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Resumen de ponencia
Uma poética da liberdade na perspectiva de mulheres negras

*Janaina Aparecida Alves De Oliveira



Nas últimas décadas, a prática do sarau delineou novas configurações que extravasam a intervenção da cultura letrada, sendo ressignificada pelas periferias brasileiras – entendidas enquanto localidades às margens dos centros urbanos. A falta de acesso aos equipamentos culturais, fez com que saraus se tornassem parte do cotidiano das comunidades e favelas paulistanas. São realizados em bares, terrenos desapropriados, praças ou centros culturais (comumente improvisados) onde moradores declamam textos de sua autoria ou de outros poetas. Essa população majoritariamente negra, permeada por trajetórias migratórias que se entrecruzam, descobriu nestes encontros um ambiente profícuo para o estabelecimento de uma narrativa periférica que denúncia as violências experimentadas no cotidiano, reivindica direitos civis e simultaneamente, retoma uma ancestralidade, mediante um exercício de deslocamento do passado ao presente sob a premissa de reconhecer sua história e reafirmar a identidade.
Nessa atmosfera encontramos uma população diversa que interage com base em sua condição de marginalidade , ainda que em contextos socioespaciais distintos, compartilham existências permeadas pelas lutas por reconhecimento. Isto nos faz perceber que os saraus periféricos se configuram enquanto espaços de resistência, no qual a afro-brasilidade e a memória da ascendência escravizada tornam-se um denominador comum, transformando-os em “referências simbólicas indicativas de uma comunidade negra no plano local” (SILVA; CLEMENTE, 2014, p.91).
A partir deste contexto buscamos (ou pretendemos) analisar como é concebida a participação das mulheres negras nestes espaços de resistência e de produção do conhecimento. A presença de mulheres em saraus tem se tornado cada vez mais expressiva, entretanto, são poucas àquelas que recitam poesias autorais e tem sua produção literária reconhecida, já que este movimento, apesar de ser um lugar de acolhimento da população periférica, tem enquanto característica a predominância do protagonismo masculino nos espaços da fala e justamente por receber um contingente de pessoas que se conhecem, cria-se uma tensão, entre aquilo que pode e o que não deve ser dito.
Deste modo, nos dedicaremos a produção de poetisas negras no circuito dos saraus periféricos de São Paulo. Para tanto, daremos ênfase a duas referências, o Sarau Das Pretas e o Sarau PretasPeri, por serem inteiramente produzidos por e para mulheres negras e periféricas. O primeiro se caracteriza por ser uma produção itinerante, que circula entre as distintas periferias da cidade – Zonas Leste, Oeste, Norte e Sul – e o Centro, com o propósito de difundir, valorizar e fortalecer as ações culturais nas quais mulheres negras e periféricas, são protagonistas. De modo que o segundo está localizado no extremo Leste da cidade, com o intuito de incentivar a produção da cultura marginal e fortalecer os laços de pertencimento mediante a condição diásporica. O coletivo fomenta ações, debates e mostras artísticas como meio de fortalecer a arte periférica, bem como incentiva o protagonismo feminino na produção cultural.
Vale ressaltar que este universo não recusa a presença masculina, contudo o protagonismo feminino é reivindicado em todo o processo de execução, isto se traduz na performatividade do espaço idealizado exclusivamente por mulheres. A dinâmica destes saraus igualmente busca fortalecer o processo de afirmação identitária através do enaltecimento da ancestralidade africana e afro-brasileira, denunciar o genocídio da população negra e jovem, incorporando as delações de violências que acometem a população feminina da periferia e estão interligadas às questões de raça, classe e gênero.
Neste sentido, percebemos o comprometimento das organizações de saraus periféricos em contribuir no processo de formação sociopolítico dessas populações. Em uma cidade como São Paulo, as manifestações culturais expressam uma ação política que transborda as instituições, e se dedicam ao engajamento histórico da população negra. Assim, representam simultaneamente estratégias de afirmação identitária tanto individual quanto coletiva e se transformam em uma extensa rede de apoio social, ao considerarmos o caráter itinerante que o sarau apresenta na contemporaneidade.
Para entendermos os mecanismos que permeiam as produções identitárias do feminino negro no contexto de nossa pesquisa, nos fundamentaremos em teorias do pensamento feminista negro e dos estudos pós-coloniais, tendo em vista que mulheres negras são acometidas pelas opressões de raça, classe e gênero, compreender o elo dessas intersecções nos levará ao entendimento do processo de exclusão social no qual estão condicionadas.




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* Oliveira
Faculdade de Ciências e Letras-Unesp. Campus de Araraquara. Universidade Estadual Paulista - FCL/CAr. Araraquara, SP , Brasil