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Resumen de ponencia
Práticas linguísticas e diferença colonial em trajetórias de (re)existência textual: um estudo de caso

*Karla Alves De Araújo França Castanheira
*Ludmila Pereira De Almeida
*Nathália Pereira De Oliveira Sousa



As práticas textuais são materializações de discursos, trajetórias e histórias marcadas pela diferença colonial (MIGNOLO, 2003), sendo formas de linguajamento que produzem e são produzidas pelo encontro das histórias locais com as imposições coloniais. Partindo dessa concepção, apresentamos nesse trabalho algumas leituras possíveis de um evento textual encontrado no centro de Goiânia, a segunda maior cidade do centro-oeste brasileiro. Goiânia é uma cidade planejada do início do século XX, fundada em 1933, cujo planejamento traz em si as marcas históricas do momento que a funda: a marcha para o Oeste e o projeto de ‘integração nacional’ (entendido como “dominação do sertão”). Isso pode ser visto em dois monumentos marcantes presentes em seu “centro pioneiro”: o Monumento ao Bandeirante, de 1942, uma estátua de três metros e meio de altura de um bandeirante armado, e, a mais ou menos oitocentos metros dele, o Monumento das Três Raças, oficialmente chamado de Monumento à Goiânia, de 1967, uma “homenagem às três raças que trabalharam na construção da cidade”, uma estátua com três homens erguendo a pedra fundamental da cidade. Hoje, na avenida que conecta os dois monumentos, se encontra um ‘lambe’ (cartazes, dos mais diferentes tamanhos e tipos de papéis, fixados com uma mistura de cola e água, geralmente encontrados em espaços públicos) que diz “quando não tem ninguém olhando os três malucos das três raças saem da praça, sobem a Goiás e dão uma surra no bandeirante”. Os “lambes”, mesmo que sejam formas de comunicação há muito presentes nas sociedades, são considerados ainda formas “alternativas” e mesmo “marginais” de expressão artística, por vezes “englobados” nos recorrentes discursos sobre a “poluição visual das cidades”, o que por si só demonstra uma disputa desigual de poder sobre o direito de “dizer a cidade”, quando colocado em relação às grandes estátuas, com placas metálicas de identificação às quais fazem referência. Pretendemos, neste trabalho, apresentar uma análise dessa inscrição por várias das perspectivas que a perpassam. Apresentando aqui, primeiramente, uma análise textual dessa prática linguística, pensando a textualidade como materialização epistêmica e discursiva (BEAUGRANDE & DRESSLER, 1983). Partindo dela, discutimos como o “mito da miscigenação racial”, tão arraigado na produção do pensamento social brasileiro e na ‘identidade nacional’, representado pelo Monumento à Goiânia, assim como o Bandeirantismo são dois momentos históricos, concomitantes mais do que sobrepostos, da colonialidade interna que se instaura durante o ‘ciclo do ouro’, nos séculos XVII e XVIII, e se fortalece no Brasil a partir da Independência. Essa colonialidade interna no Centro-Oeste brasileiro faz parte da diferença colonial que forma o povo goiano tanto quanto a diferença colonial formada pelas macro-estruturas e pelos dispositivos epistemológicos do sistema mundo colonial/moderno e, defendemos aqui, elas não podem ser dissociadas uma da outra ou entendidas como processos coloniais ‘separados’, e sim contínuos e complementares, que se unem na produção dos saberes e das histórias locais diante das diversas imposições dos projetos globais (MIGNOLO, 2003). Assim, as ideologias que impulsionam a ideia do progresso e mascaram suas consequências às vidas/narrativas (DUSSEL, 2005) chegam e se instauram no Centro-Oeste brasileiro a partir dessa dupla colonialidade, o que invizibiliza as múltiplas formas de se viver/ser/saber nesta região, que se sustentam com a natureza, já que o Cerrado - região em que se encontra Goiânia - se porta como um dos maiores espaços de diversidade sócio-cultural-linguística do planeta (PORTO-GONÇALVES, 2002), mas cuja diversidade é, quando não exterminada, apropriada por discursos dominantes, apagando seus produtores por direito. Sob essa perspectiva, propomos aqui uma análise da inscrição citada acima a partir de como ela tanto textualmente quanto discursivamente e epistemologicamente é uma prática linguística formada (e formadora como todas as práticas linguísticas o são) da formação da memória sócio-histórica, pelo viés linguístico, da população goiana tanto quanto das resiliências/insubmissões geradas pelas e geradoras das múltiplas narrativas que marcam tal povo e constroem os corpos/espaços pelas/nas tensões interseccionais da diferença.




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* Alves De Araújo França Castanheira
Universidade Federal de Goiás. Goiânia, Brasil

* Pereira De Almeida
Universidade Federal de Goiás - UFG. Goiânia, Brasil

* Pereira De Oliveira Sousa
Universidade Federal de Goiás. Goiânia, Brasil