Classes subalternas em movimento: um estudo sobre a consciência e as táticas culturais dos de baixo
Desde a etapa inicial de instauração do capitalismo no caso brasileiro - nas primeiras décadas do século XX - as classes populares, formada por ex-escravos, caboclos, indígenas ou brancos de origem popular - tensionaram o projeto hegemônico de sociedade mobilizando esforços para o seu enfrentamento. Seja de maneira auto organizada e teleológica – como a formação de agremiações culturais, sindicatos, associações de moradores e favelas, partidos políticos - seja de maneira mais espontânea em seus cotidianos – como as ocupações de áreas para moradia, a vadiagem e a negação do trabalho como forma de sobrevivência, as populações submetidas ao processo de urbanização que era posto em marcha no Brasil construiu diversas formas de resistência.
Cumpre destacar que o fato não é inaugurado na fase do Brasil capitalista, pois, registram-se diversas revoltas populares deste país ainda escravocrata como a Revolução Praieira, no Nordeste, as diversas paralisações do trabalho pelos negros tornados escravos, a criação de quilombos, ou ainda a Balaiagem na região Norte.
Embora essas iniciativas sejam sempre atacadas pelas classes dominantes, que cumprem a função de eliminar não somente seus líderes, mas também suas ideias e memórias – tem sido relevante o papel de diversos pesquisadores e militantes sociais que tem posto na ordem do dia a importância em explicitar, compreender e incorporar as experiências produzidas por esses movimentos populares. Assim, seguindo a trilha de historiadores como Edward Palmer Thompsom , tem buscado construir um conhecimento e um saber que permita a sistematização dessas práticas e, por consequência, a apropriação do acúmulo produzido por essas experiências.
O fato permite uma observação de que o ser social é um sujeito da história, e de que as pessoas tem estado em movimento na busca pela transformação das coisas, negando – apesar de todo o aparato militar, midiático e jurídico das classes dominantes - as naturalizações impostas pela ideologia hegemônica. No entanto, não serve apenas a isso. Este deslocamento do ponto de partida permite observar que, apesar dos diversos ataques que nós, militantes de movimento sociais – temos sofrido, como por exemplo, o extermínio, o aumento da perseguição às organizações politicas, demissões, etc. somos ainda capazes de produzir resistências e provocar tensionamentos sócio-políticos.
Seguindo essa reflexão epistemológica, esta proposta busca explicitar as estratégias de ordem cultural e estética que são produzidas no Brasil contemporâneo, realizando uma sistematização das principais práticas que os movimentos sociais das classes subalternas tem realizado no país. O objetivo dessa tarefa é identificar – em meio à dispersão de práticas políticas e em meio ao aprofundamento dos ataques às esquerdas - quais instrumentos de ordem cultural são utilizados como táticas por esses movimentos.
Nesse sentido, através de uma revisão bibliográfica, do acesso aos documentos produzidos por esses movimentos e ainda de uma observação aleatória e preliminar, este trabalho registra as atividades realizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto na ocupação Beatriz do Nascimento, que está localizada em Nossa Senhora do Socorro no estado de Sergipe.
Cumpre destacar que a concepção de cultura que aqui está sendo abordada tem relação com as reflexões de Antônio Gramsci, em sua concepção alargada de cultura como sendo uma ética, uma forma e uma visão de mundo que orienta a conduta e as experiências do sujeito no mundo. Na organização da cultura nessa perspectiva diversos elementos são sintetizados (arte, política, imprensa, escola, e outras formas de organização da vida) e conformam uma forma de consciência que é expressão de suas relações materiais. Aqui, também combina-se a análise de Karl Marx e Friedrich Engels que entendem que o processo de produção da consciência do ser social se dá em uma relação dialética – transforma e é transformada – pelas formas materiais de produção da vida.
Assim, no interior dessa perspectiva teórica, essa análise busca identificar qual função essas experiências cumprem no processo de engajamento social e vinculação dos grupos de indivíduos que compõe esses movimentos sociais. Neste ponto, a análise investiga o conceito de catarse, conforme consta no pensamento de Antônio Gramsci. Em sua filosofia política, Gramsci associa o conceito à relação entre economia e política, destacando que a catarse se dá, quando, em movimento, grupos de indivíduos inseridos em processos de luta social realizam a passagem do "momento econômico-corporativo" ao "momento ético-político". O interesse do autor italiano é compreender o processo de constituição da consciência e dos sujeitos sociais e sua relação com os movimentos em luta.
Entre os resultados observados, destaca-se que, a produção de experiências de ordem cultural e estética – como a produção de saraus, as culturais, as místicas, e até mesmo a divisão das tarefas nas cozinhas comunitárias, e a ocupação em si – a moradia coletiva, a construção dos barracos, constituem uma importante ação tática na produção de novas materialidades de vínculo e relações sociais, o que pode conformar novas formas de subjetividade. Nesse sentido, o lugar ocupado passa a ser um importante aparelho privado de hegemonia, hegemonizado pelas classes subalternas que ditam e constroem suas materialidades, gerando ínculos e a constituição de relações de engajamento que, combinadas às experiências de enfrentamento, transformam a materialidade, transformando, assim as formas de pensamento e consciência.
Cumpre destacar que, em sua totalidade, esses elementos apresentam contradições e trazem elementos emergentes, mas também formas residuais e conservadoras de organização da vida.