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Resumen de ponencia
As humanidades vão à guerra: a mobilização das ciências humanas estadunidenses para a Segunda Guerra Mundial

*Francisco Cesar Alves Ferraz



Nos tempos em que vivemos, nos quais se testemunha uma onda de ataques às humanidades no mundo todo, e mais particularmente em países de corte neoliberal nas Américas, é oportuno enfatizar a importância das ciências humanas. Para além da necessária reflexão sobre as diferentes dimensões da vida social, também deve ser enfatizado o papel que historicamente as ciências humanas desempenharam na solução de problemas do mundo público e privado.
O objetivo deste trabalho é compreender como sociólogos, cientistas políticos, antropólogos, historiadores e assistentes sociais participaram, com seus conhecimentos e métodos, para o esforço de guerra dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Para este trabalho, foram pesquisados estudos publicados em periódicos acadêmicos nas áreas de ciências humanas, especialmente ciências sociais e serviço social, como The Annals of The American Academy of Political and Social Science, The American Journal of Sociology, The American Political Science Review e Social Forces, bem como arquivos do principal órgão mobilizador dos recursos humanos estadunidenses durante o conflito, o Office of War Mobilization and Reconversion.
Essas ações começaram, na verdade, antes mesmo do envolvimento direto estadunidense na Segunda Guerra Mundial, em dezembro de 1941. Profissionais das ciências humanas estudavam e publicavam os resultados de suas pesquisas sobre as crises da política internacional, mobilização industrial e de recursos humanos em situações bélicas, a ascensão dos fascismos, as relações entre as maiorias e as minorias étnicas e nacionais, o impacto dos deslocamentos populacionais nas políticas internas dos países e nas relações familiares, os efeitos dos recrutamentos em massa em países da Europa e suas potencialidades na iminência de uma possível guerra envolvendo os Estados Unidos, etc.
Após o ataque a Pearl Harbor, contudo, o que era um conjunto de estudos especulativos sobre o passado recente, o presente então em curso e as perspectivas futuras, converteu-se em um esforço generalizado em pesquisar, analisar, propor diagnósticos e soluções para problemas que surgiam à medida que a mobilização para guerra consumia todas as energias do país. Assim, os profissionais das humanidades se voltaram para a análise e solução de problemas em diversas áreas. A primeira área de intensa mobilização foi a da escolha dos critérios e métodos de seleção de jovens para a guerra e para a produção industrial e agrícola. Era necessário separar os grupos de jovens estadunidenses aptos para o treinamento e engajamento em combate, de outros grupos mobilizáveis para a produção industrial e para outras atividades na frente doméstica, como a agropecuária e serviços, de modo a aumentar exponencialmente a produção para uso bélico e para o consumo interno.
Outro emprego de cientistas sociais foi o dos estudos sobre o soldado estadunidense, tanto em seu período de recrutamento e treinamento quanto durante o serviço ativo na guerra: o que pensava, o que afetava seu desempenho em combate e suas relações na retaguarda; sua motivação, suas relações com superiores hierárquicos, com a população das cidades ocupadas, com a frente doméstica; seus planos e receios para a desmobilização.
Na frente interna, os profissionais das humanidades foram chamados para orientar as autoridades do governo federal e dos estados sobre os efeitos colaterais da mobilização nacional para a guerra: a agudização dos problemas sociais dos afro-americanos, o crescimento da participação feminina na força de trabalho industrial e de serviços, as variações demográficas inter-estados e inter-regiões durante a guerra, o aumento da delinquência juvenil, os conflitos entre estadunidenses e grupos “hifenizados” nacionais e étnicos (nipo-americanos, ítalo-americanos, hispano-americanos, indígenas).
De todos os trabalhos efetuados pelos profissionais das humanidades, porém, nenhum teve o alcance e impacto mais duradouros que o planejamento da desmobilização dos combatentes e da reestruturação econômica dos Estados Unidos após o fim do conflito. Os profissionais das humanidades foram chamados para propor soluções para problemas esperados no pós-guerra, como as prováveis ondas de desemprego em massa, após a reconversão da economia hipertrofiada de guerra para os níveis de produção normal; os esperados surtos inflacionários após anos de pleno emprego/renda e poupança forçada pelos racionamentos; o impacto da volta ao país de pelo menos 1/3 da força de trabalho masculina jovem, mobilizada nas duas frentes de combate além-mar e, por último, mas não menos importante, para as mudanças nas expectativas de alguns grupos sociais valorizados durante a guerra, principalmente as mulheres e afro-americanos.
As conclusões do estudo apontam que as contribuições das humanidades foram importantes para a mobilização material e humana durante o conflito e decisivas para o planejamento do pós-guerra nos Estados Unidos, embora nem sempre com resultados socialmente satisfatórios, em termos de soluções de problemas sociais, de gênero e raciais estadunidenses do pós-guerra.




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* Alves Ferraz
Centro de Letras e Ciências Humanas . Universidade Estadual de Londrina - CLCH/UEL. Londrina, Brasil