parecidos. Em uma entrevista podemos filtrar a variação geral das falas para localizar os fundamentos que se encontram sobre o invariável, ou o menos variável, naquilo que dá suporte às modulações nas falas, aos operadores argumentativos, às ativações emocionais, aos impulsos afetivos, etc. Atua aí a conjunção da dimensão do consciente – aquilo que o agente constrói discursivamente sob os auspícios de seu controle da fala e que envolve a complexidade da presença do interlocutor sobretudo quando se trata do pesquisador – e aquilo que subjaz ao seu discurso, seja a gramática, a linguagem, o inconsciente, o habitus, as disposições individuais ou patrimônios etc. Tanto um quanto outro devem ser remetidos ao seu suposto espaço de construção, devem ser, portanto, reconstruídos a contrapelo pelo pesquisador.
Tendo isso em mente, outras dificuldades se apresentam quando o objeto de investigação trata do imigrante. Este, por definição, é um estrangeiro em sua máxima versão, não fala a mesma língua do pesquisador tanto em termo dos sinais que uma linguagem comporta quanto dos sentidos que estes sinais podem apresentar : quando um haitiano fala “família”, “país”, “dinheiro”, “trabalho”, não está se relacionando com os mesmos significados da sociedade de imigração. O imigrante é um portador ativo da polissemia, e há que se posicionar dentro de seu discurso para captar o significado daquilo que enuncia e comparar, por fim, com os enunciados das instituições que os registram. Estas instituições, como o direito do trabalho, o serviço de assistência social, as comunidades eclesiásticas, tem se mostrado céticas quanto a estas ponderações. Em seus discursos distanciados os haitianos aparecem em um todo homogêneo, como um “saco vazio” onde são lançados e reproduzidos uma série de pré-noções do tipo: “eles são gregários” ou “são individualistas (egoístas)”, e a partir destas noções colocadas como pressupostos, são erguidos os serviços e dispositivos que regulam a existência do imigrante.
Deste modo, a dificuldade reconhecida da língua deve aparecer para o entrevistador como um problema de comunicação, de linguagem geral (como apontada por Malinowski). Ele deve, portanto, ter ciência de estar operando com uma língua intermediária (o português ou espanhol) que se situa entre o nativo e o estrangeiro, e que no máximo tem uma aproximação com o sentido intencionado (dependendo do tempo em que o imigrante reside em território estrangeiro).
Outra dificuldade que tem aparecido na pesquisa sobre os haitianos é a de alcançar a confiança do entrevistado, o “informante representativo”, para desencadear a “bola de neve” ou a população de amostra. Tal dificuldade aparece para qualquer grupo mas aumenta no que toca a maioria dos casos imigrantes uma vez que estes são, em si mesmos, desviantes. De forma que qualquer aproximação do sociólogo se faz sob a atmosfera da desconfiança, vergonha, insegurança, etc. O mesmo não se dá, por exemplo, com profissionais do direito, procurados pelos imigrantes para verificar o que lhes é de direito. Estes se encontram revestidos a priori de legitimidade para fazer-lhes quaisquer perguntas. O sociólogo, como afirma Bourdieu, aborda as pessoas na rua, questiona-as sobre coisas que não são necessariamente objetos de pensamento, e preza pela espontaneidade em que a informação é dada, pelo relaxamento da vigília, pela espontaneidade, pelo comportamento de reflexo. O sociólogo se assemelha ao imigrante, uma vez que corporifica uma infração da ordem, mesmo que dentro da desordem ocasionada pela presença do imigrante.




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* Marchioro
Universidade Federal do Paraná - Programa de Pós-graduação em Sociologia - UFPR/PPGSOCIO. Curitiba, Brasil