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Resumen de ponencia
Da Revolta dos Pinguíns às ocupações das escolas em São Paulo (2015) – o papel dos estudantes nas lutas sociais no Chile e Brasil Contemporâneos – Semelhanças, influências e diferenças.

*Lucca Tori



No dia 30 de maio de 2006 a mídia internacional – principalmente latino-americana – estava voltada para as cenas de grandes movimentos e tumultos que se multiplicavam por diferentes cidades do Chile. Esses acontecimentos inusitados no país foram mobilizados por secundaristas – que em pouco tempo já estavam organizados em nível nacional. Esses estudantes: entraram em greve, ocuparam as escolas, organizaram assembleias, saíram em passeata e voltaram a entoar um forte movimento estudantil no país, que não via algo parecido em 30 anos (ZIBAS, 2008).

O movimento estudantil de secundaristas chilenos no ano de 2006 ficou conhecido como a “Revolta dos Pinguins” - “pinguins” devido aos seus uniformes - e conseguiu ganhar adesão das famílias e de várias organizações sociais em pouco tempo, conseguindo abalar de forma contundente o governo da recém-empossada Michelle Bachelet, tendo essa que fazer reuniões de emergência, pronunciamentos e até mudanças - o caso da demissão do ministro da Educação foi um exemplo da grande influência dessa luta (ZIBAS, 2008).

Ao longo da década de 1990, com a alta liberalização da economia chilena, o setor educacional tinha sido reformulado e privatizado, tornando-se um modelo para quase todos os países vizinhos, como bem coloca Zibas (2008). Por esse mesmo motivo que a mídia internacional passou a ter um interesse cada vez maior pela “Revolta dos Pinguins”, ou seja, tentar compreender o porquê desse movimento.

No ano de 2015 foi a vez do Brasil, mais precisamente no estado de São Paulo, quando o então governador Geraldo Alckmin tentou impor uma reorganização escolar que resultaria no fechamento de 93 escolas e afetaria milhares de estudantes direta ou indiretamente. A grande reestruturação escolar foi organizada sem a participação da sociedade civil, muito menos dos estudantes, os principais afetados, e aconteceria em poucos meses. Isso começou a movimentar diferentes escolas e alunos em suas próprias escolas e com o tempo foi sendo difundido e compartilhado nas redes sociais (Whatsapp e Facebook) com diferentes escolas de diferentes localidades. Assim, estudantes secundaristas, ao perceberem que compartilhavam de indignações comuns, iniciaram um movimento a partir de questões bastante locais – protestos contra as diretorias – mas logo se ampliando para passeatas pelos bairros, protestos nas regiões mais centrais, e em pouco tempo, começava um amplo processo de ocupações de suas escolas (ORTELLADO, 2016).

Pode-se observar, nessa luta dos secundaristas em São Paulo, muitas semelhanças com o que fizeram no Chile em 2006, e de fato existe uma influência nisso. Primeiramente a partir da ideia de ocupar as escolas em São Paulo que só ocorreu depois que o coletivo “O Mal Educado” traduziu um manual feito pelos chilenos durante a “Rebelião dos Pinguins” que era intitulado: “Como Ocupar Sua Escola?”. Este manual foi compartilhado na página “O Mal Educado” do Facebook (e em grupos do Whatsapp), chegando a um grande número de secundaristas. Com o tempo, os estudantes foram rompendo o isolamento individualista do cotidiano escolar e, “(...) criaram uma nova sociabilidade no processo de luta: uma sociabilidade baseada na corresponsabilidade, na horizontalidade dos processos decisórios e no cuidado com o patrimônio público” (ORTELLADO, 2016, p.13).

Essas duas lutas possuem muitas semelhanças, e é possível ver logo de início uma influência por conta do Manual chileno traduzido e a ação das ocupações de escola no estado de São Paulo, assim como fizeram os chilenos. Em São Paulo foram mais de 200 escolas ocupadas num período de um mês, com um apoio grande da população ao longo do tempo, além de intelectuais e artistas, nesse quesito também conseguimos ver uma relação com o acontecido na “Revolta dos Pinguins”, outro fato muito interessante é que mesmo em 2006 no Chile a questão das tecnologias se mostraram importantes, no caso o uso do MSN Messenger, enquanto que as lutas dos secundaristas brasileiros em 2015 tiveram essas novas tecnologias como importantes parceiras também.

Dessa forma, este presente trabalho irá abordar duas importantes lutas secundaristas de diferentes países latino-americanos que tiveram grande sucesso e enorme reconhecimento observando, assim, relações, semelhanças, influências e diferenças. Além disso, levando em consideração que foram movimentos estudantis muito fortes e vitoriosos, numa perspectiva mais à esquerda e autônoma, depois de grande período de certo vácuo no movimento estudantil de ambos os países.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ORTELLADO, Pablo. Prefácio – A primeira flor de julho. In: M.CAMPOS; MEDEIROS; M.RIBEIRO. Escolas de Luta. Ed. Veneta, Coleção Baderna, São Paulo, 1ªEd., 2016.
ZIBAS, Dagmar M. L. “A Revolta dos Pinguins” e o Novo Pacto Educacional Chileno. Revista Brasileira de Educação. Fundação Carlos Chagas, São Paulo, v. 13, n.38, maio/ago, 2008.




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* Tori
Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerância e Conflitos. Universidade de São Paulo - DIVERSITAS-FFLCH/USP. São Paulo, Brasil