Tendo em vista a potencialidade de análise linguística por intermédio do gênero meme, neste artigo problematizam-se os discursos nele presentes, uma vez configuradas suas condições de produção e circulação em redes sociais. Compreende-se, para tanto, a necessidade de negociação de sentidos produzidos em interação em sala de aula a partir do conteúdo temático, da composição e do estilo apresentados, os quais, muitas vezes, servem para confrontar colonialidades ainda presentificadas na sociedade (WHALSH, 2013).
Diante disso, intui-se analisar alguns memes, que apresentam perspectivas de reverberação de práticas discriminatórias, a fim de refletir e problematizar os discursos estereotipados neles presentes para (re)constituir práticas humanas e cidadãs. De acordo com Passos (2012), os memes são textos que carregam valores, padrões de comportamento e atitudes da sociedade vigente. Eles, normalmente, são criados e recriados com um teor sarcástico e irônico na intenção de causar riso nos leitores.
Nesse contexto, parte-se da premissa de que a abordagem desse gênero em sala de aula deve partir de uma reflexão e problematização, tendo em vista que existem padrões e atitudes das/nas sociedades imbricadas nesses textos, as quais precisam, ao invés de ser reverberadas, ser contradiscursadas.
Para isso, como metodologia, fundamenta-se na metodologia de análise de conteúdo (MORAES, 1999) cuja finalidade está no âmbito descritivo-interpretativo de conteúdo, do qual procura-se reinterpretar as mensagens textuais, atingindo uma compreensão dos significados em um nível para além de uma leitura comum. Além disso, colaborando com essa perspectiva, utiliza-se os preceitos teóricos da Análise Crítica do Discurso (ADC) (FAIRCLOUGH, 2001), visando a compreender os ditos e não-ditos em textos dos memes aqui analisados.
Os memes em análise foram retirados das páginas virtuais geradormemes.com e Memes Nego. Esses textos são geralmente veiculados em blogs, sites e em redes sociais, tais como facebook e whatsApp. Sendo assim, a pertinência da análise desse gênero na formação social do indivíduo está inerente ao fato de que, pela imbricação deles nas práticas sociais diárias, percebe-se alguns dilemas sociais que precisam ser resistidos através do estudo da língua/linguagem.
Com a análise realizada, pode-se perceber que, de fato, o trabalho organizado a partir do gênero meme abarca a perspectiva da de(s)colonialialidade, uma vez que, através deles, tem-se a possibilidade de, para além de aspectos inerentes ao estudo linguístico, problematizar algumas colonialidades que passam, muitas vezes, despercebidas nas práticas cotidianas de muitos cidadãos.
As análises dos memes evidenciaram que o discurso, tal como afirma Fairclough (2001), contribui para a construção das dimensões estruturais da sociedade e acabam incitando práticas colonizadoras discriminatórias e estereotipadas sobre as classes subalternizadas, no caso, mulheres e negros. A abordagem desses memes, acompanhada de uma perspectiva teórico-metodológica-crítica, subsidia no processo de ensino e aprendizagem voltado à formação cidadã crítica, haja vista que quando os alunos são postos diante desses memes e os analisam, em outros momentos podem deixar de distribuir discursos coloniais através do compartilhamento de outros textos nesse sentido.
Compreende-se que trazer um ensino que instaura um viés decolonial torna-se pertinente no atual contexto, já que, como salienta Gonzales (1984), há um mito de democracia racial no Brasil, afirmando que neste País não existe mais o racismo. No entanto, percebe-se nos memes que os discursos permeados neles trazem a ideia de subserviência dos negros aos brancos. Daí que, se se objetiva uma sociedade baseada na equidade, precisa, de fato, confrontar essas hegemonias através de práticas formadoras coletivas, uma vez que é nos espaços micros que se chega aos macros; é confrontando, desencaixando as categorias de gênero e raça que se podes chegar ao processo ensino/aprendizado mediado pela ideia de de(s)colonização.
Como resultado, observa-se que a perspectiva decolonial de trabalho com o gênero meme, ao visitar questões de poder, gênero e raça, pode propiciar, além da aprendizagem linguística, textual, discursiva e sociopragmática, a aproximação da realidade vivenciada e, principalmente, a educação cidadã e crítica em linguagem.