O presente resumo visa refletir sobre o processo de construção do Projeto Pedagógico do Curso (PPC) de Pedagogia do Campus Bento Gonçalves do Instituto Federal do Rio Grande do Sul. Para essa construção foi apresentada a perspectiva decolonial (QUIJANO, 2005, WALSH, 2006) e interdisciplinar (FAZENDA, 2002) de currículo com base em textos e estudos realizados pelo grupo. O processo de elaboração coletiva do referido projeto foi realizado no decorrer do segundo semestre de 2017 e começo de 2018, liderado pelo Núcleo Docente Estruturante, com base na metodologia dialógica e participativa (FREIRE, 1996, FALS BORDA, 2009). A opção metodológica é decorrente das concepções dos processos educativos que necessitam ser adaptáveis à especificidade do contexto no qual a instituição está inserida. O percurso (auto)formativo dos integrantes do processo foi marcado por muitas tensões, avanços e retrocessos. A construção de conhecimentos é decorrente de um movimento individual e coletivo de sujeitos autônomos, de forma horizontal. Freire (2003) compreende a participação como exercício da expressão, de ter voz, de tomar decisões e não como uma consulta sobre o que é pertinente para um indivíduo e para a sua comunidade. Walsh (2007) concebe a metodologia decolonial como uma relação dialógica que busca criar espaços outros para debater, discutir, analisar, intervir e produzir conhecimentos locais e ancestrais fundados na epistemologia, identidade, ontologia e política.
A colonialidade está relacionada com as relações de poder, ser e saber que perpassam o ambiente educativo. (QUIJANO, 2005). A colonialidade universaliza um conhecimento produzido do e para o contexto europeu. Diante disso, as estruturas representativas do capitalismo, presentes nas relações políticas e econômicas entre Estados, impõem uma epistemologia estranha ao modo de vida das comunidades locais estruturadas com base nas narrativas e formas de organização do trabalho. (MIGNOLO, 2008). A decolonialidade oportuniza uma ruptura com essa epistemologia eurocêntrica que coloniza os corpos e mentes das pessoas que vivem fora do espaço tempo europeu e estadunidense. Castro-Gómez (2007) propõe um giro decolonial que é concebido como um giro epistemológico que provoca uma ruptura com as estruturas raciais e dicotômicas de mundo baseado na ciência positivista.
A colonialidade ainda permanece presente no PPC através de bibliografias e de práticas docentes que ainda serão envolvidos nas reflexões decoloniais. Por exemplo, na organização dos componentes curriculares de filosofia e sociologia da educação que haviam sido pensados para serem um único componente, com dois docentes, de forma interdisciplinar, permaneceram como componentes separados, com carga horária de 60 horas ante as 30 horas da versão atual do PPC. Nos fundamentos e princípios da educação apresentados neste documento basilar do itinerário formativo de docentes da Educação Básica, a decolonialidade se apresenta como um sul a ser seguido (SANTOS, 2010). Em todos os componentes curriculares ofertados por semestre, há uma orientação expressa de que os conteúdos devem ser desenvolvidos de forma interdisciplinar, incluindo atividades e produções acadêmicas e a avaliação. Os conhecimentos das comunidades originárias e o contexto brasileiro e latino americano perpassam os mais de quarenta componentes curriculares do PPC.
REFERENCIAS
CASTRO-GÓMEZ, S.; GROSFOGUEL, R. El giro decolonial. Reflexiones para una diversidad epistémica más allá del capitalismo global. Bogotá: Siglo del Hombre Editores; Universidad Central, Instituto de Estudios Sociales Contemporáneos y Pontifi cia Universidad Javeriana, Instituto Pensar, 2007.
FALS BORDA, Orlando; BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Investigación Participativa. Montevideo: La Banda Oriental, 1987.
FAZENDA, Ivani. Integração e Interdisciplinaridade no Ensino Brasileiro: Efetividade ou Ideologia. 5. ed. São Paulo: Loyola, 2002.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática docente. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
FREIRE, Paulo. Educação e mudança. 27. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2003
MIGNOLO, Walter D. Desobediência epistêmica: a opção decolonial e o significado de identidade em política. In: Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Literatura, língua e identidade, n. 34, p. 287-324, 2008.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, Eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo. A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Refundación del estado em América Latina. Perspectivas desde uma Epistomología del Sur. Lima: Relaju, 2010.
WALSH, Catherine; MIGNOLO, Walter; LINERA, Álvaro García (Org.). Interculturalidad, descolonización del Estado y del conocimiento. Buenos Aires: Editorial Signo, 2006.
WALSH, Catherine. Son posibles unas ciencias sociales/culturas otras? Reflexiones en torno a las epistemologias decoloniales. Nômadas, Universidad Central, Colômbia, n. 26. Abr. 2007.