A PROPOSTA DE ANÁLISE
A presente proposta tem por objetivo explorar o lugar da empatia no exercício do cientista social, não apenas enquanto pesquisador, mas sobretudo como autor. Ou seja, como o mergulho na alteridade (agora do público-alvo) pode contribuir também no processo de construção narrativa e distribuição dos conteúdos gerados no interior da academia, especialmente no âmbito das ciências humanas. A ideia é ajudar a pensar a atuação do historiador e do cientista social de forma geral no combate ao que venho chamando de desequilíbrio de histórias (TÉO, 2018), explorando alguns desdobramentos de um problema relevante no tempo presente e que integra (ou deveria integrar) a essência do nosso ofício. Serão discutidos alguns dos desafios que precisam ser enfrentados, referentes à produção e à circulação de histórias, para então explorar um caso específico: a construção de um portal de conteúdo de impacto social (retrato.site) a partir de um processo de criação baseado no diálogo com a audiência pretendida. O intuito é instigar o debate em torno dos compromissos da história, do historiador e das ciências humanas no combate ao desequilíbrio de histórias, explorando a intersecção entre a produção acadêmica e o mercado de produção de conteúdo, explorando algumas possibilidades de atuação diante do referido problema dentro e fora da academia.
SOBRE O DESEQUILÍBRIO DE HISTÓRIAS
Não há novidade em afirmar que vivemos hoje um (ou vários) desequilíbrio(s) narrativo(s). Chimamanda Adichie, conhecida escritora nigeriana, chamou atenção para o “perigo da história única” (ADICHIE, 2009), um outro nome para o desequilíbrio entre as histórias do ocidente branco, heteronormativo, e as histórias de pessoas que, como ela – mulher negra africana –, não se identificam com estes padrões (de beleza, de paisagem, de valores). Adichie se inspirou na obra do escritor – também nigeriano – Chinua Achebe, responsável por cunhar o conceito de “equilíbrio de histórias” (ACHEBE, 2000a e 200b). Ambos os autores compreendem o poder da narrativa, enxergando-a como o primeiro passo para construir um mundo menos desigual. É também a chave para alcançar uma compreensão complexa da alteridade. Para Achebe, citando um antigo provérbio africano, “até que os leões não aprendam a produzir seus próprios historiadores, a história da caça continuará glorificando o caçador”. O relato chama a atenção para o fato de apenas o caçador escrever as histórias de seus encontros com o leão, tornando-se o herói em todas elas. Os leões, por outro lado, não têm história. E sua força e habilidade na caça não são suficientes para criar um equilíbrio narrativo.
O fato é que, independente do nome que dermos a tal fenômeno, somos todos vítimas, em alguma medida, do desequilíbrio de histórias. Pessoas sofrem com a ausência de narrativas que lhes representem e provoquem identificação. Sem instrumentos de empoderamento, encontram dificuldade em sensibilizar o público estrangeiro às suas comunidades para o valor de suas próprias jornadas. Outras sofrem com a carência de histórias diversas. Sem conhecer o outro, tornam-se agressores, mesmo sem desejar sê-lo. Com baixa capacidade sensível e baixos níveis de empatia, constroem suas vidas sobre bases frágeis, permeadas por conflitos e violência, apesar de garantir privilégios conquistados através do racismo, do machismo, entre outras formas de exclusão. Muitos de nós estão nos dois polos, sendo agredidos e agressores simultaneamente.
Esses conflitos narrativos, presentes ao longo da história e da geografia mundial, tornam-se cada vez mais graves. Apesar da democratização do acesso às ferramentas de produção e circulação de narrativas, sobretudo audiovisuais, novas tecnologias têm sido utilizadas para criar ambientes virtuais cada vez mais fechados e menos diversos, propagando o desequilíbrio narrativo e a invisibilidade social em diversas instâncias de nossa sociedade. Entre brancos e negros, homens e mulheres, heterossexuais e outras formas de expressão e identidade sexual, entre “cidadãos” e imigrantes, entre ocidente e oriente, entre países ricos e subdesenvolvidos, entre a grande mídia tradicional e mídias comunitárias, entre o poder público e o poder comunitário, entre o mercado e outras instâncias da sociedade, como a academia por exemplo.
Histórias são produzidas diariamente aos milhares, respondendo a demandas diversas. A maioria absoluta delas ignora a necessidade de inclusão e diversidade na escolha de seus personagens, alimentando uma complexa cadeia geradora do desequilíbrio de histórias. Tudo isso agravado pelo uso de algoritmos na curadoria involuntária de conteúdos que nos é imposta na maioria das plataformas que acessamos diariamente, bem como no controle da circulação de informações praticado por grandes veículos e plataformas como o Facebook, onde o alcance é definido em grande medida pelo valor do impulsionamento.
É um problema complexo, que envolve diversas variáveis (uso de tecnologias, demanda, oferta e consumo de histórias) e sujeitos (produtores, consumidores, personagens). Acredito que a academia, em especial o campo das ciências humanas, pode e deve integrar esse movimento de transformação rumo a um consumo de histórias mais diverso e inclusivo. A presente proposta tem por fito instigar o debate em torno dos compromissos da história, do historiador e das ciências humanas na formulação de soluções no combate ao desequilíbrio de histórias, explorando a intersecção entre a produção acadêmica e o mercado do ponto de vista metodológico.
AS FONTES
Além de discutir de forma breve e provocativa questões metodológicas e éticas referentes à atuação do cientista social no combate ao desequilíbrio de histórias tomando parte do mercado de produção de conteúdo, a presente proposta explorará o processo de construção de um canal de conteúdo destinado diretamente ao combate do problema em questão. Uma metodologia foi desenvolvida (Criação Baseada na Empatia) para elaborar um plano de conteúdo pautado pelo diálogo com os públicos envolvidos (indivíduos ou grupos afetados, de diferentes formas, pelo desequilíbrio de histórias), de forma que fossem supridas suas demandas. Explorar seus percalços (processo de constituição e aplicação da metodologia) e resultados (plano de conteúdo, produções do portal, modelo de negócios, ferramentas tecnológicas) é um dos objetivos deste trabalho.