Este trabalho apresenta os resultados de uma pesquisa de Iniciação Científica (PIVIC) sobre a dinâmica e o uso das redes sociais por jovens feministas, mais especificamente, jovens que participam de coletivos feministas ligados ao movimento estudantil – a União Nacional dos Estudantes. De acordo com diversos teóricos sociais, a circulação de imagens e informações em nossa sociedade são elementos estruturantes do chamado capitalismo tardio, inferindo um novo estágio ao modo de produção capitalista, (Jameson, 1986). Dentro disso, as novas tecnologias da informação emergentes neste processo têm permitido com que novas identidades e relações sociais sejam acionadas através da experiência reflexiva e se realizem a luz dos acontecimentos, conhecimentos e experiências compartilhadas acumulados no dia a dia (Giddens, 2002). Em consonância a este processo, temos assistido no Brasil grandes mobilizações políticas que se articulam na internet; tratam-se de movimentos descentralizados que surgem espontaneamente da indignação contra a injustiça, sem organização partidária e sem liderança. Seus temas, motivações e ideologias de origem são muito diversos, mas repetem as mesmas formas. Em todos eles o espaço de autonomia em relação às instituições estabelecidas que a rede representa é essencial. Como exemplo, temos as “jornadas de junho” e a chamada “primavera feminista”, movimentações que se iniciaram nas redes sociais e levaram milhares de jovens às ruas de todo o país. Assim, pode-se considerar que as técnicas informacionais não podem ser desvinculadas das atividades humanas e de suas ideias e representações: “não podemos separar o mundo material (...) das ideias por meio das quais os objetos técnicos são concebidos e utilizados, nem dos humanos que os inventam, produzam e utilizam.” (LÉVY, 2010, p. 22).
Para Castells (2013), com o avanço das tecnologias de comunicação nos últimos anos, a sociedade passou por uma mudança social de grande escala, que ele vai chamar de “autocomunicação de massas”, ou seja, a possibilidade de transmissão e interação em redes horizontais de comunicação. Este constituiria o novo contexto, uma nova estrutura social, em que os movimentos sociais do século XXI se constituem. Dentro disso, este trabalho trata destas novas formas de militância, a saber, jovens feministas vinculadas a União Nacional dos Estudantes. Assim, foi feita em primeiro lugar, uma etnografia em dois eventos específicos: 7º EME (Encontro de Mulheres Estudantes da União Nacional dos Estudantes) março de 2016, realizado em Niterói (Rio de Janeiro) e as discussões feitas na 10ª Bienal da UNE em janeiro de 2017, em Fortaleza (Ceará). Paralelamente, foi feita uma “etnografia virtual” (RIFIOTIS, 2012) das plataformas de discussões dos grupos e páginas dos eventos. A análise de grupos da rede social Facebook forneceu o campo discursivo de ação (ALVAREZ, 2010) e funcionou como instrumento heurístico na construção conceitual dos questionários. Para Alvarez (2014, p. 18) o campo feminista se articula através de campos discursivos, ou seja, “uma vasta gama de autoras/es individuais e de lugares sociais, culturais e políticos que se articulam formal e informalmente - discursivamente -, através de redes político-comunicativas”. Assim, articulou-se os instrumentos tradicionais da etnografia (entrevistas, observação participante) com o da chamada “etnografia virtual” (RIFIOTIS, 2012). Para Rifiotis (2012, p. 572), “a antropologia não tem fronteiras e não há razão para operarmos na contemporaneidade de modo distinto do que operamos nas “sociedades tradicionais”. Como perspectiva teórica e epistemológica, utilizamos estudos sobre feminismo, jovens feministas e movimentos feministas e estudos sobre cibercultura.
Como resultado, esboçamos uma articulação entre redes sociais (mundo on line) e mundo offline dos movimentos sociais feministas, mais propriamente, as jovens gerações, detectando dinâmicas de uso, apropriação e interação das plataformas digitais e atentando para as pautas mais significativas e profusas devido a sua repercussão.