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Resumen de ponencia
A neuroengenharia como área de convergência tecnológica e suas implicações nos sistemas sociais

*Cesar Augusto Aspiazu Da Silva



O objetivo central deste trabalho foi investigar os processos de transformação da vida humana a partir do acoplamento dos sistemas biológico e tecnológico aos sistemas psíquico e social por meio da convergência tecnológica de áreas que buscam “melhorar a performance humana”. A análise ancora-se na articulação dos estudos sociais de ciência e tecnologia e as perspectivas teóricas de Niklas Luhmann na sua Teoria dos Sistemas Sociais e Ludwig von Bertalanffy na Teoria Geral dos Sistemas. Ao perceber que nas áreas que se encontram na ponta do desenvolvimento cientifico e tecnológico, os objetos de estudo são a própria origem e o futuro da vida, suas agendas de pesquisa se fazem interessantes como fonte empírica de investigação, falamos aqui da Nova Convergência Tecnológica, um programa que reúne Nanotecnologia, Biotecnologia, ciências da Informação, ciências Cognitivas e Neurociência (NBIC – Nano-Bio-Info-Cognitive Technologies) de maneira convergente para aprimorar o desempenho das capacidades humanas.

A partir desse programa tecnológico, o recorte analítico centrou-se na convergência dentro de uma área de concentração que tem crescido exponencialmente nos últimos anos, a neuroengenharia, campo que reúne pesquisadores de diversas subáreas e tem seu programa de desenvolvimento tecnológico filiado de acordo às expectativas das NBIC. Ambas as agendas de pesquisa e desenvolvimento entram em comunhão com o objetivo central de aumentar o potencial humano. Segundo um relatório publicado pela Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos, esse propósito exige a convergência centrada na capacidade humana, incluindo interação homem-máquina, colaboração apoiada por computadores, robótica, comunicação cérebro-cérebro, biomedicina, computação cognitiva e mapeamento da atividade cerebral.
Para investigar como o “progresso humano e social” é entendido no desenvolvimento das tecnologias convergentes, pesquisamos a agenda de pesquisa da Neuroengenharia. O material empírico da pesquisa consistiu numa análise de publicações a partir de uma revisão das revistas de maior impacto na plataforma JCR (Journal Citations Reports). Inicialmente realizou-se um mapeamento das revistas de neurociências, encontrando 259 revistas enquadradas nessa categoria, das quais se destacaram 6 revistas específicas de neuroengenharia. Por questões metodológicas, optou-se por analisar as publicações dessas revistas de maneira quantitativa e, em outro nível, realizamos uma análise qualitativa das publicações de maior impacto nas revistas de maior prestigio científico internacional por entende-las como formadoras de agenda, são estas a Nature e a Science. Neste ponto, cabe destacar que foi analisada uma lista recente de patentes de Interfaces Cérebro-Maquina (ICMs), materializando os empreendimentos de desenvolvimento da neuroengenharia.

A partir dos resultados encontrados, foi possível discutir que impacto do desenvolvimento tecnológico está além do social e além dos seres humanos. O sistema tecnológico tem o potencial de acoplar-se de maneira transversal a todos os sistemas. A tecnologia emerge como forma de mediação entre aquilo que a modernidade divide, o social e o natural, a acoplacão assim pode acontecer em diferentes níveis.
A existência de um organismo vivo é pressuposto fundamental para nossa existência no mundo pelo fato de fornecer estruturas biofísicas que dão sustento a estruturas psicológicas de percepção, que é entendida como processo básico para aprender, tomar conhecimento do ambiente e desenvolver emoções e sentimentos sociais. Os sistemas orgânico e psíquico nos suprem de elementos indispensáveis no processo de socialização, assim entendemos que a relação essencial dos seres humanos se dá com o ambiente, o social está em uma relação interdependente e dinâmica com o natural.

Niklas Luhmann entende que há uma co-evolução do sistema psíquico e social por meio do sentido. A pesquisa tornou compreensível a possibilidade de acoplamento entre o sistema biológico e o sistema tecnológico por meio da construção de ICMs em que o sistema orgânico em certa medida adota a lógica de funcionamento do sistema técnológico, que por consequência interfere na lógica do sistema psíquico e social tanto direta quanto indiretamente. O sentido continua sendo o meio de redução de complexidade do ambiente e reprodução de complexidade no sistema, mas, uma vez que o sistema sofre interferência de outra lógica, a relação com o ambiente também se transforma e o sentido adquire valores diferentes, tendo consequências nos processos de autorreprodução dos sistemas acima mencionados, passando a funcionar sob alguns aspectos dentro da lógica do sistema técnico. É necessário ressaltar que o acoplamento sistêmico não significa dependência inter-sistêmica, mas interferência na lógica de funcionamento, o que não acontece de forma determinista. Unidades sistêmicas não são equivalentes e não podem ser entendidas de maneira reducionista.

A partir do estudo foi possível perceber materialmente como a convergência de tecnológica pode ter a capacidade não somente de cumprir suas metas, mas pode interferir em múltiplas escalas além das previstas, criando tipos outros de sociabilidades ao fornecer ferramentas para novas formas de ser, de pensar e de agir humanas. Concluímos que pela presença das Tecnologias de Informação e Comunicação, de maneira quase que transversal na sociedade ocidental, as formas de socialização já começaram a ser alteradas, somos, pensamos e agimos de maneira diferente. O processo adaptativo mediado pela técnica transforma os limites físicos do espaço e do tempo, permitindo que relações sejam simultaneamente locais e globais, ou seja, híbridas.




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* Aspiazu Da Silva
Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Departamento de Sociologia da UnB. Universidade de Brasilia - PGSOL/UnB. Brasilia/ DF, Brasil